Os últimos anos têm sido soalheiros e de especial tranquilidade na atmosfera que rodeia o Manchester City: à exceção da glória europeia que teima em não aparecer – o melhor resultado em anos recentes foi uma meia-final perdida para o Real Madrid, em 2015/16, graças a um autogolo solitário de Fernando no jogo da segunda mão –, os citizens foram campeões ingleses por três ocasiões em sete anos e no mesmo período conquistaram uma Taça de Inglaterra, três Taças da Liga e duas Supertaças de Inglaterra. Em maio deste ano, há pouco mais de sete meses, o Manchester City ficou no primeiro lugar da Premier League com 19 pontos de vantagem para o Manchester United: e 25 para um Liverpool que já tinha Firmino, Sadio Mané e Salah.

À entrada para esta temporada, esperava-se que Pep Guardiola começasse a orquestrar uma espécie de versão 3.0 do que fez em Barcelona e em Munique, criando um micro império que deixaria o nome do treinador catalão na história de três das principais ligas europeias. No início deste ano, quando o ambiente ainda estava desimpedido e sem preocupações no horizonte, uma coluna de opinião no The Guardian perguntava se “alguém conseguiria impedir o Manchester City de vencer a Premier League”. Menos de duas semanas depois, um outro texto de opinião no mesmo jornal afirma já que “finalmente existe uma” – uma luta pelo primeiro lugar do Campeonato inglês.

A derrota do City em Stamford Bridge, no início do mês, deixou o Liverpool na liderança da Premier League e atirou a equipa de Pep Guardiola para um período de aparente crise que teve o seu clímax no passado fim de semana, com o desaire caseiro com o Crystal Palace (2-3). O Liverpool de Klopp, que ainda não perdeu na presente edição do Campeonato inglês, enfrentava neste Boxing Day o mais modesto Newcastle de Rafa Benítez; o City, em processo de regressar aos bons resultados, visitava o sempre competitivo Leicester de Claude Puel, que na semana passada impôs à equipa de Guardiola um empate a uma bola durante o tempo regulamentar, nos quartos de final da Taça da Liga (os citizens só venceram já nas grandes penalidades). Uma semana depois, Puel e Guardiola voltavam a encontrar-se.

O técnico catalão fez algumas alterações na equipa que no fim de semana perdeu com o Crystal Palace: Gabriel Jesus saiu do onze e deu lugar a Agüero, que tem estado lesionado; Stones recuou no terreno e jogou a central; Otamendi e Kyle Walker perderam a titularidade e De Bruyne entrou de início. Bernardo Silva estava no onze do City, Ricardo Pereira no onze do Leicester. O tridente ofensivo montado por Guardiola – formado por Sané, Agüero e Sterling – tinha como objetivo ser letal, rápido e eficaz. Afinal, o que se passou no Etihad no passado fim de semana não poderia repetir-se.

O jogo começou algo morno, sem nenhuma das equipas a arriscar grandes transições e com uma presença forte no meio-campo, onde os dois blocos de primeira pressão, ambos bem construídos, impediam a criação de grandes espaços. O Manchester City ganhou algum ascendente a partir dos dez minutos, quando os dois centrais subiram no terreno e ofereceram um apoio extra à construção atacante. Aos 14 minutos, Laporte apareceu já depois da linha do meio-campo, combinou com Agüero e o avançado argentino isolou Bernardo Silva na cara de Kasper Schmeichel. O avançado português voltou a marcar, colocou o City e vantagem e fez Pep Guardiola explodir de alegria – um dos pré-requisitos quase indispensáveis para a tão necessária vitória, marcar primeiro, estava alcançado.

Depois do golo, os centrais voltaram a recuar e também Danilo e Fabian Delph se alhearam das movimentações ofensivas. O Leicester, que reagiu bem à desvantagem e soube lançar-se à procura do empate, partiu o jogo e abriu espaços entre os setores. Antes ainda do minuto 20, Jamie Vardy surgiu tombado na esquerda – numa altura em que a defesa dos citizens estava descompensada e desposicionada – e cruzou certinho para Albrighton: o avançado inglês, praticamente sozinho ao segundo poste, mal precisou de levantar os pés do chão para cabecear e bater Ederson. Três defesas do City saíram na pressão a Vardy; sobrou Delph, que não soube posicionar-se e procurou fechar o centro da grande área, deixando Albrighton sozinho nas costas. O erro grosseiro da linha defensiva deixou Guardiola à beira de um ataque de nervos, em conversa acesa com um dos adjuntos. Até ao final da primeira parte, tanto o Manchester City como o Leicester poderiam ter-se colocado em vantagem na partida mas faltou eficácia aos homens mais adiantados das duas equipas. À mesma hora, em Anfield Road, o Liverpool vencia o Newcastle por 1-0, valia o golo de Lovren.

No início da segunda parte, o Leicester teve dificuldades para criar o perigo que tinha levado até à grande área de Ederson durante o primeiro tempo. Ainda assim, e apesar do claro ascendente que tinha sobre o jogo, o Manchester City demonstrava algum nervosismo quando conseguia chegar com a bola controlada ao último terço do terreno. Entretanto, em Liverpool, Salah aumentava a vantagem dos reds de grande penalidade. Claude Puel tirou Choudury, um dos melhores do Leicester na primeira parte, para lançar Demarai Gray e Pep Guardiola tirou um De Bruyne que ainda não está a 100%, depois da longa lesão que o deixou fora dos relvados durante os primeiros meses da temporada, para colocar em campo David Silva. O objetivo do treinador catalão era ter no meio-campo um elemento que pensasse o jogo e o soubesse organizar para servir Sterling e Sané – Agüero, sempre a atuar numa posição de permanente ponte entre o meio-campo e a linha ofensiva, poderia então dedicar-se às funções de um falso ‘9’ e ser a presença na área de que o City tanto precisava.

Aos 76 minutos, Claude Puel tirou Maddison para lançar Simpson. Mas o treinador francês fez mais: chamou Ricardo Pereira e deu várias indicações ao lateral ex-FC Porto. O que Puel disse a Pereira, só técnico e jogador sabem; mas o que o lateral fez ao Manchester City todos viram. À passagem do minuto 80, e depois de 35 minutos de segunda parte em que os citizens se ressentiram do desaparecimento de Bernardo Silva (que esteve muito discreto no segundo tempo e acabou substituído antes dos 90), o Leicester beneficiou de um canto na direita do ataque. Depois de um corte de Leroy Sané, Ricardo Pereira apareceu no vértice da área de Ederson e atirou certeiro, sem hipótese para o brasileiro ex-Benfica. O Leicester de Puel ganhava vantagem com o trunfo que o Manchester City de Guardiola parece ter perdido ao longo do caminho – a eficácia.

Em Liverpool, Shaqiri e Fabinho ainda marcaram e os reds bateram o Newcastle sem precisar de suar muito (4-0). Em Londres, o Tottenham goleou o Bournemouth (5-0) e, em Old Trafford, o interino Solskjaer voltou a apresentar resultados: o Manchester United venceu o Huddersfield, com um golo de Matic e um bis de Pogba (3-1). O Manchester City perdeu pelo segundo jogo consecutivo para a Premier League, está já a sete pontos do líder Liverpool e caiu para terceiro, com menos um ponto do que o Tottenham de Mauricio Pochettino.