Texto originalmente publicado a 4 de janeiro, quando Bruno Lage substituiu Rui Vitória, e atualizado com a conquista do título

Começou como assistente na formação do V. Setúbal, passou pelos Distritais seniores no Comércio e Indústria, foi adjunto de equipas como o Fazendense, o Estrela de Vendas Novas ou o Sintrense. Pelo meio, trabalhou também com a Escolinha de Futebol Quinito. Os primeiros passos na carreira e o próprio sotaque meio escondido remetem para Setúbal, onde nasceu. E é também do Sado que vem aquela que ficará para sempre como a grande referência de Bruno Lage. Na vida, no futebol ou no Benfica, onde chegou pela primeira vez em 2004: Jaime Graça, o “Catalunha” que morreu em 2012.

Numa versão moderna daquilo que foi um dia Jesus Correia (este no tempo dos Cinco Violinos do Sporting), Graça foi uma das referências com mais títulos na história do Benfica mas que no início jogava futebol e hóquei em patins, o que lhe valeria a alcunha pela qual ficou conhecido. A vida naqueles anos 50 não era propriamente fácil e muito novo foi aprendiz de eletricista – o que mais tarde ajudaria a que salvasse a vida de Eusébio, quando um curto circuito num tanque de hidromassagem na Luz vitimou Luciano e não causou males maiores porque teve o sangue frio para desligar o quadro.

Brilhou durante quatro anos no V. Setúbal, que o levaram às primeiras opções no Mundial de 1966 antes de se mudar para o Benfica, onde viria a ganhar sete Campeonatos e três Taças de Portugal até 1975, quando regressou ao conjunto do Sado. Mais tarde, voltaria aos encarnados mas no setor da formação. Quando Lage recorda os primeiros tempos no Benfica, é de Jaime Graça que fala.

“Passei oito anos num sítio especial que marcou a minha carreira. Quando entrei aqui com 27 anos foi quando senti mais aquela oportunidade de seguir uma carreira profissional. Recordo-me de um período importante, ainda sem o centro de estágio, de trabalhar nos Pupilos do Exército, e depois já com o Seixal. Um dos fisioterapeutas chegou a ser meu atleta, o João Ribeiro. O que me recordo? Dos primeiros treinos, do primeiro jogo, do início de uma nova era”, contou em entrevista à BTV este verão, que marcou o regresso aos encarnados.

“Jaime Graça tem de marcar, foi uma pessoa importante na minha carreira e na minha vida pessoal. Conheci-o em Setúbal antes do Benfica, e encontrei-o aqui de novo como coordenador. É um nome que tem de saltar logo em primeiro lugar. Mas depois há Nené, Bastos Lopes, José Henrique, Bento, Chalana, Valido… Pessoas que me ajudaram a conhecer e perceber o que é o Benfica, sem esquecer os atletas que treinei e que me fizeram evoluir”, prosseguiu.

O que recordo das passagens que tive depois do Benfica? Aquilo que crescemos enquanto pessoa, enquanto homem, as experiências que tive nesses pontos por onde passei, quando se sai da zona de conforto. Foi isso que senti quando saí. O falecimento do mister Jaime Graça marcou-me imenso e percebi que precisava de um novo estímulo”, contou este ano, no regresso ao Seixal.

Treinador com formação em Educação Física, Saúde e Desporto e especialização em Futebol, Bruno Miguel Silva do Nascimento, conhecido como Bruno Lage em homenagem ao pai, Fernando (também ele antigo jogador nos Distritais de Setúbal), passou pelos três escalões de formação nacionais no Benfica entre 2004 e 2012, sendo campeão de iniciados em 2008/09 e de juvenis em 2010/11 tendo nas suas equipas jogadores que chegaram a palcos internacionais ou à Primeira Liga em Portugal como Bernardo Silva, João Cancelo, Hélder Costa, Bruno Varela, Fábio Cardoso, Ricardo Horta, Diego Lopes, Rony Lopes, Miguel Cardoso, João Teixeira ou Sancinido. Em 2012, resolver partir para cinco anos de novas aventuras no estrangeiro.

Depois de ter treinado os juniores e a equipa B do Al Ahly, aceita o convite de Carlos Carvalhal e vai trabalhar com o técnico para a Inglaterra, naquela que terá sido outras das experiências mais enriquecedoras da carreira. “Chego ao futebol inglês com Carvalhal, sem ele não era possível. Já tinha feito vários estágios com ele, treinava no Benfica à tarde/noite e observava muito os treinos dele de manhã, no Belenenses e no V. Setúbal. Tornámo-nos amigos no Dubai”, admitiu à BTV.

“A Premier League é o sonho de qualquer treinador e consegui chegar lá como adjunto do Carvalho. Tínhamos uma amizade extrema, havia autonomia total em função das suas ideias. Conseguiu tirar o melhor de mim e das minhas competências, ajudou-me a evoluir para me tornar um treinador de futebol profissional. Estava muito bem e confortável a trabalhar com ele mas entre questões familiares e profissionais, tive de tomar outra decisão muito difícil – deixar o Carvalhal e voltar”, completou, depois de dois anos e meio como adjunto do Sheffield Wednesday e cerca de meia época nos galeses do Swansea.

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Foi também nesse período que escreveu dois livros. O primeiro, em julho de 2014, com Carvalhal e José Mário Oliveira, chamado “Futebol – o saber entre o saber fazer”, onde “é partilhada toda uma filosofia de trabalho e se explicam os pilares concetuais e metodológicos da Periodização Tática”; o segundo, sozinho mas com prefácio de Carvalhal, intitulado de “Formação: da iniciação à equipa B” e lançado em maio de 2017. “Sabe-se que a formação obedece hoje a critérios muito específicos e que não mais as estruturas dos vários escalões etários de competição de um clube podem trabalhar isoladamente. Bruno Lage, fruto da sua vasta experiência a todos os níveis etários, apresenta neste livro uma abordagem transversal para um modelo de formação e ainda a matriz organizacional de uma equipa B. Com base na progressão de exercícios e jogos e no trabalho por si desenvolvido nos iniciados, juvenis e juniores do SL Benfica e na equipa B do Al Ahli FC”, explica a sinopse.

A formação é um dos seus pontos fortes e onde sempre viu a força. Fosse através dos estudos mais académicos, fosse através da própria experiência na área, Lage, irmão do técnico Luís Nascimento que já venceu quatro Campeonatos de iniciados pelas águias, sempre colocou como principal enfoque o treino. Em 2007/08, quando saltou dos Sub-19 para os Sub-15 do Benfica, escreveu o documento “Orientações Metodológicas”, que tinha como objetivo adaptar o modelo de jogo a cada um dos escalões.

“É fundamental definir os princípios mais importantes e adequados para as diferentes fases dos vários momentos de jogo, em função da capacidade dos atletas, e perspetivar a sua evolução ao longo do ano. Deve-se trabalhar para ganhar mas sem abdicar daquilo que é o melhor para a evolução dos jogadores e da equipa. Mas isso depende da impressão digital de cada um e da forma como cada um pretende deixar a sua marca…”, defendia, citado pelo Bancada.

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De regresso à equipa B, e num ano “novo” pelo aparecimento da Liga Revelação e mais uma equipa Sub-23, Bruno Lage teve um arranque muito prometedor de Segunda Liga, chegando a liderar a classificação durante algumas jornadas (embora não tendo a hipótese de garantir a promoção, por causa dos regulamentos). O conjunto secundário encarnado, com Zlobin, Keaton Parks, Florentino Luís, Chris Willock e Jota como principais jogadores, sofreu depois uma ligeira quebra e segue agora em terceiro.

Seguiu-se a passagem pelo conjunto principal dos encarnados aos 42 anos, em mais um momento que ficará gravado na história do técnico. O técnico que, este sábado à noite, quando voltou a subir ao relvado da Luz para receber o título, voltou a recordar a sua inspiração: levou uma camisola com o n.º 37 e o nome de… Jaime Graça.