Há poucos dias, no Teatro da Politécnica, em Lisboa, ensaiava-se  O Vento num Violino, peça do argentino Claudio Tolcachir sobre o fim da adolescência e a difícil relação entre pais e filhos, com estreia-se marcada para 5 de setembro. Será o arranque da nova temporada dos Artistas Unidos. Nos próximos meses, o grupo fundado e dirigido por Jorge Silva Melo vai apresentar outras novidades, incluindo uma peça de Arthur Miller e outra de Dimítris Dimitríadis.

Apesar dos planos, o encenador está preocupado. Depois de um ensaio, na semana passada, disse ao Observador que se trata da temporada “mais mal preparada de sempre” e responsabilizou a Secretaria de Estado da Cultura (SEC). Os Artistas Unidos estiveram vários meses parados por falta de financiamento público em 2017 e devido aos atrasos deste ano no polémico concurso de apoio a quatro anos, promovido pela SEC e pela Direção-Geral das Artes (DGArtes). Os resultados finais para a área do teatro foram conhecidos em maio, depois de críticas e manifestações de rua por parte de milhares de artistas que contestavam a falta de verbas e a exclusão de muitos projetos candidatos. Algumas das estruturas que ficaram sem subsídios ainda esperam resposta aos recursos entretanto apresentados.

Aos Artistas Unidos, o júri da DGArtes decidiu atribuir um montante global de 1 milhão e 203 mil euros, correspondente a 279 mil em 2018 e 308 mil por ano até 2021. É a segunda verba mais alta a nível nacional, logo abaixo do subsídio de 1 milhão e 248 mil euros da Companhia de Teatro de Almada, de acordo com os números publicados pela DGArtes.

Os valores cobrem cerca de 45% do orçamento dos Artistas Unidos e deixam Jorge Silva Melo um pouco mais descansado, porque dão à companhia um horizonte alargado de trabalho. “Mas sem folgas”, avisou, pelo que “é preciso uma gestão muita cautelosa”.  Além disso, de acordo com o encenador, só em janeiro serão conhecidas as datas para as transferências periódicas de dinheiro dos cofres do Estado para a companhia de teatro. “São as aterradoras cativações das Finanças, temos de poupar até lá, para não sermos surpreendidos”, disse.

Quando o Observador lhe perguntou se responsabiliza diretamente o ministro da Cultura, Luís Filipe de Castro Mendes, pelos problemas nos concursos de apoio às artes, Jorge Silva Melo respondeu que o principal responsável é Miguel Honrado, secretário de Estado da Cultura: “Sou amigo pessoal do ministro e defendê-lo-ei sempre, mas já lhe disse que neste caso foi um mau trabalho. Critico o concurso, acho-o aberrante, os resultados são catastróficos, acho que a Secretaria de Estado da Cultura fez um mau trabalho. Os resultados deste inacreditável concurso vieram tardíssimo. As perguntam e as exigências que faziam nos formulários eram loucas. Só em junho soube o que ia fazer no resto do ano e em 2019. Ora, em julho, as pessoas iam de férias. Como é que se organiza uma temporada nestas condições, como é que podemos comprar direitos de autor e contratar elencos? Estivemos aflitos, com a angústia de não saber quando iríamos trabalhar. Agora já sabemos. É modesto, mas é alguma coisa. Nos próximos meses, isto vai desanuviar”.

Novidades deste ano e de 2019

A nova temporada dos Artistas Unidos está ainda em construção. Inicia-se com O Vento num Violino, em cena de 5 de setembro a 13 de outubro no Teatro da Politécnica, no Príncipe Real. A 14 de setembro no Teatro Viriato, em Viseu, a companhia faz a estreia absoluta de Do Alto da Ponte, drama passional nos portos de Nova Iorque com imigrantes italianos. Peça de Arthur Miller, escrita em 1955, entra em digressão até janeiro de 2019 e vai passar por nove palcos: Guarda, Leiria, Cartaxo, Vila Real, Bragança, Ponte de Lima, Aveiro, Porto e Lisboa.

A 31 de outubro, estreia-se Retrato de uma Mulher Árabe a Olhar o Mar, de Davide Carnevali, com direção de Jorge Silva Melo. “Um homem europeu olha uma rapariga árabe com interesse e desejo, cultural e sexual, e vemos as consequências disso”, resumiu o encenador, que aqui trabalhará com os atores Inês Pereira, João Meireles, Margarida Correia e o Nuno Gonçalo Rodrigues. Os ensaios começam já em setembro.

Em janeiro, Os Aliens, da norte-americana Annie Baker, com Pedro Carraca a dirigir. Em setembro de 2019, as dificuldades das relações amorosas em A Circularidade do Quadrado, de Dimítris Dimitríadis, poeta e dramaturgo grego que os Artistas Unidos têm vindo a apresentar nos últimos anos. Produção exigente, com dez atores dirigidos por Silva Melo, será “o grande trabalho” dos Artistas Unidos no próximo ano.

Na segunda metade de 2019, apresentam um texto da britânica Zinnie Harris e ponderam uma digressão com O Teatro da Amante Inglesa, de Marguerite Duras (estreada este ano na Politécnica).

As atrizes Sara Inês Gigante e Margarida Correia formam o par amoroso na peça escrita por Claudio Tolcachir

“Pessoas infelizes, mas não tristes”

O Vento num Violino, primeira proposta da rentrée, tem interpretações de três atores experimentados, Isabel Muñoz Cardoso, Pedro Carraca e Andreia Bento, e três jovens atores, Margarida Correia, Sara Inês Gigante e Pedro Baptista – este último em papel de destaque, jovem adulto sem horizontes, filho de uma mulher excêntrica que procura ajudá-lo sem olhar a meios.

O texto é de Claudio Tolcachir, ator, dramaturgo e encenador nascido em Buenos Aires em 1975, cujo trabalho tem sido reconhecido na Argentina e em Itália. A estreia absoluta foi há oito anos, uma encenação do próprio Tolcachir com o grupo Tibre 4, de que é fundador. A versão dos Artistas Unidos resulta de uma encenação coletiva, orientada por Jorge Silva Melo.

“Houve ensaios em julho e agosto, não vim a todos, fui corrigindo e propondo coisas”, disse o encenador. “Sei que a peça já foi apresentada há alguns anos no Festival de Teatro de Almada [2013], mas nunca a vi encenada. Fiquei encantado com o texto. Sobretudo, achei que era um trabalho que os atores que estão comigo poderiam fazer. Este teatro argentino foge a todas as normas do teatro europeu. Não desenvolve bem uma história e gosta de pessoas de quem eu gosto: pessoas infelizes, mas não tristes, desgraçados não submersos na depressão, pessoas que, apesar de tudo, tentam viver. Gosto deste ambiente e desta invenção permanente.”

Descrita por Silva Melo como uma “peça marginal”, trata o desejo de ter filhos num casal de mulheres, a dependência dos filhos em relação aos pais e a desigualdade entre ricos e pobres, entre outros temas. O tom é dado pela fala de uma das personagens: “A vida não tem sentido e isso é maravilhoso.”

O texto foi traduzido por Antónia Terrinha e Rita Bueno Maia e constitui o volume 117 da coleção “Livrinhos de Teatro”, dos Artistas Unidos e dos Livros Cotovia, com tiragens entre 300 e 500 exemplares.