Web Summit

A importância da tecnologia no Benfica, do trabalho com a Microsoft aos 20 analistas de dados no Seixal

Do rendimento dos atletas ao scouting, da análise de dados ao estudo do adversário, Soares de Oliveira, Luisão e Pedro Marques falaram de tecnologia na Web Summit, com passagem pelas redes sociais.

Domingos Soares de Oliveira, CEO do Benfica, voltou a participar em dois painéis da Web Summit no Sports Trade

Álvaro Isidoro / Global Imagens

O Benfica, que defronta esta quarta-feira o Ajax para a quarta jornada da Liga dos Campeões, esteve presente em dois painéis no Sports Trade da Web Summit. Domingos Soares de Oliveira começou por marcar presença numa conversa onde se discutia o enquadramento de instituições mais tradicionais como clubes de futebol num mundo cada vez mais dominado pela tecnologia, com o presidente do Marselha Jacques-Henri Eyraud; mais tarde, na companhia do antigo capitão Luisão e do diretor técnico do futebol de formação, Pedro Marques, o CEO dos encarnados abordou também a forma como essa mesma tecnologia consegue ajudar na deteção de jovens talentos no plano local e internacional. Em quatro pontos, os responsáveis das águias explicaram o caminho que têm vindo a fazer e revelaram alguns segredos no Seixal sobre esta temática.

Objetivo único? Ganhar. E as receitas adicionais são para investir

Ao contrário de outras sociedade, e como acontece na larga maioria dos clubes portugueses, o Benfica é detentor da maioria do capital social da SAD, não estando assim obrigado a chegar ao final dos exercícios preocupado com o lucro conseguido, como acontece noutros conjuntos europeus. Foi isso que Domingos Soares de Oliveira destacou na Web Summit – a importância do sucesso desportivo acima de tudo o resto e a necessidade de dar resposta aos desejos dos associados encarnados.

“Temos mais de 200 mil sócios pagantes e a nossa responsabilidade é perceber os seus comportamentos, as suas expetativas, o que desejam. Queremos sempre criar receitas adicionais para o clube e para os nossos sócios mas, para chegar lá, temos de perceber primeiro quem são e, depois, encontrar forma de reter os novos também. Para isso, o conteúdo tem de ser bom. Todos os dias existe esse desafio, tentamos todos os dias tentar criar algo novo para reter os associados além dos resultados, do que se passa no futebol e dos jogadores (…) A nossa missão é ganhar, não existe mais nada. Não colocamos em causa a glória pelo resto. Todos os investimentos feitos pelo Benfica vão nessa direção, as receitas adicionais são para investir mais e melhor. Ninguém está à espera de lucros, querem é resultados em campo. É por isso que, sendo o futebol um jogo de emoções, devemos colocar alguma racionalidade nessas emoções”, resumiu o CEO do Benfica.

Domingos Soares de Oliveira, CEO do Benfica, com Jacques-Henri Eyraud, presidente do Marselha (Álvaro Isidoro/Global Imagens )

Superliga europeia de futebol não, fair-play financeiro sempre

O tema não é propriamente novo no domínio público mas ganhou agora um especial destaque com o início da segunda série de revelação do Football Leaks. Em resumo, segundo a investigação do European Investigative Collaborations (EIC) depois de um anexo de um email enviado a Florentino Pérez, Real Madrid, Barcelona, Manchester United, Manchester City, Chelsea, Arsenal, Liverpool, Juventus, AC Milan, PSG e Bayern, os 11 clubes fundadores de uma Superliga Europeia, convidavam mais cinco: Atl. Madrid, B. Dortmund, Roma, Inter e Marselha. Algo que, há alguns meses, Aleksander Ceferin, presidente da UEFA, tinha recusado e catalogado de afronta ao órgão que tutela caso a proposta avançasse mesmo a médio prazo.

“Fala-se dessa questão a dois ou três anos. Percebo o conceito e as ideias fundamentais de quem está a favor mas vai colocar um enorme desafio para todos os outros. Neste caso, os clubes portugueses ficariam de fora da mesma. Existem clubes com muita história, como o Ajax que vai agora jogar contra o Benfica, que vão ficar de fora. Não concordo com a ideia, mesmo percebendo que mais jogos europeus e menos domésticos pode trazer mais receitas, até porque se perguntar aos meus sócios quem são os concorrentes deles vão responder que são Sporting e FC Porto e não Real Madrid ou Barcelona”, defendeu Domingos Soares de Oliveira, antes de abordar também a questão do fair play financeiro: “O futebol deve ser feito de equilíbrios financeiros para que não existam lutas contra clubes que têm bolsos sem fim, pelo que estou a favor dessa medida”.

O investimento em tecnologia e os resultados que daí advêm

“É complicado gerir um clube como uma startup mas podemos aproveitar algumas coisas numa realidade que movimenta 200 a 300 milhões de receitas. Estamos numa nova era digital e procuramos misturar várias pessoas de várias áreas, entre comercial, financeira, desportiva, comunicação, para reunirmos todos os dias percebendo o que correu bem na véspera, o que acontece no dia e o que haverá amanhã. Isso permite uma maior agilidade, é como se houvesse várias startups dentro do clube”, começou por destacar Domingos Soares de Oliveira, antes de especificar a importância da tecnologia a diversos níveis.

“Investimos milhões de euros em tecnologia todos os anos e o nosso próximo objetivo é desenvolver modelos preditivos em torno dos jogadores e da equipa. A nível de scouting, podemos encontrar jovens talentos no tempo certo. Antigamente tínhamos de ir sempre aos sítios, agora recebemos um nome e conseguimos ver dez jogos que fez nas últimas dez semanas. Isso ajuda muito na decisão de jogadores e treinadores. Temos diferentes batalhas. Perante clubes que têm bolsos sem fundo que podem comprar talento sem parar, desenvolvemos formas para ter o melhor rendimento dos jogadores quando estão connosco e não era possível sem a tecnologia chegarem onde chegaram. E não é apenas para a parte desportiva mas também para outras áreas. Qualquer pessoa, incluindo treinador, que não esteja habituado às tecnologias vai ter muitas dificuldades”, frisou.

“Há 15 anos, quando chegou o Luisão, não havia muito e esse era o nosso compromisso. Tentámos controlar a forma como os jogadores estavam nos treinos e nos jogos com a integração de muita tecnologia que chegou à forma como os atletas dormem, como se sentem. Isso permite gerar dados para planos individuais e para serem melhores. Desenvolvemos o sistema com os treinadores e os médicos. Temos informação do Luisão ao longo de 15 anos, conseguimos prever o que pode acontecer, se vai ou não jogar o próximo jogo, o risco de lesão. Ainda estamos agora a desenvolver mais programas com a Microsoft em Seatle. Grande parte já são construídos em casa, com mais de 20 pessoas a trabalharem dados”, acrescentou.

Luisão, Pedro Marques e Domingos Soares de Oliveira falaram da evolução no Benfica com a tecnologia (Álvaro Isidoro/Global Imagens)

“Com essa tecnologia, podemos ver um jogo de qualquer forma em qualquer sítio do mundo, podemos integrar a informação e ajuda nas experiência dos olheiros, podemos encontrar diferentes marcadores a nível de treino e saúde. Por exemplo, os atletas quando chegam das férias apresentam-se em diferentes estados, porque podem ter estado numa competição grande no Verão, têm o sei próprio programa”, destacou Pedro Marques, diretor técnico do futebol de formação nos encarnados. “Nos últimos dez anos a tecnologia evoluiu de forma muito rápida e ajudou a responder três questões que tinha: onde precisava melhorar, porque precisava de melhorar e como podia melhorar. No início, ficava algo resistente a essa informação mas depois fui percebendo que seria útil. A partir desse momento sempre gostei de ter os dados, quando acabava um jogo recebia isso e já estava a pensar no próximo”, frisou Luisão, antigo capitão do Benfica que jogou 15 anos na Luz.

Pensar três vezes antes do post, nunca fazer se houver dúvidas

Pedro Marques, diretor técnico do futebol de formação do Benfica que chegou ao clube após passagens pelo Sporting e oito anos no Manchester City, explicou também o cuidado que existe no processo de crescimento dos jogadores com as novas realidades que vão tendo pela frente, nomeadamente as redes sociais. Algo que também Luisão, antigo capitão do plantel sénior, destacou como um ponto de grande importância nos dias que correm.

“O mundos dos social media é algo novo. Há dez ou 15 anos não tinha tanto impacto mas é algo que pode influenciar de forma positiva ou negativa os jogadores e a equipa, que temos de levar a sério. Temos de educar os mais jovens, explicar como usar as redes sociais de uma forma positiva. Temos sessões com eles onde repetimos sempre uma frase – antes de publicares qualquer coisa, pensa três vezes se pode provocar alguma reação negativa; se houver um momento em que penses talvez, deixa andar e não faças nada”, contou Pedro Marques. “Os jogadores têm um impacto importante na sociedade e as redes sociais podem influenciar muito a imagem que se tem deles, dentro e fora de campo”, completou Luisão.

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