São 1917 as queixas contra médicos que ainda estão a ser analisadas, sendo 563 referentes aos primeiros seis meses deste ano e as restantes de processos que transitaram de anos anteriores, avançou esta segunda-feira o jornal Público. Em média, trata-se de três reclamações por dia.

Segundo o presidente disciplinar do Sul, Carlos Pereira Alves, estes processos abertos pelos três conselhos disciplinares da Ordem dos Médicos estão a “seguir o seu trajeto normal”, sendo “distribuídos pelos relatores”.

O jornal utiliza o exemplo dos casos mediáticos do médico Manuel Pinto Coelho que defendeu, numa entrevista ao Expresso, a ingestão de água do mar diluída, a exposição ao sol sem uso de protetor e desaconselhou o consumo de estatinas em muitos casos de colesterol elevado, e de Gentil Martins que gerou polémica ao dizer que a homossexualidade era “uma anomalia”.

“O Dr. Pinto Coelho fez várias afirmações sobre o tratamento do colesterol. Houve médicos que me reportaram que alguns doentes deles deixaram de fazer estatinas depois de o terem ouvido. Os potenciais efeitos nos doentes não são imediatos, serão passados uns anos. Em relação às vacinas, provavelmente não haverá nada com um valor tão provado como as vacinas. Salvam milhões de vidas todos os anos”, disse o bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, em declarações ao jornal, acrescentando que estas situações são “graves” e que está “muito preocupado” pelo facto de os processos não estarem concluídos.

Os dados da Ordem dos Médicos indicam ainda que nos últimos cinco anos e meio foram mais de 3.000 processos arquivados, com 290 a darem origem a condenações — 37 suspensões e cinco expulsões. A maior parte das queixas pertencem ao conselho disciplinar do Sul, com 1.348 reclamações, tendo o Norte 162 e o Centro 407. Carlos Pereira Alves diz que “o Sul tem mais processos, porque tem mais médicos”, tendo em conta que estão inscritos perto de 25 mil clínicos.

Sobre o motivo das reclamações, a organização dos serviços, a falta de meios, a forma como o médico falou com o doente, a não realização de exames que o doente costumava fazer e situações de alegada negligência são alguns dos problemas que originam mais queixas contra os médicos.

Segundo a presidente do conselho disciplinar do Centro, Isabel Cruzeiro, “as queixas têm aumentado” por um lado porque os cidadãos estão mais alerta para os seus direitos e, por outro lado, por processos relacionados “com a exaustão” dos profissionais, com o acréscimo de queixas de relacionamento entre médicos. Os números indicam também que as especialidades que recebem mais queixas são a medicina do trabalho e medicina geral e familiar.