Évora

Borba. Quem são os cães que estão a procurar as vítimas

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Um pastor alemão e um pastor belga. Alex e Síria podem já ter localizado uma das vítimas. Fomos saber como conseguem em algumas horas o que nenhum humano conseguiu em 5 dias de buscas.

Alex e Síria estão em Borba, no local onde a estrada 255 desabou para dentro de uma pedreira, na esperança de encontrar a segunda vítima mortal do acidente e, quem sabe, talvez os três desaparecidos que podem estar por baixo daquelas pedras de 20 toneladas.

Ao fim de cinco dias de operações, os esforços deram frutos: há uma grande probabilidade de o corpo da segunda vítima mortal ter sido encontrado debaixo dos escombros  junto à retroescavadora em que trabalhava. É mais um passo dado pelos trabalhos de busca e resgate que decorrem desde segunda-feira. Só que, desta vez, os heróis são diferentes: Alex é um pastor alemão e Síria é um pastor belga do Grupo de Intervenção Cinotécnica da Guarda Nacional Republicana (GNR).

Esta quinta-feira, os cães da GNR sinalizaram um ponto da pedreira como a possível localização do corpo de uma das vítimas

Eles têm o que nenhum bombeiro, nenhum militar e nenhum agente têm num cenário tão complexo como o de Borba: são mais ágeis, mais versáteis e com um faro muito mais apurado. “Neste caso, escolhemos cães de porte médio porque precisamos que eles tenham muita compleição física. A fonte de odor é muito ténue, por isso têm que ser cães que consigam andar com agilidade, mas que tenham muita capacidade para hiperventilar. Porque é isso que ele está a fazer quase sempre”, explica ao Observador o tenente coronel Costa Pinto.

O início da carreira

Aquilo que Alex e Síria estão a fazer em Borba exige um treino que normalmente começa quando ainda são muito jovens, entre os 12 e os 14 meses. A primeira coisa que aprendem é a receber ordens e a comunicar com o operador responsável por eles, explica o tenente coronel: “Quando encontram algum odor humano que não seja residual — que não seja o que normalmente há na roupa ou no banco de um carro –, têm de dar uma resposta para nos avisar que a tarefa foi cumprida. No caso destes cães, essa resposta é ladrar. Eles focam-se o mais perto possível da fonte de odor e ladram. Isto é o que lhes pedimos”.

Só depois é que passam a fazer exercícios em ambientes cada vez mais complexos e mais próximos da realidade. É nessa fase que os cães lidam pela primeira vez com os cheiros que vão ter de detetar quando estiverem em serviço. No caso dos cães que detetam droga, eles aprendem os odores porque lhes são apresentadas amostras. No caso dos cães que detetam odores humanos, tudo depende: “Se o cão for ensinado a detetar cadáveres, trabalhamos com amostras muito reduzidas e utilizamos químicos produzidos em laboratório que imitam os odores reais. Ou então usamos odores reais retirados de cadáveres, porque a lei não permite trabalhar diretamente com eles”, descreve Costa Pinto.

Cães são ensinados a focar na fonte do odor corporal e a ladrar (INÁCIO ROSA/LUSA)

Pode usar-se também carne de porco, já que o cheiro é semelhante ao da carne humana, mas é mais raro: “Evitamos esse tipo de treino porque, embora seja muito semelhante, o nosso objetivo é minimizar o risco. Tentamos usar tudo o que puder ser o mais próximo possível do odor humano. Porque pode haver assinaturas diferentes, proteínas que se produzem e que libertam odores mais específicos daquele animal. O objetivo é minimizar o erro“, justifica o tenente coronel da GNR.

Mas Alex e Síria não são cães de busca de cadáveres: a equipa cinotécnica a que pertencem é de busca e socorro. E, nessa, as coisas funcionam de forma diferente: enquanto os animais que procuram droga devem ficar estáticos e não tocar naquilo que encontram, estes devem ficar o mais próximos da pessoa que encontraram e ladrar. Além disso, durante os treinos “as amostras são pessoas”, diz Costa Pinto: “Inicialmente trabalhamos com militares dos dois sexos, depois trabalhamos com pessoas que colaboram connosco. Tentamos diversificar o mais possível a amostra para que eles encontrem qualquer tipo de corpo humano. Cobrimos todas as áreas em que no futuro eles possam vir a trabalhar”, conclui.

O que fazem os cães em Borba?

Alex e Síria foram escolhidos porque eram os mais preparados para enfrentar o cenário complexo de Borba. Tinham de ser animais de médio porte porque “em áreas mais estreitas, como esta, com escombros e bastantes materiais, o tamanho não é tão importante, mas sim a flexibilidade e a agilidade”, afirma o tenente coronel. Além disso, precisavam de ser cães com um faro muitíssimo apurado: “Quando envolve lama, os odores são mais difíceis de detetar. É mais difícil que eles se propaguem porque fica tudo enlameado. Podem criar-se bolsas à volta do corpo e o odor demora mais tempo a ser libertado”, explica.

Em Borba, os cães Alex e Síria procuram vítimas debaixo das pedras e da terra, mas também as que podem estar debaixo de água (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

Em Borba há pedras, muita lama, gruas e muita gente. E tudo isso é levado em conta quando a GNR planeia uma missão desta natureza: “O Grupo de Intevenção Cinotécnica da GNR trabalha em conjunto com o Grupo de Intervenção de Proteção e Socorro, nomeadamente com o ramo das buscas e resgate em estruturas colapsadas. O planeamento passa por fazer um reconhecimento ao local e perceber que tipo de solo é que temos ali. As raças dos cães que escolhemos dependem disso”, explica Costa Pinto.

Em cenários como o da pedreira, as raças mais utilizadas são o pastor belga malinois — porque “é uma das raças mais versáteis e é utilizada em todas as vertentes policiais” –, os pastores alemães mais pequenos e os labradores retrivers. Estes últimos são, no entanto, os menos chamados para estas missões: “Evitamo-los principalmente quando as temperaturas são muito elevadas, porque é uma raça que acusa muito o calor”, concretiza o tenente coronel.

Cães da GNR que estão em Borba são da área de busca e socorro

Embora a esperança de encontrar sobreviventes do acidente em Borba seja praticamente nula, os cães chamados a Évora nunca seriam da equipa de deteção de cadáveres, mas sim da área da busca e socorro. Segundo Costa Pinto, tem mesmo de ser assim porque “um cão de deteção de cadáveres só é utilizado em casos em que se procuram corpos já com elevado estado de decomposição, que pode ir de várias semanas até anos”.

Estes cães são de busca e socorro porque estamos a falar de cadáveres muito recentes. Mesmo que a pessoa tenha morrido por afogamento, estes são os mais adequados porque, nesta fase, o odor ainda é muito mais semelhante ao de uma pessoa viva do que ao de um corpo em decomposição”, conclui.

Questionado pelo Observador sobre se o facto de algumas das vítimas poderem estar dentro de água, possivelmente a muitos metros de profundidade, dificultaria a tarefa da equipa cinotécnica, Costa Pinto garante que não: “Posso dizer-lhe que, para um cão, não há uma grande diferença. As partículas de odor tendem a vir à superfície, por isso depois é uma questão de perceber se existe corrente ou não, a profundidade a que pode estar, a velocidade da corrente e fazer ali algumas contas para apoiar as equipas que vão fazer a extração do corpo”, explica o guarda.

Se um cão descobrir alguma coisa e avisar as autoridades, é compensado para que repita a proeza no futuro. “Quando o cão ladra porque encontrou algo, o nosso operador tem um apito que o chama e esse é o sinal que damos ao cão de que ele fez tudo bem e que pode regressar para junto do operador. Aí é reforçado com uma bola e brinca com o tratador“, descreve o tenente coronel da GNR.

Também pode ser dada comida, mas isso é de evitar: “Temos de encontrar para cada animal o motivador que seja mais forte para ele. Mas normalmente preferimos os cães que gostem mais de brincar ou de jogar do que de comida, porque se ele estiver saciado pode não estar motivado para trabalhar. Por outro lado, se for um cão que gosta muito de jogar, isso ajuda a criar expetativas e a mantê-las sempre elevadas. Ele vai sempre gostar de jogar, mas de comer nem tanto, quando tiver a barriguinha cheia“, acrescenta Costa Pinto.

Sempre que o cão sinaliza um local, é chamado pelo operador e recompensado, normalmente com uma brincadeira (JOÃO ABREU MIRANDA/LUSA)

Nos casos em que os cães não conseguem executar uma tarefa, a estratégia tem de ser diferente. Se ao fim de 15 a 20 minutos ainda não tiver encontrado nada, é retirado do cenário para que foi chamado e “recarrega baterias”: “Isto serve para não se esgotarem fisicamente e para manter sempre a expetativa elevada. Um dos segredos deste tipo de trabalho com cães é garantir que o cão, quando sai da viatura, tenha a expetativa mais agradável possível de que vai executar uma tarefa pela qual vai ser recompensado. Quando sai novamente, tem as expetativas muito elevadas novamente. A motivação dele não se desgasta”, garante o tenente coronel.

Se, ainda assim, o operador notar que o cão está muito desmotivado por não estar a cumprir a tarefa, o intervalo é ainda mais reforçado: “Se sabemos que o animal está muito frustrado, fazemos um exercício à parte, fora do cenário, em que se joga às escondidas. Ele vai em busca, encontra, é reforçado e assim fica novamente motivado. É quase como uma criança“, acrescenta o GNR.

Onde trabalhar é como brincar

A GNR tem três formas de obter cães para a equipa cinotécnica. Uma delas é a criação própria: “Temos uma equipa dedicada ao desenvolvimento do cão desde os 0 dias até aos 12 a 14 meses. Depois dessa fase, são distribuídos aos militares e entram em treino específico para a área a que estiverem destinados”, diz Costa Pinto. A segunda forma é comprá-los na Europa do Norte e Central: “O mercado em Portugal ainda está muito destinado aos animais de estimação, por isso nós vamos onde vão os canadianos, os americanos, os árabes, os chineses. Vamos todos à Europa do Norte e do Centro, onde há empresas que se dedicam a preparar cães que sirvam para as polícias. Compramos cães que não têm treino, mas que têm as características necessárias nos programas de treino das forças de segurança”, acrescenta.

Os cães que vão ficando mais velhos passam a ser levados para campanhas de interação com o público, nas demonstrações da GNR (ANDRÉ KOSTERS/LUSA)

A terceira forma, e “talvez a mais especial”, adjetiva Costa Pinto, é a adoção. Entre 40% e 45% de todos os cães pertencentes à equipa cinotécnica da GNR foram adotados pela Guarda depois de os donos os entregarem: “Já houve centenas de portugueses que, por algum motivo, nos confiaram os cães deles. As pessoas entregam-nos porque deixaram de ter condições para os ter, por questões de saúde ou familiares, por exemplo. Os cães são sujeitos a testes e, se servirem, ficam nas nossas fileiras”.

Para a equipa cinotécnica da GNR, trabalhar é como estar num parque constantemente a brincar: “Trabalham como jogam”, garante Costa Pinto. De manhã, um tratador entra no canil e limpa o espaço onde o animal está, verifica se o cão tem algum problema ou se está doente e, a seguir, leva-o para a rua para que faça as necessidades. Só depois é que os cães vão para as áreas de treino, onde são trabalhados para a obediência, para a busca, para a discriminação de odores ou de qualquer outra área para que esteja destinado. Enquanto tudo isto acontece, os operadores estão acompanhados por médicos veterinários.

Têm “uma vida execional”, garante Costa Pinto: “Os animais domésticos costumam ficar em casa sozinhos o dia todo enquanto vamos trabalhar. Estes estão sempre acompanhados. Para eles, tudo é um jogo”.

O pior momento da vida deles, diz o tenente coronel, é quando o operador que os acompanha vai de férias: “Aí têm de ficar no quartel, no cantinho deles. Alguém os tira todos os dias e leva-os a um parque, mas não é a mesma coisa porque não há treino. E, se não há treino, não há reforço. A única coisa que é feita enquanto o militar está de férias, que é no máximo duas semanas, é garantir que o cão não manifesta comportamentos de ansiedade pela ausência do operador. É tratado com carinho, mas vai sempre sentir falta da pessoa que o acompanha“, explica.

De qualquer modo, a equipa cinotécnica está sempre ativa e trabalha 24 horas por dia: “Os cães estão sempre a sair. Os de busca e socorro saem menos em operações, felizmente. Mas os treinos são tanto de manhã, como à tarde, como à noite. Isso faz parte do cenário e serve para os habituar a qualquer tipo de ambiente. Se treinarem sempre durante o dia, à noite podem sentir mais dificuldades. Por isso, todas as semanas há treinos noturnos de todas as vertentes”, conta o tenente coronel.

É assim durante oito a dez anos, o tempo em que tipicamente um cão mantém as características de que necessita para participar em missões. Depois disso “começam a perder qualidades” e passam a ser levados para campanhas de interação com o público nas demonstrações da GNR. Alguns deles vão ainda mais longe e são usados em terapias com animais: “Temos protocolos com estabelecimentos escolares e entidades privadas que não têm capacidade para adotar animais para esse tipo de terapias. Quando a Guarda percebe que os cães já não estão no pico das suas capacidades e não conseguem desempenhar bem a tarefa para que foram treinados, então entram para projetos de terapia assistida”, revela Costa Pinto ao Observador.

Em Borba, além de Alex e Síria — e dos respetivos operadores –, a GNR tem também militares de buscas e resgate em montanha e em estruturas colapsadas, quatro mergulhadores e um operador de Sonar e dois operadores de drones, que se somam aos elementos que garantem o perímetro de segurança na pedreira. Todos fazem parte de uma operação, comandada pela Proteção Civil, que vai crescendo em número de operacionais à medida que os dias vão avançando. São agora, no total, 108 pessoas, apoiadas por 51 viaturas, dos bombeiros, da GNR, das Forças Armadas e do INEM.

[artigo atualizado às 22h15, com a correção da raça de um dos cães: são um pastor alemão e um pastor belga — e não um springel spaniel inglês, como erradamente era referido.]

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