Um, dois, três, quatro, cinco, seis e sete. Sete, o número da sorte, de Cristiano Ronaldo e dos palcos do NOS Alive. Há opções para todos os gostos: para os que só vêm pelos cabeças de cartaz (Palco NOS), os que gostam de ritmo logo pela tarde (Clubbing), os que preferem a cena mais indie (Palco Sagres) e até os que gostam de sonoridades mais lusitanas (EDP Fado Cafe). No meio desta fartura, porém, há um sítio por onde toda a gente tem de passar mas poucos são os que param, escutam e olham.

À primeira impressão, o Pórtico NOS Alive Entrance pode parecer o espaço mais inglório para se atuar, afinal, 99% dos festivaleiros já chegam ao Passeio Marítimo de Algés com o esquema mental daquilo que querem ver — e ele raramente passa por este posto. “Há malta que vem pelo palco principal, outros que preferem o Clubbing, muitos nem visitam todos os espaços, mas por este, quer se queira quer não, têm sempre de passar”, diz Vítor Machado ao Observador.

Transpirado e ainda meio ofegante, o vocalista dos P’laguita, um dos grupos escalados para tocar no pórtico, mantinha há mais de uma hora e meia (o tempo que durou a atuação da sua banda) um sorriso rasgado. “Foi espetacular. Um ponto alto da nossa carreira, literalmente”, atirou, brincando com o facto muito particular de que todos os grupos que por aqui passam tocam a quatro metros do chão, suspensos numa estrutura de infinitas vigas de metal.

“Não é todos os dias que temos oportunidade de ter uma experiência destas”, rematou. Vítor, Rui Pedro Gama (guitarra), Ricardo Almeida (baixo) e Marte Ciro (bateria) tocam juntos há 22 anos e assumem-se como uma banda de covers, muito batida na cena de concertos em clubes e festas privadas. Em 2016 decidiram manter a tradição e visitar o Alive. “Combinamos vir todos à civil, só para curtir a música e o festival”, conta. No primeiro dia, logo à entrada, apontou para o grupo que tocava no mesmo pórtico e disse aos companheiros: “Um dia havemos de tocar ali”. Meu dito, meu feito.

As t-shirts não enganam: a banda P’laguita. Da esquerda para a a direita, Rui Pedro Gama, Vítor Machado, Ricardo Almeida e Marte Ciro. ©André Carrilho/Observador

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Quando o Observador acabou de subir os 29 degraus que desaguam neste palco suspenso, os P’laguita já tocavam. A primeira impressão, ao chegar lá a cima, é a de que o pórtico parece bem mais alto visto de fora. No horizonte, pontos fluorescentes — os seguranças e polícias do festival — apareciam salpicados pela modesta massa de gente que entrava no recinto. O relógio batia nas 16h30 e toda a gente sabe que festivaleiro à séria só chega, pelo menos, umas duas horas mais tarde. Mesmo assim, para Vítor, o número de pessoas já era suficiente para o deixar a ele e ao baterista meio nervosos.

Não, não era por causa da pressão de tocar no maior festival do país ou algo do género, a justificação era bem mais simples: os dois músicos têm vertigens. “Quando cheguei lá a cima não me fez grande confusão, aquilo é como um palco normal, o mais estranho é o efeito ‘escada rolante’ de ver as pessoas a passarem por debaixo de nós. Parece que estamos a cair para a frente!”, clama. Contudo, a adrenalina tem o condão de anular sensações destas e este caso não foi diferente — “Passado um bocado já nem ligávamos a isso”.

Dez anos de concertos pelo ar

“Tudo começou com um concurso de bandas”, explica Paulo Ricardo, o stage manager (responsável máximo deste palco) do pórtico. Sentado no pequeno pré-fabricado da produção, junto às escadas que dão acesso ao palco, Paulo explica que nesses tempos, os vencedores do concurso ganhavam este gig (“concerto” na gíria musical) e “uma série de outras coisas” como a “gravação de um EP”.

Hoje, o paradigma mudou e é a produção do festival que escolhe quem pode tocar lá em cima, sendo habitual que os escolhidos sejam bandas com algum traquejo no circuito de bares, como estes P’laguita. Ao Observador, este homem que já conta com mais de 30 anos de carreira — foi sempre, desde o primeiro Alive, o responsável por este palco — explica que tudo o que acontece nesta porta começa a ser planeado com “muita antecedência” e envolve pessoas de áreas tão variadas como designers, engenheiros, técnicos de som, luz, eletricidade, entre outros.

“Uma empresa desenvolve para a NOS o layout do pórtico e nós, que ficamos encarregados da sua utilização, somos consultados no processo”, refere. Cerca de duas semanas antes da abertura de portas, quando a estrutura já está toda montada, Paulo e a sua equipa visitam o espaço e começam a estudar onde é que tudo vai encaixar, das colunas à mesa de som.

“Isto é tudo igual a qualquer palco ‘normal’, só que estamos pendurados no ar, isso torna a experiência única”. Verdade, mas mesmo assim, não é qualquer palco que tem de receber o equipamento através de uma empilhadora, dois dias antes do festival abrir portas. Independentemente das mais que muitas semelhanças com outros espaços do mesmo género, não deixam de haver desafios complicados como “a chuva e o vento”, que tantas vezes podem dar dores de cabeça. “Felizmente”, explica Paulo, “o São Pedro tem ajudado”.

Paulo Ricardo é o stage manager do palco pórtico. Ocupa esta posição desde o inicio e garante que este é o melhor sítio para se estar.©André Carrilho/Observador

Em dez anos de concertos destes, nunca houve nenhum problema ou complicação, o episódio mais caricato foi mesmo quando “há uns anos” foi preciso desmobilizar o público que, lá em baixo, tinha parado para “curtir” o concerto — “não nos podemos esquecer que isto é um sítio de passagem e que não pode ser bloqueado”. A segurança, como deu para ver — há uma espécie de arame grosso, invisível para os mais desatentos, que serve de gradeamento, à frente da banda, para evitar azares– é levada muito a sério. Para lá do grupo em palco trabalham aqui seis pessoas, sempre, e há imenso material guardado no mini-backstage, tudo calculado e pesado para que exista uma generosa margem de segurança até atingir-se o limite de peso (“não sei ao certo quanto é, mas é generoso”).

Ao longo destes anos, Paulo já colecionou momentos curiosos que fez questão de recordar. Muitos músicos que por aqui passam têm carreiras sólidas a tocar com artistas mais conhecidos como João Pedro Pais ou Tiago Bettencourt, e isso já deu origem a episódios curiosos:

“Há uns anos, por exemplo, tive aqui um teclista que mal acabou de tocar teve de ir a correr para o Palco NOS porque ia tocar com os HMB”, afirma, entre risos. Outro pormenor caricato foi o de uma banda que aproveitou a vantagem da altura para, a meio do concerto, “lançar uns papelinhos” com o nome do grupo e indicações para a sua página de Facebook.

Momentos antes do concerto dos P’laguita terminar, Paulo Ricardo passou pelo Observador, que aguardava o fim do show, para falar com os músicos. “Está-se muita bem aqui, não está? É o melhor palco!”, gritou, meio abafado pelo som da canção “Even Flow”, dos Pearl Jam (“escolhemos cantar algumas canções dos cabeças de cartaz, para o pessoal se identificar logo”, explicou Vítor Machado). Se é ou não, não podemos dizer, mas uma coisa é certa — está longe de ser o lugar inócuo que muitos acham que é.