Na semana passada, num encontro que podia ter ficado resolvido ainda na primeira parte, a Juventus viu o Génova complicar as contas de forma irreversível a 20 minutos do final com um empate que não mais se viria a desfazer. Depois veio o habitual treino de descompressão, a viagem para Manchester, a adaptação ao relvado de Old Trafford e o triunfo categórico frente ao United para a Champions, mas aqueles dois pontos, os primeiros perdidos pela equipa na Serie A da presente temporada, não podiam ser recuperados. Quanto muito, e sem outra alternativa, restava apenas à Vecchia Signora regressar às vitórias.

Ronaldo marca e bate mais um recorde no dia em que um ex-jogador do Olhanense “empatou” a Juventus

Antes do jogo com o Empoli, o campeão da Serie B na última temporada que tinha começado a ganhar em agosto mas que desde aí somava três empates e cinco derrotas no Campeonato, os jogadores titulares entregaram aos miúdos que os acompanharam no momento da entrada um livro com o respetivo autógrafo. Uma iniciativa curiosa que colocou alguns felizardos aos saltos. No caso dos elementos da Juventus, com ou sem livro, a lição foi tudo menos estudada porque a equipa de Turim voltou a sentir grandes dificuldades perante o principal adversário na Serie A – ela própria. E os 45 minutos iniciais foram a prova disso mesmo, com os visitados a chegarem de forma surpreendente ao intervalo na frente do marcador.

Com De Sciglio, Rugani e Bernardeschi como grandes surpresas nas opções iniciais em relação ao conjunto que tinha defrontado o Manchester United, a primeira parte da Juventus foi de novo um daqueles jogos onde os comandados de Allegri entram como se já estivessem a ganhar e jogam como se fosse inevitável chegarem ao golo. Às vezes até pode ser assim mas as regras só existem para se valorizar as exceções e até ao descanso. Foi isso que aconteceu, com raras oportunidades de golo para as duas equipas mas uma exibição bem melhor do Empoli que acabou por ser premiada com o 1-0 aos 28′ por Francesco Caputo, grande destaque da última Serie B que foi uma aposta forte de Antonio Conte quando estava no Bari em 2008.

Ronaldo teve apenas um remate muito por cima e um cabeceamento fraco na primeira parte (MARCO BERTORELLO/AFP/Getty Images)

Com uma defesa demasiado permeável perante as investidas em transição do adversário e um meio-campo a carburar a quatro velocidades que juntas não faziam uma (entre o devagar, o devagarinho, o lento e o parado), Alex Sandro foi o único a meter a quinta em todas as incursões ofensivas pelo flanco esquerdo, criando os desequilíbrios que a Juventus não conseguia em ataque organizado. Até nas bolas paradas era o lateral brasileiro que fazia a diferença, com dois lances ao primeiro poste na sequência de bolas paradas que levaram algum perigo à baliza de Provedel. Ronaldo, o mais rematador do Campeonato (31 enquadrados em 55 tentados com cinco golos em nove jogos), teve uma tentativa muito ao lado logo a abrir (6′) e um cabeceamento à figura do guarda-redes do Empoli aos 39′, mas também não conseguiu fugir ao deserto de ideias da equipa no último terço. E seria mesmo um corte inadvertido de Maietta para a própria baliza a criar o maior perigo até ao intervalo…

No reatamento, tudo mudou. E mudou porque a Juventus, que se tinha a si como principal inimiga, soltou por momentos o seu jogo, voltou ao chip de equipa campeã e deu um autêntico amasso no Empoli, que poucas vezes conseguiu converter em aproximações perigosas os contra-ataques rápidos que deixaram a formação de Turim em sentido na primeira metade. Por isso, e com apenas três minutos decorridos, Alex Sandro obrigou Provedel a uma enorme intervenção na área antes de um remate na trave de Pjanic após cruzamento de Dybala, esta noite capitão de equipa. Seria o argentino o principal responsável pelo início da viragem, quando aproveitou uma finta a mais de Bennacer na área em vez de tirar a bola para ganhar a frente e ser carregado pelo médio argelino. Cristiano Ronaldo, chamado a converter, não falhou o primeiro penálti pela Juve (54′).

Bola para um lado, guarda-redes para o outro: Ronaldo marcou assim o primeiro penálti pela Juventus (Gabriele Maltinti/Getty Images)

Foi daqueles castigos máximos “sem espinhas” mas que teve muito mais do que o simples enganar do guarda-redes: pontapé colocado, corrida para ir buscar a bola ao fundo da baliza, incentivo para o banco da Juventus, grito de “Vamoooossss!” quando levava os companheiros para o seu meio-campo para acelerar o reatamento. Estava dado o mote que, como não foi desde logo ouvido pelos restantes companheiros, traria depois o melhor momento da noite: Ronaldo saiu do seu habitat (e das marcações mais apertadas), recebeu fora da área com possibilidade de visar o alvo e colocou no ângulo para o 2-1 que não passou ao lado nem dos adeptos do Empoli, que se renderam (também eles) a mais um lance de génio do avançado aos 70′.

Se olharmos para a Serie A, o capitão da Seleção Nacional – que, segundo a imprensa italiana, deverá regressar às opções de Fernando Santos em novembro, quando Portugal jogar em… Milão – esteve em dez dos últimos 14 golos da Juventus. Mas o que salta mais à vista é outro aspeto em nada quantificável: quando a equipa precisa, seja com um simples toque a empurrar para uma baliza deserta, seja com um remate a 25 ou 30 metros da baliza, Cristiano Ronaldo está cada vez mais a aparecer. E é por isso que, esta semana, Andrea Agnelli, proprietário do clube, ressalvou em assembleia de acionistas o orgulho por ter na sua squadra “o melhor”. “Ter Ronaldo vai ajudar a atingir os objetivos e espero que os resultados de agora continuem até maio”, disse. Este sábado, foram mais três pontos. Mesmo com o início onde a lição não estava estudada – para o número 7, o futebol é o livro mais fácil de aprender porque ele é daqueles que já sabe tudo de cor e salteado.