A Renamo, principal força de oposição em Moçambique, defendeu esta segunda-feira a detenção de todos envolvidos no caso das dívidas ocultas, considerando que “não basta prender o peixe miúdo”.

“Não basta prender peixe miúdo. Não deve haver intocáveis neste processo, todos os envolvidos devem ser recolhidos à cadeia”, disse o presidente da Renamo, Ossufo Momade.

O presidente do principal partido de oposição moçambicano falava esta segunda-feira à imprensa em Maputo através de uma videoconferência, a partir da serra da Gorongosa, centro de Moçambique, num encontro que serviu para anunciar a restruturação do partido.

Para Ossufo Momade, é necessário que se garanta que as nove detenções, ocorridas na semana passada, não sejam meramente decorativas, com o objetivo de enganar os moçambicanos. “Os moçambicanos exigem que a lista daqueles que planearam e executaram o roubo ao Estado, num processo que deve envolver os graúdos”, observou o líder da Renamo, que criticou também os órgãos de justiça pelo “secretismo no caso”.

Apelamos ao presidente da Frelimo, Filipe Nyusi [chefe de Estado moçambicano], cujo partido está fortemente associado aos roubos ora havidos, para que não interfira nos órgãos de justiça e, por conseguinte, entregue todos os envolvidos”, concluiu o dirigente.

O Tribunal Judicial de Maputo decretou a prisão preventiva de oito dos nove detidos no âmbito da investigação às dívidas ocultas do Estado.

Ficam em prisão preventiva António do Rosário, administrador-delegado das três empresas públicas no centro do escândalo (Ematum, Proindicus e MAM), Gregório Leão, ex-diretor do Serviço de Informação e Segurança do Estado (SISE), a “secreta” moçambicana, Bruno Tandade, operativo daquele serviço de informações, Inês Moiane, secretária pessoal de Armando Guebuza – Presidente da República quando o Estado avalizou secretamente os empréstimos -, Teófilo Nhangumele, alegado promotor junto de Moçambique da ideia de criar as empresas e contratar o financiamento, e Ndambi Guebuza, filho do ex-Presidente moçambicano Armando Guebuza.

Além destes seis, detidos na quinta-feira, ficaram também em prisão preventiva Sérgio Namburete e Sidónio Sitoe, presos na sexta-feira no âmbito da investigação aos empréstimos contraídos secretamente entre 2013 e 2014, durante o mandato presidencial de Guebuza, no valor de 2,2 mil milhões de dólares (cerca de 1,95 milhões de euros).

Elias Moaine, sobrinho da secretária pessoal do antigo chefe de Estado, viu-lhe concedida a liberdade sob caução de um milhão de meticais (cerca de 14 mil euros).

Estas nove detenções são as primeiras feitas pela justiça moçambicana após três anos e meio de investigação e aconteceram depois de a justiça norte-americana ter mandando prender Manuel Chang, antigo ministro das Finanças de Moçambique, detido a 29 de dezembro quando viajava pela África do Sul, onde aguarda por extradição – também disputada por Moçambique.

A acusação norte-americana contém correspondência e documentos que a levam a concluir que três empresas públicas moçambicanas de pesca e segurança marítima terão servido para um esquema de corrupção e branqueamento de capitais com vista ao enriquecimento de vários suspeitos, passando por contas bancárias dos EUA.

Fontes ligadas ao caso admitem que novas detenções aconteçam nos próximos dias, dentro da lista de 18 arguidos revelada pela justiça moçambicana em janeiro, ao mesmo tempo que decorre a apreensão de vários bens.