O paleontólogo Alexander Kellner, de 56 anos, assumiu há apenas sete meses a direção do Museu Nacional do Rio de Janeiro – onde trabalha há duas décadas – e enfrenta já a pior crise de sempre na instituição. O museu foi destruído por um incêndio que lavrou por seis horas, com início às 19h30 de domingo (23h30 em Lisboa). Em entrevista telefónica a partir de Brasília, onde se encontrava na terça-feira à noite para reuniões com o governo, o diretor do museu disse que serão concedidos 15 milhões de reais (cerca de três milhões de euros) para o início da reconstrução do Palácio de São Cristóvão, edifício onde viveu a família real portuguesa e que alberga o museu desde há 200 anos. Alexander Kellner garante que ainda não sabe a extensão dos danos no acervo do museu e duvida que o incêndio tenha tido origem criminosa.

Que garantias já recebeu do Governo brasileiro?
Estivemos com o presidente Temer e com os ministros e sabemos que, para já, vão ser libertados 10 milhões de reais para escorar o museu, para evitar que o edifício impluda. Precisamos de estabilizar o palácio e colocar um teto provisório.

É uma verba suficiente?
É o necessário, é o valor de que precisamos neste momento.

As obras de estabilização podem demorar quanto tempo?
Estamos a tentar contratar a empresa e só depois saberemos. Além dos 10 milhões, vamos receber mais cinco milhões para um projeto de reconstrução. Sabemos também que os deputados federais do Rio de Janeiro estão à procura de verbas substanciais.

Já sabe que parte do acervo ainda é recuperável?
Com toda a certeza, os 20 milhões de exemplares não voltaremos a tê-los. Depois de estabilizar o palácio, vamos poder entrar e tentar fazer a recuperação. Sabemos que perdemos muita coisa, mas também sabemos que é possível recuperar uma parte. Algum acervo de botânica e de vertebrados ficou a salvo.

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A imprensa brasileira diz que ardeu 90% do acervo. Confirma?
Não posso confirmar. A resposta correta é: não sabemos. Perdemos mais de metade, com certeza.

As reservas do museu estavam no edifício?
A maior parte, sim. A botânica, a biblioteca, vertebrados e parte de invertebrados estavam em outros edifícios e ficaram a salvo.

Já teve início a investigação às causas do incêndio por parte da Polícia Federal?
Ainda nem terminou o rescaldo. Essa é a primeira fase. Depois, temos de escorar a área e só então é que a polícia pode entrar e começar a entender a origem do incêndio. E só depois é que uma equipa do museu poderá entrar e perceber o que se salvou.

Essas fases demoram quantos dias?
Tudo depende da libertação da verba, que terá de ser feita nos próximos dias, e da contratação da empresa. Só aí teremos uma perspetiva do tempo.

Consegue apontar uma causa provável para o incêndio?
Qualquer informação que dê vai ser leviana. Precisamos de esperar que a polícia faça o seu trabalho.

Coloca a hipótese de o fogo ter tido origem criminosa?
Não há nenhuma hipótese nesse sentido. Pessoalmente, não acredito em crime.

Como é que explica que o fogo tenha avançado tão depressa?
Aquela casa, que tem mais de 200 anos, foi uma casa de moradia: D. João VI, D. Pedro I e D. Pedro II. Enquanto moradia, não estava preparada para ser um museu, evidentemente. Toda a estruturação é de madeira, é um edifício com 200 anos. A partir de 1891-92 é que foi adaptado para receber o Museu Nacional. Era do conhecimento geral, há muito tempo, que havia necessidade de um grande investimento para tornar o prédio seguro. Já se sabia que precisávamos de uma injeção significativa de recursos. Lamentavelmente, nos últimos 20 anos, nenhum governo fez isso, apesar das informações prestadas por diferentes diretores do museu. Tinha sido detetado e pedido, mas nenhum governo fez.

Porquê?
Porque, lamentavelmente, o Brasil não cuida da sua história. Esta situação do museu demonstra o descaso do país para com a sua história.

A responsabilidade pela tragédia é sobretudo política?
Claro. Neste caso, irresponsabilidade política. Espero que me entenda: não tenho partido, não sou político, tenho opinião, mas não sou a favor de “a” ou de “b”. Hoje, por vários motivos políticos, quer-se colocar a responsabilidade no atual governo. Não é verdade. Em 2013 e 2014 havia uma emenda parlamentar de 20 milhões de reais destinados à reestruturação do palácio, envolvendo, inclusive, questões de incêndios. A emenda foi aprovada, mas o governo da época não autorizou, não libertou o dinheiro.

Está a dizer que a responsabilidade não é do governo Temer?
Quero dizer que, independentemente de haver diferentes situações que podemos apontar ao governo Temer, por não estar a agir da forma que gostaríamos na ciência, seria um ato de irresponsabilidade culpar o governo Temer pelo incêndio. Não é verdade. O governo Temer tem a mesma participação que tiveram os governos do passado, desde o tempo de Fernando Henrique Cardoso, passando por Lula e Dilma e agora Temer. Todos são culpados. Não adianta agora dizer que é o governo Temer, porque isso não é correto. Temos de ser corretos. Da mesma forma, só vou dizer que percentagem do acervo foi destruída quando tiver essa informação precisa. O facto de as imprecisões serem o “modus operandi” no nosso país fez com que o museu chegasse à situação que chegou.

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Confirma que o Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES) tinha decidido financiar o museu antes desta tragédia e que o dinheiro chegaria em outubro?
É verdade. Veja-se a ironia. É uma negociação de mais de três anos, iniciou-se no governo passado e transitou para o governo Temer. Esse dinheiro sairia depois das eleições [presidenciais, em outubro]. Veja-se o absurdo. Agora que pela primeira vez tínhamos o dinheiro, aconteceu o que aconteceu. Chegou tarde demais, o que nos deixa ainda mais entristecidos e desalentados.

Já consegue ter distância suficiente para classificar o que aconteceu na noite de domingo?
De certa forma, sim. Foi uma tragédia terrível. Nas últimas 72 horas, tive cinco horas de sono.

Estava ausente do Rio de Janeiro na noite do fogo?
Estava a regressar de uma viagem. Cheguei ao Rio por volta das 21h30 [duas horas depois do início do incêndio]. Não sabia o que estava acontecendo. O meu filho foi-me buscar ao aeroporto e apanhámos um táxi para irmos imediatamente para o museu. Quando chegámos, tive a infeliz constatação de que faltou água. No meio do incêndio, faltou água. Como se combate um incêndio sem água? Um absurdo.

Os bombeiros também dizem que faltou água, mas a Companhia Estadual de Águas e Esgoto do Rio de Janeiro veio desmentir essa informação.
Vamos deixar claro: o diretor do Museu Nacional, Alexander Kellner, que está aqui a falar, entrou no palácio quando o primeiro andar não estava queimado, quando uma parte do torreão não estava queimada, e implorou para que os bombeiros agissem, mas eles não agiram porque faltou água. É uma total falta com a verdade dizer que havia água. Não havia água. Não sou especialista em incêndios, não sei se a água, estando lá naquele momento, teria ajudado. Mas é facto que, sim, faltou água, o que demonstra a total irresponsabilidade da cadeia governamental que temos no Estado do Rio de Janeiro. Ninguém me convence que haja uma justificação para a falta de água. Eu estava lá, eu vi, ninguém me contou.

Quando entrou no museu, na noite de domingo, pressentiu que o fogo se tornaria uma calamidade?
Quando cheguei, várias áreas não tinham fogo. Como leigo, entrando ali dentro, imaginei que mais de metade se salvaria. Foi o que imaginei.

Havia detetores de fumo e extintores?
É claro que havia extintores, mas não tínhamos “sprinklers” [aspersores automáticos], porque é um prédio classificado pelo IPHAN [Instituto do Património Histórico e Artístico Nacional] e não podemos fazer as alterações que queremos. Havia uma grande necessidade de uma reformulação, que envolveria vários aspetos, incluindo de segurança.

O museu tinha seguro sobre as coleções?
Nenhum museu, que eu conheça, com acervo similar ao nosso, tem algum tipo de seguro.

Disse na segunda-feira que se perdeu o acervo, mas não se pode perder a memória. Quer explicar?
Disse que, para já, perdemos parte do nosso património e não podemos deixar que o Brasil perca parte da sua história. Por aquele edifício passaram reis, passou a primeira Constituição republicana. O cerne do país, como o conhecemos hoje, passou por aquele palácio. Não podemos agora perder o palácio. Ele está também ligado à história de Portugal. Temos que colocar isto de forma drástica: os governos do Brasil não têm o direito de tratar assim uma memória que transcende fronteiras e continentes. Agora, todo o mundo empurra, mas não adianta empurrar para o governo Temer. Não é esse o ponto. No que diz respeito ao desprezo pela história, todos os governos são culpados e todos deveriam refletir. O governo atual está tomando medidas, é importante dizer. Vamos ver se essas medidas são implementadas em tempo célere, que é o que precisamos.

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