Vodafone Paredes de Coura

O homem tigre veio assanhado, os Fleet Foxes podem voltar sempre que quiserem

Rock, punk, indie-pop, electrónica, funk e soul: houve de tudo no segundo dia de festival Vodafone Paredes de Coura, incluindo momentos para homenagear a Aretha Franklin.

Robin Pecknold, vocalista dos Fleet Foxes. Veja aqui mais imagens da segunda noite de Paredes de Coura

HUGO LIMA.com

Já a funcionar a todo gás, o segundo dia de festival começou com duas bandas de milénios distintos, mas com uma paixão em comum: Paredes de Coura. Os mais veteranos, X-Wife, tiveram a seus pés uma encosta bem mais preenchida do que aquela que se mostrou tímida no dia anterior à mesma hora.

A intimidade com o festival nota-se na ginga fácil em palco: sopros soltos lá atrás, apoiados pelos back vocals de Rita Silva e Liliana Marinho, a dar pinta funk sobre a essência rock da bateria, do baixo e da guitarra; um Rui Maia a colar tudo com electrónica que nos põe a dançar fácil, ainda com o sol a bater-nos na cara, e João Vieira, o mestre-de-cerimónias, imparável a articular toda esta energia.

Em “Boom Shaka Boom” pediu-nos para celebrar a vida, e eles sabem-na gozar há muito tempo. Ainda deu uma palavrinha ao pessoal da Galiza cantando em espalhol para terminar com “Movin’ up” e um obrigado a Coura, “foi aqui que começámos em 2003”, 15 anos depois continuam-nos a dar bons motivos para os seguirmos de perto.

Felizes também estavam os Fugly e Pedro Feio não deixou passar isso em branco: “Há 10 anos que temos vindo ao festival e sempre sonhámos estar aqui deste lado.” Estiveram e bem, a rasgar de guitarra e baixo em tronco nu, atitude punk dos pés à cabeça. “Muito obrigado a todos vocês” agradeceu no final, depois da – arriscamos — mais importante atuação da ainda curta carreira dos donos de Millennial Shit. Nem o beijinho à mãe faltou antes do fecho, desabafos de coração de um homem realizado.

Suceder-lhe-iam os The Mystery Lights, com uma entrada retardada por uns problemas técnicos, um barulho qualquer de um cabo de guitarra, reverberação chatinha a zumbir nos ouvidos, mas Mike Brandon e Luis “L.A.” Solano deitaram isso para trás das costas, “One more song?” perguntaram a berrar e, sem esperar pela resposta, atiraram-se para “Melt” e para todo aquele psych-garage que não tropeça em cabos moles.

Nos intervalos desta trilogia ainda houve tempo para descontrair na relva com amigos ou família. Viam-se crianças a correr no verde, daqui a uns anos é provável que estejam a acampar, a recuperar energias em cima de um colchão de borracha pousado no rio Coura, a ouvir de olhos fechados os concertos no Taboão do Jazz na Relva e a beber umas cervejas para não descurar na hidratação. E por falar em cervejas, este ano o festival terminou com o sistema copo-caução, aplaudido pela significativa redução de lixo que gerou no recinto, para adotar a fórmula copo-recordação.

Quer queiramos quer não, o copo do nosso fino é-nos cobrado pela quantia simbólica de um euro, podendo ser trocado ao longo da noite mas nunca devolvido. A verdade é que não se vê nenhum abandonado na relva, a preocupação ambiental veio para ficar. Como o copo, que segue connosco para casa.

Rock’n’Roll, hoje e sempre: Shame e Tigerman, com Japanese Breakfast entre parêntesis

Entre Shame e Tigerman houve Michelle Zauner, aka Japanese Breakfast. Uma estreia em Portugal acarinhada pelo muito público que a amparou no palco secundário. Ela mostrou-se com o seu ar cândido que de naive nada tem. Voz embalada na sofrida Boyish, numa letra interpretada mais com dor epicurista do que com picos de mágoa. A plateia, de olhos fechados nas filas da frente, ondulava suavemente na cadência dos versos, everybody wants to love you. No final, como já tem acontecido noutras atuações, ainda trouxe Dolores O’Riordan ao festival, com a sua versão de “Dream” dos The Cranberries. Uma bonita reencarnação.

O concerto de Japanese Breakfast foi um parêntese entre dois furacões que, a seu modo, cuspiram rock dos micros e encharcaram-nos de suor. Primeiro “Shame” com aquele insubordinado post-punk das ruas de Londres, punho firme no confronto, língua afiada contra os tory, o Brexit, o The Sun — que lhes exigiu respeitinho nas abordagens a Theresa May

Oh Theresa, honey
You know that I mind the gap
With my chargrilled meat
Inside your butter-bread baps

Mas eles, no seu estilo anárquico, continuaram sem vergonha na cara, que é como o anarchy in the uk deve ser. “We don’t care” dizia Charlie Steen aos seguranças enquanto incentivava a plateia a fazer o que lhe apetecesse, “enjoy yourself” – e lá escorregaram corpos no crowdsurf. Fazia-se noite em Paredes de Coura mas a encosta queria mais.

E eis que The Lengendary Tigerman chega. “É um enorme prazer estar de volta”, diz-nos, apesar do desatino com os microfones. “Pusemos homens na lua, mas não conseguimos meter dois microfones direitos num concerto de tigerman”, desabafa entre dentes. Nada que um “Naked Blues” não cure, “hoje estou com tanto amor por vocês, que se foda o feedback!”

Os acordes lembraram-nos de um tempo em que o tigre não andava em alcateia. Agora tem o peso de Paulo Segadães na bateria, expressão de Tom Waits na feição, a dureza do baixo de Filipe Rocha e o saxofone animal de João Cabrita, que já na última passagem da one man band por Coura entranhou-se bem bem na sua postura desalinhada. O entendimento dos quatro é aliás catatónico. João berra nos agudos encostado a Tigerman que, por sua vez, não desarma e cola-lhe o bigode aos olhos, irritado na guitarra, I gotta go away/a thousand miles away, a bateria incendeia este frente-a-frente com pancadas diabolizadas pelo baixo, o rock’n’roll vai sendo esventrado sem dó nem piedade até à reta final.

É aí que, vestindo a pele de pregador, Paulo Furtado se põe de pé nas grades a repetir insaciavelmente, “o que é que vocês estão a sentir?” e a resposta surge sempre em berro e de braço erguido, “ROCK N ROLL”. Twenty First Century Rock’ N’ Roll pôs fim a um ritual em que Tigerman se sacrificou atirando-se para a plateia, seita fanática por esta altura, se pôs de pé em cima da bateria, dos amplificadores para, no acorde derradeiro, se ajoelhar já sem óculos e confessar rendido, “vocês são o mais bonito público de sempre, obrigado!”.

Surma muda o registo, Fleet Foxes desconstroem harmonias e os Jungle fazem a festa

Limpado o suor das costas, da cara, de todos os poros, e com mais uma paragem na zona de restauração para engolir qualquer coisa que console o estômago, é em direção ao palco Vodafone FM que o público se vai aninhando para mergulhar em Surma. A curiosidade era grande, entre os que já a conheciam e os que só tinham ouvido falar, “parece que foi um dos melhores álbuns do ano”, é verdade. Antwerpen foi nomeado melhor disco independente europeu de 2017 pela Associação Europeia de Editoras Independentes, correu mais de uma dezena de países em digressão e chegava agora a Paredes de Coura.

Os primeiros minutos cumpriram com o prometido. Foi uma fauna moldada à sua imagem que ali se plantou, envolvida por samples tântricos entre interpretações a lembrar uma Bjork de Vespertine, com harpas do além. Assim que parou pela primeira vez, Débora Umbelino deixou cair a pele de Surma para mandar um “Olá malta” de ombros encolhidos, “estou mega nervosa”. Ninguém diria pelo modo como soltou o animal esguio guardado dentro dela, que tanto rasteja no subsolo como uiva à lua. Tudo está em metamorfose quando Surma se assume.

Do outro lado, a enchente denunciava o aproximar de Fleet Foxes. Mal Robin Pecknold abriu os primeiros acordes da noite, com “White Winter Hymnal”, percebemos que não só não eram poucos os que ali estavam para os ver, como muitos sabiam as letras de cor. E mesmo quem se ficava pelo “I was Following Theeee”, não deixava de trautear o resto da melodia com precisão orquestral.

Apesar desse entusiasmo todo, demorou um pouco para que o concerto ganhasse o equilíbrio que em estúdio valeu rasgados e sucessivos elogios ao country-folk-rock da banda de Seattle. Chegámos a sonhar com este mesmo momento, só que sentados na relva no pôr-do-sol. As cores do entardecer combinariam lindamente com as harmonias luminosas dos Fleet Foxes. Mas o crescendo até ao final, com vários “we love you” pelo meio, instrumentais soltos assentes em guitarras sonhadoras que de repente caiam para que “Blue Ridge Mountain” brilhasse na voz de Robin ou para o “Helplessness Blues” final, que mais uma vez juntou a plateia numa só voz, fizeram com que este regresso dos Fleet Foxes a Portugal fosse genuinamente bonito.

And I don’t I don’t know who to believe
I’ll get back to you someday
Soon you will see

Time to dance

Ninguém arredou pé dali depois dos Fleet Foxes desaparecem nas ovações dos fãs, o público queria levar este segundo dia até ao fim. E foi quando faltavam 15 minutos para a uma da manhã que a guitarra, bateria, congas e bongós se alinharam na fila de trás, com Josh Lloyd-Watson e Tom McFarland à frente, ladeados por duas vozes femininas que juntas a J e T construíram o falsete que denunciou de imediato a presença dos Jungle em palco.

Abriram com “Platoon”, single chorudo que nem dá hipótese aos reticentes – se é que os havia naquele recinto. Multidão toda a dançar, o mosh foi deixado lá atrás, num passado bem fresquinho e, música atrás de música, foi ganhando forma um outro tipo de contacto corporal, mais sedutor. The Heat arrancou um “ca ganda concerto” de um rapaz ao nosso lado, ele tinha razão. Os Jungle fizeram de Paredes de Coura um club a céu aberto, daqueles dos anos 70 cheios de groove, soul, funk e algum tropicalismo à mistura. Dançava-se com prazer e J T estavam abertamente entusiasmados com aquele cenário, “não conseguíamos imaginar um sítio mais bonito que este, com pessoas tão bonitas, para dançar esta noite”.

Lá foram pedindo “make some noise” de quando em vez, pedido respeitado com uma adesão sem limites – os tímpanos chegaram a tremer com os assobios de excitação que a encosta cheia atirou para o palco. Aproveitaram a boa onda que ali se vivia para apresentar alguns temas do álbum que vai sair no próximo dia 14 de Setembro. “For Ever” rodou sem sobressaltos, não havia como arrefecer aquele calor.

Quase no final homenagearam Aretha Franklin, inspiração para eles e para tantos outros. “I miss you” não verteu lágrimas mas encadeou com soul, daquele que a rainha se orgulharia de dançar esta noite neste recinto. “Busy Earnin’” e “Time” fecharam com chave de ouro uma atuação de quase duas horas em delírio absoluto. Os Jungle saíram do palco em apoteose e deixaram as colunas ligadas de propósito:

What you want
Baby I got it
What you need
Do you know I got it

Respeito, assim o souberam dedicar e conquistar.

Quem ainda teve forças para continuar, não se arrependeu com Confidence Man e Young Marco no after-hours. Quem escolheu ir para casa, despediu-se deste segundo dia com uma imagem bonita.

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