“Como disse Shakespeare, algo está podre na Dinamarca”, disse a apresentadora da Fox News Trish Regan, tentando citar a peça “Hamlet” para ilustrar o seu pensamento. O comentário de Regan partiu da situação na Venezuela — descrevendo a elevada inflação, os motins nas ruas e a subnutrição da população — e acabou na Dinamarca, com a apresentadora a concluir que os dois países “socialistas” são semelhantes, porque roubam “oportunidades” ao seu povo.

O vídeo provocou reações acesas na Dinamarca, sobretudo da parte de políticos, que se apressaram a desmentir muitos dos factos apresentados pela apresentadora.

“A Dinamarca, tal como a Venezuela, roubou as oportunidades ao seu povo. É nessa direção que queremos ir?”, questionou a apresentadora, depois de ter afirmado que os democratas norte-americanos querem seguir este modelo — que, segundo ela, é semelhante nos dois países. Para sustentar a sua teoria, Regan apresenta vários dados: a taxa de IRS é, segundo a apresentadora 56%; o desemprego é elevado porque, diz, apenas três cidades têm níveis de emprego superiores a 50%; e, acrescenta, “ninguém se licencia, ficam na escola mais tempo e mais tempo e mais tempo”, graças ao subsídio pago pelo Estado aos estudantes.

Em reação às declarações de Regan, vários políticos dinamarqueses reagiram, indignados, e apressaram-se a desmentir os dados apresentados pela apresentadora. Foi o caso do ministro das Finanças, Kristian Jensen, membro do partido de centro-direita Venstre. “Devia vir à Dinamarca para ser confrontada com os factos”, avisou o ministro, apresentando dados da OCDE que colocam a Dinamarca 11 lugares à frente dos Estados Unidos em termos de emprego a nível nacional.

O ministro deu ainda uma entrevista à agência Ritzau onde se disse “zangado” por ver “uma imagem tão errada da Dinamarca” a ser divulgada na televisão norte-americana. “A Trish pode pensar o que quiser sobre a Dinamarca, mas tem de ser numa base factual.”

A comparação com a Venezuela também não agradou ao ministro, segundo explica o jornal de língua inglesa em Copenhaga The Local: “A Venezuela é uma ditadura socialista. A Dinamarca é uma economia livre e regulada. Somos, de acordo com todas as estatísticas, uma das economias mais abertas e mais livres”, sublinhou. Jensen aproveitou ainda para comentar a situação nos Estados Unidos, dizendo que o país está numa situação “perigosa” porque o jornalismo político perdeu noção dos factos. “Todos têm direito às suas opiniões, mas ninguém tem direito aos seus próprios factos.”

O embaixador dinamarquês nos Estados Unidos, Lars Gert Lose, também reagiu no Twitter, publicando um documento com vários dados sobre a Dinamarca, como o facto de estar seis lugares acima dos EUA no Índice de Liberdade Económica da Fundação Heritage.

Também Dan Jørgensen, ex-ministro da Alimentação, Agricultura e Pescas do Partido Social Democrata (centro-esquerda), reagiu às declarações de Trish com humor. “Hoje em dia, todos os miúdos que se licenciam na Dinamarca querem começar cafés de cupcakes”, disse a apresentadora. O político reagiu desabafando: “Quem me dera que isso fosse [uma afirmação] correta, porque eu adoro cupcakes.”

O jornalista do The Local Michael Barrett também aproveitou para esclarecer alguns dos “factos” apresentados pela apresentadora da Fox News. De acordo com o jornalista, embora os cidadãos dinamarqueses com mais posses paguem impostos sobre os rendimentos acima dos 50%, a média dos dinamarqueses paga cerca de 34% de taxa de IRS, de acordo com dados do ministério dos Impostos de 2016.

Relativamente à acusação de que a maioria dos estudantes universitários arrasta os estudos e evita terminá-los, Barrett explica que não só a duração média para tirar uma licenciatura na Dinamarca está nos três anos, como esse valor tem vindo a ser reduzido ao longo dos anos.

Na sequência de todas estas reações, a apresentadora acabou por fazer uma clarificação na Fox News, dizendo que foi mal interpretada. “Nunca quis dar a entender que as condições na Dinamarca são semelhantes de que forma for às da tragédia atual que se vive na Venezuela”, disse. “Estava apenas a chamar a atenção, usando notícias da [revista] Atlantic, do [jornal] Independent e de outras publicações, que o socialismo não é o caminho.”