No princípio da temporada, face à duradoura lesão de Jonas que tanto preocupou os adeptos do Benfica, os encarnados atiraram-se ao mercado e contrataram dois avançados: Castillo e Ferreyra. Se o primeiro não tinha grande currículo, mas convencia pelo físico e pelas boas referências, o segundo era daqueles jogadores cujo nome todos reconhecemos de ouvir nos relatos dos jogos da Liga dos Campeões. E depois existia Seferovic. O avançado suíço que chegou com rótulo de craque e ganhou rótulo de flop durante a época passada. À partida, tudo fazia crer que Seferovic iria ser terceira opção ou opção para sair.

Mas a verdade é que o suíço, como é já seu apanágio, decidiu fazer um arranque de temporada vistoso. Marcou já quatro vezes em 14 jogos, incluindo um golo na Liga dos Campeões, e aproveitou o mau momento físico de Castillo e a ausência quase inexplicável de Ferreyra para se assumir como a principal referência ofensiva do Benfica até ao regresso de Jonas. Ainda assim, Seferovic continua a ser o patinho feio dos encarnados: mesmo tendo em conta que é opção regular de uma seleção suíça que chegou aos oitavos de final do Mundial da Rússia e impôs um empate ao Brasil durante a fase de grupos (para além de ter vencido Portugal no primeiro jogo da Seleção Nacional pós-Euro 2016).

Este domingo, no último jogo do Grupo 2 da Liga A da Liga das Nações, a Suíça enfrentava uma tarefa árdua: com a Islândia com zero pontos e já fora da equação, era necessário vencer a Bélgica por dois golos de diferença para carimbar a passagem à final four da competição. Ora, a seleção belga – equipa sensação que já não é tão sensação assim do Mundial da Rússia – só precisava de um empate depois de ter vencido os dois jogos com a Islândia (0-3 e 2-0) e ter ganhado também à Suíça na primeira partida (2-1). Do lado da Suíça, Seferovic era titular, assim como Shaqiri, Xhaka e Rodríguez; do lado belga, Roberto Martínez atacava com Hazard, Mertens e Meunier.

Aos 17 minutos de jogo, todos aqueles que se deslocaram à Swissporarena, em Lucerna, estavam perfeitamente convencidos de que a vaga na final four estava entregue. Thorgan Hazard, irmão mais novo do médio do Chelsea, bisou num jogo de sentido único em que tudo estava demasiado fácil para os belgas. Tão fácil que, ainda antes da meia hora, Courtois foi pouco cauteloso e cometeu grande penalidade sobre Mbabu depois de um cruzamento de Edimilson Fernandes que causou confusão. Na conversão, Rodríguez não falhou e reduziu o resultado – mas a reviravolta estava longe dos melhores sonhos dos suíços.

Em cinco minutos, dos 26 aos 31, a Suíça inverteu o sentido do jogo e colocou um alvo na baliza de Courtois. Depois de um passe de Rodríguez, Shaqiri desviou a bola e Seferovic surgiu oportunamente ao segundo poste, à ponta de lança, para empatar o jogo. Ainda antes da ida para o descanso, o avançado do Benfica aproveitou um passe atrasado de Fernandes para disparar para o poste mais afastado e confirmar o golpe de teatro no resultado. Era a quarta vez que Seferovic bisava pela seleção suíça — faltava o inédito hat trick.

Na segunda parte, o quarto golo assinado por Elvedi dava dois golos de vantagem à Suíça e confirmava a passagem à final four da Liga das Nações. Mais ainda houve tempo para o terceiro de Seferovic, aos 84 minutos, que carimbou a derrocada belga, a goleada suíça e o estatuto de herói para o avançado encarnado. O patinho feio do Benfica tinha acabado de marcar três golos a uma das melhores seleções do mundo e estava apurado para a fase final de uma competição que vai contar com Portugal, Inglaterra e França ou Holanda.

Já depois do final do jogo, Haris Seferovic recorreu às redes sociais para agradecer o apoio dos adeptos. “Que noite, que espírito de equipa! Parabéns aos meus colegas, parabéns ao nosso país. Obrigada pelo vosso apoio. Vemo-nos em 2019!”, escreveu o jogador de 26 anos. Numa altura em que voltou a perder o lugar cativo no onze inicial do Benfica para Jonas – e em que só é chamado quando as coisas não estão a correr muito bem e é preciso mudar algo -, Seferovic marcou três golos ao guarda-redes do Real Madrid e foi o grande motor de uma vitória vinda de dois golos de desvantagem, algo que a seleção suíça não conseguia desde o Mundial de 1938.