A Universidade de Ciência e Tecnologia do Sul da China, em Shenzen, diz “estar profundamente chocada” e “ter tomado medidas imediatas para contactar He Jiankui para clarificação”. He Jiankui alega ter conseguido fazer nascer os primeiros bebés com ADN modificado em laboratório. As declarações do investigador no YouTube levaram as autoridades chinesas de saúde e de ética na medicina a dar início a uma investigação ainda esta segunda-feira.

Em comunicado, a universidade disse não ter qualquer informação sobre a investigação que estava a ser desenvolvida por He Jiankui e que só teve conhecimento esta segunda-feira através dos órgãos de comunicação social. Mais: o investigador estava de licença sem vencimento desde fevereiro deste ano até janeiro de 2021.

He Jiankui confirmou à Reuters que está voluntariamente de licença há vários anos — ainda que não tenha especificado quantos — para se poder focar à sua investigação. “Compreendo que o meu trabalho vá ser controverso, mas acredito que as famílias precisam desta tecnologia. E eu estou disposto a aceitar a censura por elas”.

“A investigação foi conduzida fora do campus [da universidade] e não foi reportada à universidade ou ao departamento [ao qual pertencia o investigador]. A universidade e o departamento não tinha conhecimento do projeto de investigação e da sua natureza”, disse a instituição em comunicado. A universidade considera que “a utilização da técnica CRISPR/Cas9 para editar embriões humanos [por He Jiankui] violou gravemente ética académica e os códigos de conduta” e acrescenta que toda a investigação na instituição obedece está de acordo com as normas internacionais.

Por sua vez, a Comissão Nacional de Saúde chinesa está a investigar as notícias apresentadas nos media e as alegações apresentadas pelo investigador, segundo comunicado no site. A comissão garante que vai seguir o assunto de perto e tornar a investigação pública de uma forma tão célere quanto possível.

A experiência de He Jiankui terá começado no segundo semestre de 2017 com oito casais, embora só cinco tenham aceite fazer a implantação dos embriões geneticamente modificados. Nas declarações públicas, o investigador refere-se apenas a um dos casais que teve duas gémeas.

O investigador introduziu uma limitação no gene CCR5 para que as crianças fossem potencialmente resistente à infeção com o vírus VIH (vírus da imunodeficiência humana). O problema é que esse gene é importante para a resistência a outras infeções virais, como do vírus do Nilo ocidental ou do vírus da gripe. A sua modificação pode ter consequências graves que não foram avaliadas, nem acauteladas.

“A serem verdade, os recentes relatos dos primeiros bebés geneticamente modificados é completamente irresponsável e sem nenhum benefício direto ou imediato para os bebés que foram modificados ou para a humanidade”, disse Greg Neely, diretor da Iniciativa de Edição do Genoma da Universidade de Sydney. “De facto, não sabemos o impacto total de modificar o gene CCR5 nas várias origens genéticas humanas e não existe nenhuma necessidade urgente de o descobrir à custa de um recém-nascido inocente. Mais, não temos ideia nenhuma do impacto que o processo de edição pode causar.”

Alterar os genes de um embrião pode ter consequências desconhecidas não só para o bebé (e adulto) que resulte desse embrião, mas também para os descendentes desses humanos geneticamente modificados. Julian Savulescu, diretor do Centro Uehiro de Ética Prática da Universidade de Oxford, disse que “esta experiência é monstruosa”, tendo em consideração que “os embriões eram saudáveis, que não tinham nenhuma doença conhecida”. A edição genética, nos países em que é permitida, só o é para trabalhos de investigação e nenhum dos embriões chega a nascer.

A ideia de que só se deve fazer edição genética para curar doenças e quando se conhecem muito bem os riscos é defendida pela generalidade dos cientistas. E isso não foi acautelado neste caso. O VIH não entra na categoria de doenças graves porque pode pode ser prevenido, praticando sexo protegido, e existem medicamentos eficazes para o tratamento da doença que permitem ao doente uma boa qualidade de vida. Para Greg Neely, se a ideia é erradicar o VIH, fazia mais sentido alterar o gene CCR5 de células da medula de indivíduos que estivessem infetados com o vírus e depois transplantar essas células modificadas no indivíduo para assim eliminar a doença.

O trabalho de investigação de He Jiankui não está publicado numa revista científica — e dados os problemas éticos graves pode nem chegar a ser publicado numa revista de referência. O investigador disse que o ia apresentar publicamente numa conferência e fazer uma pré-publicação para que pudesse ser comentado por outros cientistas na área. “Enquanto esta investigação ainda tem de ser alvo de escrutínio pelos pares [outros cientistas] — o que já de si é problemático —, o que parece é que o investigador estava mais preocupado em ser o primeiro do que em ser seguro”, disse Ainsley Newson, professor de Bioética na Universidade de Sydney.

Existem ainda outros problemas identificados por Hannah Brown, especialista em biologia reprodutiva e diretora de comunicação do Instituto da Saúde e de Investigação Médica do Sul da Austrália (SAHMRI), nas alegações feitas por He Jiankui, incluindo o conflito de interesses — o investigador tem uma empresa na área, logo quer demonstrar que a tecnologia funciona —; os investigadores não terem informado o laboratório que fez os implantes que estava a lidar com amostras de dadores contaminados com VIH; a falta de experiência dos investigadores responsáveis na realização de ensaios clínicos; a dúvida de que os casais recrutados tenham sido convenientemente informados das consequências do procedimento; e que a preocupação já fosse mais de segurança e eficácia da tecnologia do que de resistência ao VIH — um dos embriões implantados tinha um erro no processo de edição conhecido.