A forte desvalorização da moeda do Brasil, que registou uma queda de 4,85% na última semana, é consequência da indefinição do cenário eleitoral do país, disseram especialistas consultados pela Lusa.

“O aumento da incerteza no cenário político, onde tudo está ainda muito em aberto e não se sabe que candidatos chegarão à segunda volta [das eleições presidenciais] tem prejudicado o mercado e a moeda brasileira”, disse Sabrina Cassiano, analista da corretora brasileira Coinvalores.

“O real responde muito à especulação, a moeda tem um juro embutido muito alto que historicamente responde muito ao capital especulativo. Assim, o cenário eleitoral incerto é um prato cheio para o capital especulativo alterar o valor da moeda”, acrescentou Rafael Mellem, diretor financeiro da Dourada Câmbio.

No mês de agosto o dólar registou três semanas de alta seguidas perante o real.

Na primeira semana do mês cada dólar passou de 3,70 reais para 3,85 reais, na segunda subiu de 3,85 reais para 3,90 reais. Por fim, a moeda norte-americana encerrou a última sexta-feira valendo 4,10 reais.

“Entre os fatores que estão a causar a desvalorização do real destaca-se a eleição (…) Nesta corrida eleitoral o candidato pró-mercado, Geraldo Alckmin, ainda não ‘descolou’ e o candidato neutro, que seria o Jair Bolsonaro, também não”, afirmou Rafael Mellem.

Já Sabrina Cassiano disse que o fraco desempenho de Geraldo Alckmin e Henrique Meirelles, dois candidatos que têm um perfil reformista pró-mercado e que se encontram estagnados nas sondagens, tiveram importância para o fraco desempenho da moeda brasileira nesta semana, mas discordou da avaliação sobre a candidatura de Jair Bolsonaro, que é ainda um fator de risco.

“O Bolsonaro é uma grande interrogação para o mercado. Ele colocou um economista considerado liberal que tem um viés reformista no seu possível Governo, o Paulo Guedes. (…) No entanto, ainda existe uma dúvida se ele [Bolsonaro], que tem um perfil estatizante, vai levar as ideias reformistas do Paulo Guedes adiante caso se torne Presidente”, afirmou.

Os dois analistas concordam, porém, que a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva – que não deve disputar as eleições porque está preso e dificilmente conseguirá manter-se candidato já que foi condenado em duas instâncias da Justiça -, teve um peso grande na recente desvalorização da moeda brasileira.

“Há uma lentidão no TSE [Tribunal Superior Eleitoral] para definir se o Lula da Silva poderá candidatar-se ou não, que aumentou a cautela e a aversão ao risco dos investidores”, disse Sabrina Cassiano.

Rafael Mellem lembrou que embora Lula da Silva esteja praticamente desqualificado, apareceu com 37% e 39% das intenções de voto nas últimas sondagens, e mantém um forte potencial para transferir estes votos para o seu provável substituto no Partido dos Trabalhadores (PT), o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad.

“Com a sondagem eleitoral a colocar Lula [da Silva] em primeiro lugar e indicando uma potencial transferência de voto para o [Fernando] Haddad temos um risco aumentado nas últimas semanas e o mercado está a refletir este risco na moeda [brasileira]”, concluiu o diretor financeiro da Dourada Câmbio.