São mais de 20 os construtores que já anunciaram que não irão marcar presença na próxima edição do Salão de Paris, um dos maiores certames automóveis mundiais e, até há bem pouco tempo, um evento incontornável na agenda de qualquer fabricante.

BMW, Ford, Mazda, Mitsubishi, Nissan, Infiniti, Opel, Subaru, Volvo e todas as marcas dos grupos Volkswagen e Fiat Chrysler Automobiles (segundo a Motoring) não vão ao próximo Salão de Paris. Ou seja, Volkswagen, Audi, Skoda, Seat, Bentley, Bugatti, Lamborghini e Porsche falham, juntando-se à lista de não presenças a Jeep, a Fiat, a Abarth e a Alfa Romeo. Porquê?

A resposta, pela boca do patrão da Volkswagen, é simples: “Os salões automóvel estão mortos.” Foi esta a explicação que Herbert Diess deu à Motoring, como justificação para a não comparência no certame francês de todas as marcas do conglomerado germânico.

Os salões são um produto da década de 1960 cada vez com menor relevância. Esta fórmula já não nos dá o retorno que queremos e também já não vai ao encontro daquilo que o público quer”, defende.

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Mortos ou ultrapassados, certo é que os salões têm assistido a um desinvestimento crescente. E a palavra é mesmo essa: desinvestimento. Enquanto Genebra se realiza todos os anos, o certame de Paris alterna com o de Frankfurt. O ano passado, o evento alemão já se ressentiu com a falta de cerca de uma dezena de construtores e isso reflectiu-se, naturalmente, nas contas da organização. O facto de este ano não irem a Paris mais de 20 marcas, praticamente o dobro, será um tremendo rombo. Tanto mais que só o stand da Volkswagen costuma ser um dos maiores “contribuintes” para a contabilidade de qualquer salão.

Em Frankfurt, conforme apurámos, a marca germânica gastaria qualquer coisa como 8 a 10 milhões de euros – um número só batido pela Mercedes, capaz de desembolsar para cima de 10 milhões. Mas até uma presença mais “discreta” anda sempre na casa dos milhões. Em média, entre 3 e 4 milhões – tudo depende da área do stand, do formato e da tecnologia contratados.

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A Volvo foi das primeiras a fazer as contas entre o que gastava e o que ganhava e a assumir publicamente que salões, jamais! O construtor sueco prefere investir na criação de eventos próprios, garantindo que gasta menos e tem mais atenção mediática. Afinal de contas, se os jornalistas são deslocados para uma vivenda qualquer, algures, não têm como ‘fugir’ – ao contrário do que acontece num salão, onde se anda a correr de um lado para o outro, de marca em marca…

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Diess leva o Grupo Volkswagen pelo mesmo caminho. Para ele, “a tradição já não é o que era” e é preciso encontrar formas alternativas, mais eficazes, para comunicar produto. Seja com os meios de comunicação social, seja com o público: “Eventos como o Festival de Velocidade de Goodwood [onde a VW esteve e voltou a bater um recorde] são um formato mais moderno para mostrar automóveis às pessoas.” Segundo o executivo, “o público quer mais interacção”, e num formato convencional de salão não há test drives, por exemplo.

O Consumer Electronics Show (CES) de Las Vegas tem vindo a ganhar terreno justamente por promover uma maior interacção. Tanto que, como habitualmente se realiza em Janeiro (a próxima edição será entre os dias 8 e 12), tem vindo a dividir construtores que, se vão ao CES, não vão ao “tradicional” Salão de Detroit. Em 2020, pela primeira vez, a organização da feira de Detroit vai trocar o primeiro mês do ano por Junho, dando um intervalo maior em relação ao CES e prometendo “reinventar-se”.

Pode ser que, com as mudanças prometidas, Detroit escape às faltas… Mas não é evidente pois, além do que gastam, os construtores têm presente as tendências do mercado. E não faltam estudos a concluir que a Internet é cada vez mais o meio escolhido por potenciais compradores para conhecerem melhor um determinado modelo. Num salão, onde se gasta tempo e dinheiro, um hipotético cliente não consegue obter a mesma informação e nem sempre é fácil contactar com o produto (ver, mexer, sentar), tal é a quantidade de pessoas mais interessadas em tirar selfies e postar…