A polémica sobre o Museu das Descobertas já chegou ao Reino Unido e, mais especificamente, ao diário The Guardian. O jornal inglês publicou este domingo um artigo onde conta a história da proposta de Fernando Medina, aquando das eleições autárquicas de outubro de 2017, que provocou debate e polarizou opiniões na sociedade portuguesa.

O The Guardian começa por dizer que a proposta elaborada pelo atual presidente da Câmara de Lisboa na altura da campanha eleitoral não desvendava grandes pormenores, nem sobre a localização do novo museu nem sobre as exposições que ali estariam, e indicava apenas que o espaço museológico iria cobrir “os aspetos mais e menos positivos” dos Descobrimentos e incluiria “uma área dedicada ao tópico da escravatura”.

O jornal sublinha que a proposta passou despercebida até abril, quando o Expresso publicou uma carta aberta assinada por mais de 100 académicos portugueses e internacionais contra a primeira proposta de nome, que consideravam “obsoleto, incorreto e cheio de significados errados”. O The Guardian diz que a carta abriu espaço para artigos de opinião em vários jornais e debates na televisão sobre o assunto e cita mesmo duas das opiniões veiculadas na altura, ambas no jornal Público: a do colunista João André Costa e a do diretor Manuel Carvalho, que em junho escreveu um artigo intitulado “O duro fardo de ser português”.

“Portugal foi o elemento líder no mercado de escravos no Atlântico e pensa-se que os seus navios transportaram quase metade dos 12.5 milhões de escravos africanos. Ainda assim, Portugal tem-se considerado há muito tempo como ‘o bom colonizador’, citando o facto de que as relações interraciais floresceram no Brasil e em Cabo Verde como prova de que as práticas coloniais eram de alguma forma ‘mais suaves’ do que as das outras potências europeias”, escreve o The Guardian, para logo de seguida dizer que “as provas históricas recusam essa leitura”.

O jornal inglês refere ainda que António Costa, “o primeiro-ministro português cuja família tem origens em Goa”, também entrou no debate, quando disse em entrevista que “devemos ter orgulho em conseguirmos lidar, em Portugal, com esse período da história em que demos indubitavelmente o nosso maior contributo ao mundo”.

A polémica em torno do Museu das Descobertas – cuja edificação estava planeada para a zona da Ribeira das Naus, junto ao Terreiro do Paço – já provocou ziguezagues no nome do novo espaço museológico e uma mudança de local. De Museu das Descobertas já passou a Museu da Descoberta, sem o plural, e uma notícia do jornal i, em maio, dizia que afinal se iria chamar “A Viagem” e seria construído entre o Jardim do Tabaco e o cais dos paquetes.