Abraços apertados e vozes de crianças a exclamar “pai, pai”, marcaram esta quinta-feira o regresso de 156 militares portugueses a solo nacional, após seis meses de missão na República Centro Africana, caracterizada pelo “ritmo intenso e desgastante”.

Quando os 156 militares, na maioria paraquedistas, aterraram no aeroporto militar de Figo Maduro cerca das 17h15, já tinham à espera centenas de familiares para o reencontro, marcado pelos abraços de saudades e pelas vozes impacientes das crianças, que exclamavam “pai, pai”.

Depois de seis meses num teatro de operações “bastante difícil”, o reencontro “emotivo” com a família acabou por ser “a parte mais fácil”, resumiu o sargento-ajudante Paulo Soares, em declarações à Lusa. “Aqui [na missão na RCA] nós estamos de facto perante grupos armados. Estamos preparados para isso, esperamos nunca entrar nessa situação, mas de facto desta vez aconteceu”, disse, admitindo que “foi marcante” e “muito intenso” ter estado debaixo de fogo.

Na RCA, marcada por “anos de guerra e intranquilidade” como sublinhou o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, Almirante Silva Ribeiro, a missão consistiu na proteção de civis perante a presença e a ameaça de grupos armados, visando a “promoção de um ambiente seguro que permita a entrega de ajuda humanitária”.

Para o sargento-ajudante Paulo Soares, que já tinha estado em missões no Líbano e na Macedónia, a experiência na RCA “vai servir para o futuro”: “é um povo que vive em condições muito difíceis, são explorados (…). Aprendemos a ser um bocadinho mais humildes e a viver com menos coisas e ser mais felizes”.

Depois de cerca de 15 minutos para “matar saudades”, os militares voltaram a formar no hangar do aeroporto de Figo Maduro para ouvir os discursos do CEMGFA e do ministro da Defesa Nacional, Azeredo Lopes, que disse ser “tempo de agradecer” as missões cumpridas “com bravura sem perder a gentileza”. Azeredo Lopes agradeceu o “equilíbrio e a coragem, e a ponderação” que registou na força portuguesa, deixando “uma palavra de ânimo e alegria pela total recuperação” dos três militares feridos.

Durante as operações realizadas pelo 3.º contingente português na MINUSCA, o Almirante António Silva Ribeiro destacou o “intenso e desgastante ritmo operacional, a ameaça permanente”, o “ambiente sociopolítico instável” e também as “condições climatéricas adversas” e o “terreno difícil e inóspito”, servido por “uma rede viária precária e degradada”.

“Um bocado emocionado”, o condutor-atirador Fábio, que tinha à sua espera “a noiva” não se quis “alongar” no testemunho, admitindo que esteve “em tensão” em vários momentos e que a pobreza do país o impressionou. Para já, disse, “não penso repetir” a experiência, mas “talvez mais tarde”.

A captura de elementos para “desarticular grupos armados para diminuir a criminalidade na zona, a 8 de abril”, a operação para “garantir a segurança e defender a Igreja de Nossa Senhora de Fátima, na capital, Bangui, a 8 de maio”, no seguimento de “massacre de civis no mesmo local” foram algumas das operações destacadas pelo CEMGFA, que assinalou o “espírito de sacrifício” dos militares.