Não há maus pretextos para se ter Cindy Crawford em Portugal. Embaixadora da Omega há quase 25 anos, a supermodelo esteve em Lisboa, pela primeira vez, para cortar a fita (literalmente) da primeira boutique da marca de relógios, em plena Avenida da Liberdade, esta quarta-feira de manhã. Chegou de cor-de-rosa, esbanjou sorrisos e respondeu às perguntas de um grupo de jornalistas portuguesas. Cláudia Vieira deu-lhe as boas-vindas, o sol e a paisagem lisboeta fizeram o resto.

Cindy Crawford e Cláudia Vieira, embaixadora da Omega em Portugal, posaram juntas à porta da nova loja da marca, na Avenida da Liberdade © Sara Matos / Global Imagens

“Estou muito entusiasmada, já tinha ouvido falar tanto desta cidade. Cheguei na segunda-feira, fui ao Panteão, ao Castelo de São Jorge, ao Mosteiro dos Jerónimos. Adorei a sensação de simplesmente andar pelas ruas. Acabei por prolongar a estadia mais um dia, quero ir a Cascais e a Sintra”, conta a ex-manequim norte-americana, que completou 53 anos no mês passado.

Além das atrações da praxe, o que inclui uma passagem pelos Pastéis de Belém, Crawford fez questão de ir ao restaurante Sea Me, depois de este lhe ter sido recomendado por um amigo em Los Angeles. “Quando nos sentámos pela primeira vez à mesa, dissemos: ‘Meu Deus, esta é a melhor refeição’. Desde então que dizemos isso em todas”, refere. “Até aos 30, chegava a uma cidade, fazia o trabalho e ia embora. A partir daí, comecei a pensar que podia ser a última vez naquele sítio e a aproveitar para conhecê-lo melhor”, adiciona.

Questionada sobre se envelhecer a assustava (pergunta dirigida por Cláudia Vieira), Crawford respondeu com um sincero sim. “É difícil. O mundo está centrado no ideal de juventude e a indústria da moda é ainda mais. Fazer 50 anos não foi algo que desejasse. Mas depois aconteceu e pensei: ‘Ó, continuo a ser eu. E a verdade é que as coisas mudam, tu notas isso, por muito sumo verde que bebas, por muito exercício que faças. Continuas a envelhecer”, admitiu a supermodelo.

“Por isso é que acho tão importante ir trabalhando todos os aspetos da vida — a filantropia, as relações, as amigas com quem possas rir do facto de estarem todas a envelhecer”, continua. Os anos 90 foram a era de ouro das grandes supermodelos. Ao lado de Cindy Crawford, Naomi Campbell, Claudia Schiffer, Linda Evangelista e Helena Christensen propagaram pelos quatro cantos do mundo a imagem de uma mulher perfeita, de beleza e proporções quase sobre-humanas.

A verdade é que hoje, com 53 anos, Cindy Crawford mantém uma silhueta invejável. A embaixadora da Omega não guarda nenhum segredo para si, mas admite que os genes fazem grande parte do trabalho. “A genética desempenha um papel muito importante. Até ao ano passado, tive as minhas duas avós comigo. Sou uma sortuda”, confessa. “Mas não há segredos, só tudo aquilo que já sabemos — não fumo, faço exercício físico regularmente desde os 20 anos, nem sempre durmo o suficiente mas faço os possíveis, uso sempre protetor solar, tenho cuidado com a comida que ponho no meu corpo. Posso comer um pastel [de Belém] de vez em quando, mas não como a caixa toda”, afirma Crawford, perante uma plateia de nove jornalistas. “Além disso, é preciso respeitarmos o nosso corpo. Por exemplo, depois de ter sido mãe, nunca mais consegui treinar da mesma maneira”, remata.

Hoje, Cindy fala numa maior abertura à diversidade, potenciada pelas redes sociais. “Por causa das redes sociais, as mulheres reais, com diferentes tons de pele, diferentes corpos e várias idades, estão a dizer: ‘Então e nós? Queremos ser representadas. Queremos roupa que nos fique bem, queremos uma base com o nosso tom'”, refere a supermodelo, que em setembro de 2017 regressou à passerelle, em Milão, juntamente com outros nomes da sua geração, para homenagear Gianni Versace.

Crawford reconhece que o próprio mercado está a mudar e que as marcas estão a adaptar as suas estratégias de comunicação às novas exigências da audiência. “Acho que uma grande parte dos consumidores são mulheres da minha idade. Elas querem ver-se representadas e não comprar um creme cuja imagem é uma miúda como a minha filha. Estou muito mais interessada em algo que comunique através de uma mulher da minha idade ou mais velha. Se ela tiver mais dez anos do que eu e estiver ótima, vou querer saber o que é que ela está a fazer”, completa.

Cindy Crawford, o marido e os dois filhos, fotografados por Peter Lindbergh para a campanha da Omega

Cindy rejeita o título mais esperado. “Não penso em mim como um ícone da moda. Tenho tido muita sorte na vida por ter muitos deles à minha volta — Karl Lagerfeld, Azzedine Alaïa, Gianni Versace. Cresci numa pequena cidade no meio dos Estados Unidos, sem nunca ter pensado na moda enquanto conceito. Para mim, moda era roupa. Quando me mudei para Nova Iorque e comecei a trabalhar como modelo é que fiquei exposta a muitas coisas. Aprendi imenso”, recorda.

Kaia Gerber, a filha mais nova da supermodelo, está a seguir os passos da mãe. Nas últimas estações, tem desfilado para as maiores marcas do mundo — Chanel, Valentino, Prada, Fendi e Saint Laurent, entre muitas outras. Os tempos mudaram e, com eles, o mundo da moda. “Ser modelo é mais ou menos igual — ou estás a percorrer uma passarelle ou ficas em frente a uma câmara. A diferença, para ela, são as redes sociais. Tu não podes estar fora delas se quiseres ser atriz ou modelo. Podes conseguir ou não conseguir um trabalho, em função das tuas redes sociais, do número de seguidores e do engagement [interação entre utilizadores e a app] que tens com eles”, refere.

“Já fiz catálogos e já fiz fotografias sensuais”, responde Cindy Crawford, questionada sobre a exposição do corpo, enquanto sex symbol de uma geração. “Para mim, o importante foi sempre a forma como me sentia naquele ambiente, se estava ou não confortável com aquele fotógrafo. Mas isso é diferente para todas as pessoas. Sempre fui capaz de dizer não a certas coisas. Fala-se muito do que é feminista e do que é anti-feminista, mas sejam quais forem as decisões que uma mulher tome para si mesma, se se sentir bem de biquíni e mesmo na capa da Playboy, isso vai ser empoderador”, continua.

A primeira loja da Omega em Portugal abriu em dezembro do ano passado, mas só esta quarta-feira teve a inauguração oficial © Divulgação

“Talvez tenha tido apenas sorte, mas nunca tive uma má experiência com um fotógrafo nem nos bastidores de um desfile. Sei que há muita gente a voltar aos bastidores para gerar conteúdo, por causa das redes sociais. Talvez esse espaço sagrado tenha começado a ser violado por cada vez mais gente e que, por isso, haja mais proteção para garantir privacidade — ‘Hey, estamos a trocar de roupa e não é OK entrar na sala quando estamos a mudar de roupa’. E sei que a Kaia também nunca teve uma má experiência”, conclui.

A vinda de Cindy Crawford a Lisboa marca a inauguração da primeira loja da Omega em solo português, na Avenida da Liberdade, marca da qual é embaixadora desde 1995. “Estou casada há mais tempo com a Omega do que com o meu marido, e sem nunca termos brigado”, brinca, logo depois de ter admitido que o primeiro relógio que teve era da marca Swatch. Em 2017, não foi a única Crawford a dar a cara pela marca suíça. Ao lado do marido, o empresário Rande Gerber, com quem casou em 1998, e dos filhos, os manequins Kaia, de 17 anos, e  Presley Gerber, de 19 anos, protagonizou uma campanha fotografada por Peter Lindbergh.

A referida loja abriu portas em dezembro do ano passado, mas esperou pela visita de Cindy Crawford, compreensivelmente, para fazer a inauguração oficial. Fundada em 1848, a marca abre a primeira loja própria em Portugal. O novo espaço passa, assim, a concentrar a maior diversidade de coleções da marca, incluindo o modelo Constellation, o favorito da supermodelo.

Artigo atualizado às 17h50 de quarta-feira, dia 13 de março.