Tem um colega no trabalho que não suporta? Se a resposta é afirmativa, descanse. Não está sozinho. No Reino Unido, 6 em cada 10 trabalhadores dizem ter um “inimigo” no local de trabalho. A ideia de ter um nêmesis no escritório pode não ser tranquilizante e a verdade é que 30% das pessoas que dizem tê-lo, admitem que existem implicações até nas horas de sono. Por outro lado, até há quem considere que as animosidades no contexto laboral os tornam mais produtivos.

Teresa Espassandim, responsável pelas questões dos riscos psicossociais nos locais de trabalho e pela psicologia nas organizações da Ordem dos Psicólogos, nota que “o paradigma de trabalho alterou” e que atualmente “passamos muitas mais horas a trabalhar”, fatores decisivos neste processo. “As fronteiras entre o tempo de trabalho e o outro tempo pessoal esbatem-se. Quando passamos mais tempo ligados, preocupados e ocupados com o trabalho podemos assistir ao aumento da conflituosidade entre os colaboradores”, lembra. Teresa Espassandim admite ainda que esta conflituosidade aumenta os níveis de ansiedade nos trabalhadores e “quanto mais ansiedade, menor tolerância”, o que acaba por gerar conflito.

O estudo original, que nos serve de ponto de partida, foi feito pela Totaljobs, uma das maiores plataformas de recrutamento do Reino Unido, que realizou um inquérito a mais de 7 mil trabalhadores britânicos, no qual abordou o lado mais pessoal no ambiente de trabalho e, em concreto, a existência ou não de inimigos. Mais de 4 mil dos entrevistados admitiram ter um rival no trabalho. Ao The Guardian, Martin Talbot, diretor na Totaljobs, diz que os resultados indicam que “temos de levar o conceito de inimigos no trabalho a sério”.

Os resultados estão em consonância com a última afirmação. Mais de dois terços dos inquiridos que admitem ter inimigos no trabalho dizem começar a procurar outro emprego. Mesmo que não se materialize, apenas o facto de equacionarem e iniciarem o processo de procura, evidencia quão “a sério” levam a questão. Os mais drásticos – 16% dos trabalhadores que têm um inimigo – chegaram mesmo a demitir-se. Entre os mais moderados, as formas como lidam com estas crises variam: evitam eventos sociais da empresa, mudam de lugar ou de departamento, metem dias de férias ou faltam ao trabalho por “doença”. Quase tudo serve para evitar mais um dia de confronto ou de trocas de olhares desconfortáveis.

Existem várias formas de lidar com um inimigo no trabalho. Pode optar por falar com um outro colega, como forma de descompressão, recorrer ao psicólogo do escritório ou ainda, falar diretamente com o seu inimigo. Enquanto isso não acontece, 1 em cada 3 britânicos admite recorrer a alcunhas nestas situações. Provavelmente, a melhor forma de o fazer é “imitar” a maioria destes e fazer com que a alcunha derive do próprio nome. Sempre é mais discreto do que adaptar vilões da Disney ou animais, como os britânicos fazem.

Quem são estes “inimigos”?

A maior parte dos inquiridos neste estudo não têm apenas um foco de discórdia. Mais de metade diz que tem mais do que um inimigo e 8% diz mesmo que a maior parte dos seus colegas se inserem nesta categoria. Mas quem são, afinal, estes “inimigos”? Os resultados do estudo indicam que 71% são da mesma idade ou mais velhos, 65% são do mesmo sexo e 68% são colegas com quem interagem diariamente. A existência de crispação com alguém de um cargo superior não é surpreendente, mas funciona apenas para um dos lados. Os inquiridos que têm colegas hierarquicamente inferiores como inimigos estão, claramente em minoria – 7%.

Conflitos em relações verticais são também as mais comuns em Portugal. Para Teresa Espassandim, quando o problema é hierárquico pode resumir-se a uma comunicação errada por parte daqueles que nos são superiores, mas essas “más práticas” não se limitam apenas a relações verticais dentro das empresas. “Se houver uma prática de comunicação agressiva, há um mal-estar que vai limitando o outro. Há um agressor e uma vítima. As relações de poder não se estabelecem apenas quando são hierarquicamente formais”, explica.

A disposição no escritório, ou local de trabalho, também pode ser um fator a ter em conta. A maioria dos inimigos (47%) trabalha nas imediações dos inquiridos e 18% cumprem as suas funções lado-a-lado. O grau de discordância diminui à medida que existe mais espaço entre colegas, já que 26% dos inimigos trabalham noutras salas, ou espaços, e 9% em departamentos diferentes. Se divide espaço com o seu inimigo de estimação, a melhor opção pode ser mudar de lugar no escritório.

Quase consensual é a visão de quem nem tudo começou assim tão mal e se até começou por se dar bem com este(s) colega(s), saiba que 85% dos inquiridos do estudo britânico diz que a relação até começou bem mas, com o passar do tempo, foi deteriorando.

De colega a inimigo. O que não suportamos nos outros?

A lista de motivos pelos quais as pessoas não suportam determinados colegas é infindável e subjetiva, mediante a pessoa a quem perguntamos. No estudo britânico, apesar de bastante ecléticos, existem comportamentos menos suportados do que outros. Para Teresa Espassandim, uma “comunicação agressiva é aquela em que interrompo, rio, ridicularizo, mas em que é tudo ‘na brincadeira’ e nada intencional”. Pode rever-se nesta afirmação ou, por outro lado, entender que o seu pavio não finda aqui. A verdade é que os britânicos foram mais longe e apontaram um vasto leque de razões que os levam a perder as estribeiras com os colegas. Alguns dos motivos com os quais pode identificar-se são: unhas ruídas, múltiplas notificações nos telemóveis ou ainda colegas que aplicam desodorizante ou perfume perto de si.

Apesar de não pareceram suficientemente graves, a verdade é que este tipo de comportamentos podem fazer com que, até o mais paciente, perca as estribeiras. Para a psicóloga, existem “ambientes muito passivo-agressivos, onde a agressividade pode não ser manifesta, mas se esboça de muitas outras maneiras”. Se qualquer um dos comportamentos que se segue lhe parecer propositado, é natural que reaja. Se o ato de interromper determinada conversa é consensual para os dois lados, os motivos mais comuns que levam os trabalhadores do Reino Unido a criarem inimigos são:

  • Alterar a verdade dos factos para que fiquem bem na “fotografia”;
  • Tecer comentários sobre a performance dos colegas;
  • Uma forma passivo-agressiva de comunicar;
  • Mostrar pouco interesse nas nossas opiniões ou ignorarem-nos;
  • Tratar os superiores hierárquicos de forma diferente.

Os motivos podem também variar consoante o género de quem os pratica. Os homens ficam pior vistos por fazerem piadas ou comentários inapropriados – usualmente sexistas ou relacionados com a idade – e as mulheres por, eventualmente, falaram demasiado das suas vidas e das dos outros.

Como lidamos com eles e formas de resolver os conflitos

Se é certo que muitos procuram outro emprego no momento em que encontram um novo inimigo no escritório, esta não é a única reação mais verificada no estudo britânico. Este clima de animosidade pode também servir de desculpa para gozar uns dias de férias, alterar horários, mudar de lugar ou, em casos mais extremos, levar a uma demissão.

Apesar de todas estas serem, à partida, formas mais negativas de lidar com a questão, também existe a possibilidade de tirarmos partido da existência de um inimigo, transformando-o em fonte de inspiração. Tudo depende “do nível de intensidade e do tempo” em que se prolonga. “Em determinados níveis pode provocar situações de stress positivo, o chamado ‘eustress’. Este ‘eustress’ pode ter efeitos positivos na produtividade, mas tem efeitos negativos se for prolongado no tempo ou se for de intensidade muito elevada – o tal ‘distress’”, explica Teresa Espassandim ao Observador.

Contudo, esta possibilidade é menos provável e o estudo britânico indica que apenas 11% das pessoas se sentem mais motivadas quando têm um inimigo. Teresa Espadassim corrobora com essa ideia, dizendo que “o estímulo nunca advém do mau-estar”. Há uma competição saudável em que um outro me ajuda a ser melhor porque também ele contribui para um ambiente de trabalho em equipa e de cooperação. É diferente de existir alguém que, mais que irritar-me, também interfere e perturba. Daí não pode vir nada de positivo”, reconhece.

Mas, afinal, como resolver estes conflitos? O estudo britânico aponta a comunicação como o remédio: 14% diz que a situação melhorou quando falou com outro colega e 23% admite que apenas se resolveu quando decidiu confrontar o seu inimigo. Já Teresa Espassadim defende que a comunicação é “uma enorme parte”, mas “não é tudo”. “Qualquer um de nós pode pensar ‘se for um bocado mais assertivo, mais direto e dizer o que não fui capaz de dizer, o que não gostei ou que me fez mal’. Qualquer um de nós pode ter esta atitude, se for capaz de ter essa atitude”, adianta.

Para a responsável pela pasta da psicologia no trabalho da Ordem, existem pessoas a quem podemos recorrer nestes casos. “O psicólogo do trabalho é a pessoa responsável por fazer a avaliação dos riscos psicossociais. Perceber se a comunicação deve ser um fator a trabalhar nesta organização, por exemplo, ou se tem mais a ver com os aspetos ligados à gestão emocional”. Ainda assim, deixa a ressalva que “não pode ser como na escola, quando se diz ‘vá, não se fala assim com outro menino’”.

Para além de recorrer ao psicólogo da empresa, Teresa Espassadim também deixa a sugestão de conhecer melhor o nosso inimigo. “As pessoas devem saber o que o outro está a fazer e de que forma desenvolve o seu trabalho. Quanto mais souber sobre isso, mais aprendo com outro e vejo-o menos como adversário”. Pode estar na altura de arrumar as armas e confrontar o seu inimigo. O escritório e a sua saúde agradecem.