Quase um ano e quatro meses depois do desaparecimento de material militar dos Paióis Nacionais de Tancos, José Azeredo Lopes demitiu-se do Governo. Durante esta janela temporal, o ministro da Defesa desdobrou-se em declarações e justificações, recusou que se tratasse da “maior quebra de segurança do século” na Europa, chegou a colocar a hipótese de não ter existido qualquer furto, falou nos “filmes do Rambo” e recusou demitir-se.

Recordamos as frases mais sonantes de Azeredo Lopes, agora demissionário, sobre o caso .

28 de junho de 2017

A 28 de junho de 2017, o agora demissionário ministro da Defesa era informado do que se tinha passado através de uma chamada do Chefe do Estado-Maior do Exército à chegada a Bruxelas, onde se tinha deslocado para uma reunião da NATO. No final, deu a primeira declaração aos jornalistas sobre o caso que agora culmina com a sua demissão.

É sempre grave quando instalações militares são objeto de ação criminosa. Como compreendem, ainda não tenho uma noção exata do material que realmente foi furtado. Esta questão ficou imediatamente sob a alçada da Polícia Judiciária Militar e da Polícia Judiciária e, a partir de agora, das instâncias de investigação criminal, como é evidente”.

30 de junho de 2017

Dois dias depois, em entrevista no Jornal da Noite da SIC, Azeredo Lopes era confrontado com o facto de esta ser a maior falha de segurança militar do século na Europa.

A afirmação que é feita de que é a maior quebra do século [na Europa], não é verdade. Há quebras e falhas de segurança muitíssimo superiores a esta”.

7 de julho de 2017

Chamado (pela primeira vez) à Comissão de Defesa Nacional para responder a perguntas dos vários partidos sobre o caso, citou o secretário-geral da NATO.

A reputação de Portugal permanece intacta”.

[Veja o vídeo: Como Tancos tramou Azeredo]

19 de julho de 2017

Questionado, já há mais de um ano, sobre a possibilidade de existência de responsabilidades criminais por parte de militares, Azeredo Lopes garantia que os avanços só surgiriam a partir das investigações da Polícia Judiciária e da Polícia Judiciária Militar.

Eventuais responsabilidades, eventuais factos que apontem para responsabilidades [criminais de militares], muito mais depressa resultam da investigação da Polícia Judiciária Militar e da Polícia Judiciária do que de averiguações levadas a cabo pelo Exército”.

10 de setembro de 2017

Depois de assumir a responsabilidade política do caso – e de, automaticamente, se começar a falar na possibilidade de demissão do cargo de ministro da Defesa -, Azeredo Lopes garantia que essa hipótese não estava em cima da mesa. No mesmo dia, em entrevista à TSF, assinava aquela que terá sido a declaração mais polémica desde que o caso rebentou: colocava a hipótese de não ter existido qualquer roubo e falava em “filmes do Rambo”.

A responsabilidade política, ao contrário do que muita gente pensa, não é um significado para demissão. Quando disse que assumia a responsabilidade política, e costumo saber o que digo, eu continuei”.

No limite, pode não ter havido furto nenhum. Porquê? Porque como não temos prova visual, não temos prova testemunhal, como não temos confissão, por absurdo, podemos admitir que o material já não existisse e que tivesse sido anunciado. Está a perceber o que eu quero dizer? Sem querer estar a fazer humor com isso, um civil que queira utilizar um sistema obsoleto arrisca-se a que lhe expluda nas mãos. Parece que estamos a falar de filmes do Rambo”.

26 de outubro de 2017

A 18 de outubro, o material de guerra desaparecido em Tancos era encontrado a cerca de 25 quilómetros do perímetro militar, abandonado num terreno na zona da Chamusca. A recuperação foi feita pela Polícia Judiciária Militar com a colaboração da GNR de Loulé, no seguimento de uma chamada anónima. O general Rovisco Duarte, Chefe do Estado-Maior do Exército, revelou ainda nessa tarde que o material encontrado era o material que tinha desaparecido e dá conta da falta de algumas munições de 9 mm – mas, “em compensação”, surgia uma caixa de petardos que não constava na lista de material desaparecido em junho.

Oito dias depois, o ministro da Defesa congratulava-se pelo aparecimento do material, que considerava “extremamente positivo”.

O Governo regista, e acho que todos registamos, como extremamente positivo o facto de o conjunto do material de guerra que não tinha sido recuperado ser recuperado. E o facto de ser a primeira vez, que eu me recorde, em democracia, num furto desta natureza, de o material roubado ou furtado ter sido recuperado”.

23 de julho de 2018

Chamado novamente à Comissão de Defesa depois de uma notícia do semanário Expresso que dava conta de que existia material de guerra que ainda não tinha sido encontrado, revelava que não tinha sido informado sobre essa “discrepância”.

Fui informado desta discrepância? Não fui. Mas não fui provavelmente porque quem conduz a investigação entendeu que este assunto estaria em segredo de Justiça”.

12 de setembro de 2018

Novamente chamado a prestar declarações na Comissão de Defesa lançava a bola para o lado do Ministério Público e garantia que ainda não tinha “certeza” sobre se faltava, de facto, material ou se se tratava de uma “falha de inventário”.

Continuo sem ter a certeza sobre se falta ou se não falta aquele material ou se é uma falha de inventário. Não digo nem que sim nem que não, porque não tenho elementos para validar qualquer das teses. E aguardo tranquilamente que o Ministério Público diga de sua justiça”.

4 de outubro de 2018

A 22 de setembro, a Polícia Judiciária deteve o diretor da Polícia Judiciária Militar, o coronel Luís Vieira. Foram detidas mais sete pessoas, incluindo outros três elementos da PJM, mais três da GNR e um suspeito civil, que será alegadamente o autor do assalto. O Ministério Público, que ordenou as detenções, considera que os sete militares detidos – em conjunto e intencionalmente – tentaram omitir a verdade sobre o desaparecimento do material militar. Terá sido feito um acordo para que o assaltante entregasse o material, sendo-lhe garantida a liberdade, e tudo isto foi escondido da Polícia Judiciária. O coronel Luís Vieira terá então confessado o crime: o diretor da PJM e o civil ficaram em prisão preventiva, todos os outros em prisão domiciliária.

No dia 1 de outubro, é detido o major Vasco Brazão, ex-porta-voz da PJM. É ouvido por um juiz de instrução durante cerca de oito horas e terá também confessado o encobrimento do crime, para além de alegadamente revelar que o Ministério da Defesa foi informado de toda a operação em novembro de 2017. Vasco Brazão e o antigo diretor da PJM teriam entregue ao então chefe de gabinete de Azeredo Lopes, o tenente-general Martins Pereira, um memorando que revelava tudo. Nesse mesmo dia, Martins Pereira terá informado o ministro da Defesa desse encontro.

A 4 de outubro, na semana passada, Azeredo Lopes afirma, em resposta ao pedido de demissão do CDS, que tal “não faz sentido nenhum”. E garante: “É totalmente falso que tenha tido conhecimento de qualquer encobrimento”.