As filas anuais para se ser um dos primeiros a comprar os novos iPhone são tão tradição como a Apple anunciar novos smartphones todos os anos. A concorrência — como a Samsung e a Huawei — já utiliza estas filas para publicitar os seus produtos e satirizar a Apple. Contudo, sem lojas oficiais da marca em Portugal, apesar de já terem existido filas no passado, o fenómeno é diferente: não há filas, mas há (muita) curiosidade.

No lançamento do iPhone 6s, em 2014, em Sidney, a fila para adquirir o produto a Apple Store tinha pessoas que esperavam ainda antes de a loja abrir. A possibilidade de comprar pela Internet o produto tem reduzido o fenómeno, mas continua a repetir-se em lojas oficiais à volta do mundo.

“Só hoje oito pessoas já compraram os novos iPhone”, disse ao Observador Diogo Silva, funcionário da GMS no centro comercial Colombo, uma loja especializada em produtos da Apple do estabelecimento que, na abertura, já tinha uma versão dos novos modelos para os clientes experimentarem. Eram 10h45 da manhã quando Diogo falou destes números.

Destes oito equipamentos, quatro modelos Xs eram para clientes que não tinham feito reserva e foram à loja para conhecer as novidades. Como é “um ano S”, há menos procura, e a maioria das pessoas “vai passar pela loja à noite” para ver como são os novos modelos (e, alguns, comprar). Mesmo assim, nessa manhã, eram várias as pessoas que não quiseram esperar para ver os novos produtos.

“Aproveitei uma vinda ao médico a Lisboa para vir comprar o novo iWatch Series 4 [também lançado esta sexta-feira]”, contou Hélder Godinho. Com 70 anos, o empresário de comércio que vive em Alvalade do Sado, no Alentejo, assume que é fã dos produtos da Apple. Estava nesta loja acompanhado pela mulher e filha, que assume: “[o pai] gosta mesmo destes produtos. “O iPhone X viemos comprar no dia em que disseram que estava disponível”, conta. Mas, desta vez, com o novo iPhone decidiram não fazer o upgrade: “é idêntico” à versão anterior, e, por isso, “não compensa”.

Este não foi o caso de Pedro e Ana, um casal que pelas 10h30 entrou na mesma loja, a única que tinha logo às 10 os novos produtos, para comprar um dos novos iPhone Xs. Timidamente, Pedro justifica que a compra de um dos novos modelos Xs para a namorada “calhou numa altura pós-aniversário” e valeu a ida esta sexta-feira e manhã para colmatar o presente adiado. “Já tínhamos de fazer a troca e achámos boa altura”, assumiram.

José Teixeira passou às 10h50 no centro comercial “propositadamente para ver o novo iPhone”, como outras dezenas de curiosos.

“Passei na Worten e não vi, portanto tentei outras lojas”, conta José Teixeira, de 48 anos. Tinha deixado o filho na escola na manhã e aproveitou para ver o novo equipamento. Tem um modelo 6s que queria trocar por esta nova edição, mas precisava de mexer nele antes de tomar a decisão final. O preço não assusta, porque é um “investimento a longo prazo”. Já outro visitante do estabelecimento, Rudolfo Rodrigues, como outras dezenas de curiosos, passou apenas para poder segurar, com a própria mão, o novo equipamento.

Várias lojas em Portugal tentam, porém, ter os novos produtos da californiana em exposição logo na manhã de lançamento. Mas com as regras apertadas da Apple, que só deixa que se ligue o primeiro aparelho a partir das oito da manhã portuguesas do dia de lançamento, segundo apurou o Observador, outros estabelecimentos só disponibilizam mais tarde durante o dia de lançamento as versões de teste para salvaguardar a relação com a marca.

Por falta de stock de iPhone, já houve quem reagisse “como se o mundo fosse acabar”

Apesar de haver lojas que às 10 da manhã conseguem ter os novos produtos disponíveis, outros estabelecimentos no mesmo centro comercial, que é o mais movimentado do país, só no final da manhã é que os começam a disponibilizar. “É uma questão de logística e respeito pela marca”, explica Carla Gonçalves, diretora de marketing da Phone House Portugal.

Nesta loja, apenas chegaram equipamentos para quem tinha feito pré-vendas. Como na GMS ou a Fnac, que também estão no mesmo centro, na Phone House ão há filas como se vê em Apple Stores nestes lançamentos e nem passam clientes a perguntar pelos novos equipamentos. “Com o lançamento dos iPhone 5s [2013] e do iPhone 7 [2016], havia filas”, conta David Palma, que trabalha nesta cadeia de lojas há 12 anos.

A Phone House vende estes equipamentos desde que o primeiro saiu em Portugal, em 2008. Mas o fenómeno de filas e muitas pessoas a comprarem “até vários equipamentos de uma só vez” só começou quando, no país, os iPhone passaram a ser vendidos no mercado livre e não em contrato com as operadoras. Até ao iPhone 5, em 2012, para comprar só era possível fazê-lo diretamente com contrato nas operadoras.

“Os clientes que estavam de passagem tinham de pagar, também, o desbloqueio, que era muito alto”, explica o funcionário. Depois do 5s, quando passou a ser mais fácil comprar um iPhone desbloqueado, chegou a ter um cliente que comprou “sete iPhone com 128 gb pagos a pronto”. Mas isso foi alguns dias depois do lançamento porque, todos os anos, a Apple apenas envia “x modelos” e “não se consegue para todos”.

“Houve momentos em que a Apple não entregou todos dispositivos que ia entregar no dia e um cliente agiu como se o mundo estivesse a acabar”, conta, ainda, David Palma sobre as filas que antes existiam quando não tinham pré-vendas. “Gritou e berrou”, mas não fez nenhuma reclamação formal. Mesmo com estas histórias de produtos adiados pela Apple, há quem desde 2008, através desta loja, todos os anos renove o modelo que tem, conta Carla Gonçalves.

Carla Gonçalves refere “os desafios” que estes lançamentos da Apple implicam, apesar de haver agora maior “reconhecimento” da empresa, só receberam no próprio dia os produtos e expositores ao final da manhã, como outros retalhistas. Porquê? Mais vale assim do que não “respeitar” a Apple

Atualmente, “o comportamento dos clientes mudou”. Apesar de haver quem queira comprar nos primeiros dias, as pré-vendas, que neste ano chegaram a ser mais de 100 nesta cadeia, fazem com que não existam filas de consumidores. Mesmo com vários curiosos a passar em várias lojas que vendem smartphones no centro comercial na manhã de lançamento para ver as novidades da Apple, as filas não se acumularam de manhã. A aposta em ter os produtos no dia, sem as apertadas restrições da Apple, continua a ser difícil, mas há maior “reconhecimento” da marca, conta a responsável da Phone House.

A dificuldade continua a existir, porque a Apple é uma empresa “exigente” a garantir que os produtos só estão acessíveis no dia de lançamento. As imagens dos novos produtos os retalhistas só conhecem depois do evento anual, que é transmitido em direto na Internet. “Antes disso nem as lojas, nem a Apple em Portugal, que é nosso parceiro, sabe tanto em termos de modelos, de características e de datas. Portanto é um desafio”, explica Carla Gonçalves, que também gere o lançamento da loja de outros topo de gamas de marcas como a Huawei e a Samsung que geram também expetativa entre os clientes. Contudo, sente-se sempre “uma apetência pela Apple” diferente.