A hondurenha Johana Zapata olha para a extensão do muro enferrujado que avança pelo mar e atravessa toda a cidade de Tijuana, no Mexico, o ponto que escolheu para tentar uma saída de esperança. O muro é a sua prisão a céu aberto, divide o subdesenvolvimento do desenvolvimento, tanto de países quanto de possibilidades para as pessoas. Atravessar essas grades significa a promessa de uma nova vida.

Cansada do confinamento desde que chegou a Tijuana em 17 de novembro, sem dinheiro e sem qualquer estrutura digna para as suas três filhas, Johana, 29 anos, resolveu entregar-se às autoridades dos Estados Unidos. Prefere a arriscada travessia à luz do dia. A escuridão da noite, opção para a maioria, poderia representar riscos e medos para as crianças. O plano consiste em atravessar o muro e pedir asilo. Se esperasse a fila para tentar o asilo, ficaria no México mais quatro meses, pelo menos.

Johana tem pressa. Prefere o atalho de uma prisão e que o pedido imediato de asilo seja aceite por um juiz. Sabe que uma mãe com filhos pequenos tem mais hipóteses do que um homem. E sabe também que tem bons argumentos.

Partimos com a caravana das Honduras em 12 de outubro. Levámos 35 dias. Já são muitos dias de sofrimento para crianças tão pequenas. Dormimos nas praças ao relento ou sob o sol forte. Comemos o que nos dão. Muitas vezes, não comemos nada. Não é vida para três crianças”, conta Johana, que partiu de La Ceiba, no Norte de Honduras.

Foram 4.750 quilómetros, em parte a pé, em parte em autocarro, atravessando a Guatemala e todo México. Ao chegar a Tijuana, Johana foi ao albergue improvisado de Benito Juárez, no Norte da cidade, a metros da fronteira com os Estados Unidos.

Naquele centro desportivo transformado em refúgio, cerca de seis mil migrantes aglutinavam-se sem qualquer infraestrutura. Na semana passada, as chuvas trouxeram lodo que se misturou com esgoto. O lamaçal de podridão levou as autoridades a anteciparem o plano de levar os migrantes para outra área, El Barretal, ao Leste da cidade.

Johana teve sorte. Uma senhora viu como as crianças dormiam sob a intempérie e levou as quatro para uma igreja. A mais velha, Zaína, tem 10 anos. Darina, 5. E Yoselín apenas 4. As crianças parecem mais calmas do que a mãe. À medida que as horas passam, a tensão de Johana aumenta. As últimas moedas doadas transformam-se em sanduíches para as crianças. Ninguém sabe o que pode acontecer pelo caminho e a que horas voltarão a comer. Enquanto se alimentam, o homem responsável por cavar o buraco avisa: “Está tudo pronto. Já podem ir. Quero o meu dinheiro”.

O homem cobrou 500 pesos mexicanos (22 euros) para abrir caminho por debaixo do muro. Na verdade, o ponto estava camuflado da noite anterior, quando vários migrantes atravessaram o muro à noite, sob a neblina que a chuva e a maresia trouxeram. Aqueles não queriam asilo procuravam a entrada ilegal. Eram 96. Cerca de 80 conseguiram fintar os oito oficiais em quatro patrulhas. Passaram por baixo do muro e por cima, com a ajuda de uma escada.

[Veja o vídeo: Porque estão os migrantes a entregar-se à polícia?]

A quantia cobrada pelo buraco parece pouca, mas é uma fortuna para quem deixou tudo pelo caminho e vive num estado de mendicância. Johana encaminha-se nervosa pelo caminho tortuoso até ao improvisado túnel por baixo do cerco. Outras oito pessoas aparecem. São mães e filhos pequenos, mas também adolescentes.

“Deus me dê a luz para conseguir e para poder continuar com elas”, desabafa Johana, temerosa das imagens de mães separadas dos seus filhos, enjaulados como animais.

Para um migrante obter asilo nos EUA tem de provar sofrer um de cinco tipos de perseguição: por raça, religião, nacionalidade, opinião política e grupo social. Este último ponto é a grande porta de saída para os milhares de centro-americanos que se amontoam em Tijuana. Podem ser pessoas que se opuseram aos gangues, ativistas de Direitos Humanos, crianças que sobreviveram à violência intrafamiliar, donos de propriedades roubadas ou preferências sexuais incompreendidas.

Todos têm direito a pedir asilo. E todos os entrevistados pela Lusa em Tijuana relataram perseguições mortais de gangues, conhecidas como “maras” no Triângulo do Norte (El Salvador, Guatemala e Honduras).

Fugi das maras. Mataram quatro primos meus. Eles iam para o trabalho quando foram sequestrados e mortos a tiro. Depois, no meio da noite, entraram na minha casa encapuzados e armados. As crianças viram tudo. Os ‘mareros’ disseram que a minha casa agora era deles e que saíssemos de casa ou que nos fuzilariam. Tivemos de sair no meio da noite”, descreve Johana, ainda incrédula”: “Não consigo entender porquê. Somos uma família humilde”

A perseguição da máfia hondurenha já a qualificaria para pedir asilo, mas o pesadelo continuou. “Saí de casa com as crianças e fui para a casa do pai delas. Ele batia-me”. A violência doméstica acrescenta outro ponto para o pedido de asilo. Como prova material, Johana mostra a mão e o rosto da filha mais velha. São queimaduras provocadas pelo pai.

“Ele queria atirar água a ferver contra mim. Ela meteu-se no meio para me proteger. Vou argumentar violência doméstica. As meninas estão traumatizadas”, garante. “Quando tudo isso acabar, vou a Miami. Uma senhora lá vai ajudar-me”, confia.

Chegou a hora. O buraco é menor do que o corpo de Johana, que fica presa no meio do caminho. Improvisam alargar o buraco. Pedem silêncio. A Polícia de fronteira já percebeu o movimento estranho. Johana chora. As crianças entram em aflição. Os demais encorajam-na.

Johana consegue passar. As crianças vão atrás com facilidade. Alguém atira a bolsa com os poucos pertences da família por cima do muro. Passam quatro, seis, oito pessoas. Johana caminha rumo à patrulha para se entregar. A prisão, contraditoriamente, significa liberdade. O fim de um calvário, mas o começo de uma vida de muito sacrifício num mundo desconhecido.

“Que Deus a acompanhe, senhora! Que Deus a abençoe!”, gritam aqueles que ainda devem esperar uma melhor oportunidade para atravessar. São homens migrantes para os quais o pedido de asilo corre um alto risco de não ser aceite.

As doze pessoas são revistadas e presas. Aguardam sentadas para serem levadas pelas autoridades. Aguardarão por um juiz cuja decisão definirá o destino de vidas em desespero. Se tudo der certo, nas próximas semanas, Johana pode passar da condição de migrante ilegal a refugiada. As crianças carregarão o trauma para sempre. Aos poucos, o pesadelo pode abrir espaço ao sonho.