O Estádio Algarve era o palco do encontro que colocava frente a frente as duas grandes surpresas das últimas competições internacionais de seleções: o campeão europeu em 2016, Portugal, defrontava a vice-campeã do mundo em julho passado, Croácia. E podia ter sido também o jogo que marcava o reencontro entre Cristiano Ronaldo e Modric, não fosse o capitão português falhar os eleitos de Fernando Santos.

A ausência de CR7 era a principal nota de destaque do encontro realizado num recinto feliz para Portugal: em oito jogos em Faro/Loulé, a Seleção Nacional tinha vencido seis e empatado dois, com o capitão português, esse que não entrava nas contas, a marcar nas últimas seis partidas no Estádio Algarve.

Ficha de jogo

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Portugal-Croácia, 1-1

Jogo particular

Estádio Algarve, Faro/Loulé

Árbitro: Estrada Fernández (Espanha)

Portugal: Rui Patrício; João Cancelo, Pepe, Rúben Dias e Mário Rui; William (Sérgio Oliveira, 81′), Rúben Neves (Renato Sanches, 86′) e Pizzi (Bruno Fernandes, 61′); Bruma (Rony Lopes, 68′), Bernardo Silva (Gelson Martins, 45′) e André Silva (Gedson, 89′)

Suplentes não utilizados: Beto, Cláudio Ramos, Cédric, Neto, Pedro Mendes e Gonçalo Guedes

Treinador: Fernando Santos

Croácia: Lovren Kalinic; Vrsaljko (Milic, 45′), Vida (Jedvaj, 35′), Mitrovic e Barisic; Badelj, Kovacic e Modric (Pasalic, 55′); Pjaca (Rog, 72′), Perisic (Cop, 63′) e Livaja (Santini, 57′)

Suplentes não utilizados: Livakovic, Letica, Pivaric, Brozovic e Bradaric

Treinador: Zlatko Dalic

Golos: Perisic (18′) e Pepe (32′)

Ação disciplinar: cartão amarelo para Perisic (30′), Kovacic (42′) e William (72′)

Para substituir Ronaldo, dois jogadores: Bruma e Bernardo Silva — o primeiro era o seu substituto natural em campo, ocupando o lugar que normalmente é de Cristiano e mostrando-se merecedor de mais chamadas à Seleção; o segundo é o substituto natural em estatuto, qualidade e critério. Bernardo Silva foi o líder do conjunto de Fernando Santos, pelo menos enquanto esteve em campo, demonstrando uma qualidade com a bola nos pés fora do comum.

O passado frente à Croácia era favorável a Portugal, que contava com um histórico 100% vitorioso nos quatro duelos disputados: Europeu de 1996 (3-0), Europeu de 2016 (1-0) e particulares em 2005 (2-0) e 2013 (1-0). Ao quinto encontro, surgiu o primeiro empate, com uma igualdade a uma bola.

Ainda os croatas se adaptavam à ausência de Cristiano Ronaldo em campo, já o seu substituto dava mostras de ocupar o lugar com qualidade: cruzamento de João Cancelo para a área croata, com Bruma a desviar para defesa apertada de Kalinic.

Portugal parecia adaptar-se bem a um onze sem o número sete e, nos minutos iniciais, aparecia agressivo e com intensidade suficiente para surpreender a Croácia e levar o jogo para o meio-campo defensivo dos vice-campeões do mundo. Bruma era o elemento em destaque com arrancadas constantes que deixavam a defesa croata em sentido, como quando deixou Bernardo Silva na cara do golo, mas Kalinic voltou a brilhar e manteve o resultado a zeros.

Com o andar do relógio, a Croácia fez uso da sua experiência e acalmou o jogo, equilibrando as operações e quebrando o ímpeto português. Kovacic deixou o primeiro aviso ao obrigar Rui Patrício a voar para evitar o 1-0, antes de Badelj, croata que esteve perto do Sporting mas assinou pela Lazio, atirar ao lado da baliza defendida pelo ex-guarda-redes dos leões.

Não foi à primeira nem à segunda, mas à terceira seria de vez: erro de construção na zona recuada de Portugal, com a Croácia a recuperar a bola e, depois de alguns ressaltos e demasiada passividade de defesa nacional, Perisic recebeu a bola e disparou um míssil que só parou no fundo das redes, abrindo o marcador a favor dos croatas.

Era o primeiro golo apontado pela Croácia em cinco jogos contra Portugal, ao quarto remate na partida, o segundo com a direção certa. Talvez um castigo demasiado pesado para uma equipa que se tinha visto obrigada a recuar perante a boa reação croata, mas que foi penalizada da pior forma na sua primeira perda de bola defensiva.

Mas a reação portuguesa não se faria esperar: menos de quinze minutos depois, Pizzi cruzou a bola com peso, conta e medida e o centenário Pepe (a cumprir a 100.ª internacionalização por Portugal), de cabeça, a saltar mais alto do que os opositores e a fazer o empate, que se justificava.

Sem Cristiano Ronaldo, muito do jogo português passava pelos pés de Bernardo Silva, que se assumia como a principal figura da equipa de Fernando Santos. O criativo do Manchester City conquistou Guardiola — o técnico espanhol afirmou recentemente que nos citizens jogavam “Bernardo Silva e mais dez” — e parece decidido a convencer os portugueses de que nem só de Ronaldo se faz o talento nacional.

Com diagonais da direita para o meio ou passes em rutura capazes de desequilibrar a defesa croata, Bernardo Silva agarrava na batuta e comandava o jogo português, que, ao intervalo, refletia um empate a uma bola no marcador, fruto de uma primeira parte com domínio dividido entre as duas formações.

Se as estatísticas revelavam um Portugal mais rematador, mesmo sem o seu principal goleador, mostravam também uma falta de acerto na direção dada aos remates, com nove em onze a não acertarem no alvo. A eficácia croata era recompensada (50% de remates enquadrados com a baliza) com um empate que se ajustava ao que se passava em campo.

Para o segundo tempo, Fernando Santos optou por poupar o génio de Bernardo Silva (provavelmente já a pensar no encontro de segunda-feira frente à Itália, na primeira jornada da Liga das Nações) e lançou em campo Gelson Martins. O extremo do Atlético Madrid veio trazer largura, profundidade e velocidade ao ataque português, que perdia critério com a bola no pé e a visão de jogo do criativo do City.

Com dez minutos da segunda parte, também Dalic começava a pensar no jogo oficial contra a Espanha e tirava de campo o cérebro da formação croata, o melhor jogador europeu da época passada, Luka Modric. E, em dez minutos, o encontro perdia os motores de ambas as equipas e, com eles, o superior ritmo de jogo e critério na forma de jogar.

A partida ia descendo de ritmo, as oportunidades de golo revelavam-se uma miragem e, para termos uma ideia dos acontecimentos, Gelson Martins mal tinha tocado no esférico, à passagem da hora de jogo.

Com o andar do relógio, somavam-se as substituições e mantinham-se as oportunidades de golo. A etapa complementar do encontro era típica de um particular de seleções, com os técnicos a lançarem em campo apostas menos habituais que pretendem ver a atuar e o jogo a ressentir-se das várias alterações, sem rei nem roque, sem dominadores nem dominados.

Acumulava-se a luta a meio-campo, os passes falhados e a desinspiração de ambas as equipas. Fernando Santos tirava Bruma, lançava Rony Lopes e Portugal voltava ao formato inicial, com um extremo que confere mais largura (Bruma/Gelson) e outro capaz de fletir para o meio e jogar em zonas mais interiores (Bernardo Silva/Rony Lopes).

Se é verdade que a partida jogava-se maioritariamente no meio-campo defensivo croata, também é verdade que a agressividade portuguesa não era suficiente para assustar os forasteiros e o empate alcançado no primeiro tempo mantinha-se no marcador, sem grandes hipóteses de alteração.

E, quando nada o fazia prever, quase o golo de Portugal: cruzamento de Mário Rui e Milic a desviar a bola de André Silva para o poste da baliza croata, quase desfazendo o empate num lance caído do céu.

A dez minutos do final, tempo para a estreia de Sérgio Oliveira com a camisola da Seleção Nacional, ocupando o lugar que era de William até então. O médio do FC Porto entrava para dar frescura ao meio-campo e oferecer meia distância aos portugueses.

André Silva ainda podia ter marcado, mas desviou o cruzamento de João Cancelo muito por cima da barra, com pouco mais de cinco minutos por jogar. Seria a última intervenção do avançado do Sevilha, que seria substituído, pouco depois, por Gedson, em mais uma estreia absoluta na Seleção Nacional.

Até final, nada mais aconteceu e o empate manteve-se. Portugal mostrou que sabe rematar mesmo sem Ronaldo, ainda que tenha demonstrado pouca pontaria (19 remates, apenas três enquadrados com a baliza), num encontro que valeu mais pela primeira parte do que pela segunda. Os croatas foram eficazes e precisaram de apenas cinco remate para acertar três vezes no alvo e uma no fundo das redes. Desta partida, Fernando Santos levará um trabalho de casa para o encontro oficial frente à Itália: melhorar a eficácia no remate.