Demorou cerca de um dia a ficar resolvido. O maior apagão da história do Facebook pôs os utilizadores da rede social, Messenger, Instagram e do WhatsApp numa corrida às aplicações de chat concorrentes e num movimento de scroll contínuo à espera que os murais atualizassem. Esta quinta-feira, pelas 16h24, o Facebook deu a situação por plenamente resolvida:

“Ontem, na sequência de uma mudança na configuração do servidor, muitas pessoas tiveram problemas no acesso às nossas apps e serviços. Resolvemos agora todos os problemas e o sistema está a recuperar. Lamentamos muito a inconveniência que isto causou e agradecemos a paciência de todas as pessoas”, escreveu no Twitter.

“Não foi possível atualizar o feed”, gostos que teimavam em não aparecer, imagens que não eram entregues quando enviadas em conversas privadas, comentários que não eram publicados. O apagão foi tal que o Facebook se viu obrigado a utilizar uma rede social concorrente, o Twitter, para comunicar o problema aos utilizadores. Foi a segunda vez que isto aconteceu na história daquela que é a maior rede social do mundo.

Os problemas começaram a ser reportadas no site especializado “DownDetector” por volta das 15h desta quarta-feira e só durante a madrugada seguinte é que começaram a melhorar. A longevidade do episódio e o número de apps envolvidas fez com que se tornasse no mais grave da história do Facebook. A BBC lembra, contudo, que houve problemas semelhantes em 2008, mas nessa altura o Facebook ainda não tinha sob o seu domínio o Instagram ou o WhatsApp e tinha apenas cerca de 150 milhões de utilizadores. Hoje, todos os serviços juntos têm mais de 2.700 milhões.

No Twitter, o Facebook apressou-se a comunicar que não se tratava de um ataque informático “DDoS” (inúmeros acessos simultâneos a servidores com o objetivo de sobrecarregá-los para boicotar sites). Ao Observador, logo na quarta-feira, o Facebook enviou o seguinte comunicado: “Estamos cientes de que as pessoas estão a ter alguns problemas ao aceder às aplicações da família Facebook. Estamos a trabalhar para resolver o problema o mais depressa possível”.

À Wired, o porta-voz Tom Parnell reiterou o que já tinham escrito no Twitter: “Posso confirmar que não tem nada a ver com ataques informáticos externos”. Na página da rede social para programadores, um membro da equipa do Facebook escreveu: “De momento, estamos com problemas que podem fazer com que algumas solicitações de API demorem mais ou ocorram inesperadamente”, o que pode significar várias coisas: procedimentos de manutenção, relacionados com o domínio da empresa, entre outros.

Troy Mursh, investigador de segurança da Bad Packets Report também disse à Wired que “não havia provas de qualquer espécie que pudessem indiciar que se tratava de um ataque malicioso”. E acrescentou: “Podemos confirmar que não se trata de um ataque real [ao Facebook] ou generalizado”. A resposta oficial ao problema chegou apenas esta quinta-feira — a causa estava numa mudança que estava a decorrer na configuração de um dos servidores da rede.

Problemas ocorreram em dia de mudança nos vídeos e música

Os problemas desta quarta-feira surgiram no dia em que o Facebook apresentou várias novidades no festival norte-americano South By Southwest (SXSW), relacionadas com a partilha de músicas e vídeo e o canal Watch Party, que ambiciona competir com o YouTube. A partir de quarta-feira, o Watch Party passou a permitir que as pessoas organizassem eventos à volta do que está a ser transmitido em direto no canal. Os primeiros testes vão ocorrer em grupos do Facebook, durante a transmissão de eventos desportivos como a jogos da Liga dos Campeões. Esta possibilidade vai permitir que os fãs comentem e discutam os jogos na rede social enquanto estão a vê-los.

As novidades surgiram quase uma semana depois de Mark Zuckerberg ter anunciado aquela que poderá ser a maior mudança operacional da rede social: a transformação numa plataforma focada e orientada sobretudo para a privacidade dos utilizadores e que terá por base seis pilares — o das interações privadas entre os utilizadores (e não públicas), o da encriptação das mensagens (para que mais ninguém consiga lê-las além dos intervenientes), da redução da permanência do que escrevem e publicam (para que as pessoas possam controlar o tempo durante o qual a informação fica disponível) a segurança, a interoperabilidade de todas as plataformas (Messenger, WhatsApp e Instagram Direct numa só plataforma) e na segurança do armazenamento dos dados.

“Hoje, já vimos que as mensagens privadas, as storys efémeras e os pequenos grupos são de longe as áreas que mais crescem na comunicação online. Há uma série de razões para que isso aconteça. Muitas pessoas preferem a intimidade da comunicação de um para um ou apenas com alguns amigos. As pessoas estão agora mais preocupadas por terem um registo permanente do que partilharam”, afirmou Zuckerberg no post tornado público a 7 de março.

Esta mudança de foco traduzir-se-á num Facebook mais fechado e num menor acesso à informação cedida pelos utilizadores, o contrário da lógica de partilha pública e de plataforma global que está na génese da rede social, o que implica mudanças a nível estrutural.

O apagão também ocorreu no dia em que o The New York Times noticiou que a justiça norte-americana está a investigar as parcerias que o Facebook fez com empresas tecnológicas como a Blackberry, a Amazon ou a Microsoft, através das quais permitia que tivessem “acesso especial” a dados de utilizadores. A investigação já permitiu recolher provas de “pelos menos dois grande fabricantes de telemóveis” que tinham acesso a informações como contactos pessoais e à lista de amigos sem que os utilizadores tivessem consentido.

Ao The New York Times, o Facebook confirmou a investigação e afirmou que vai continuar a cooperar com as autoridades, como tem feito noutras investigações. Não se sabe quando é que os procuradores norte-americanos do tribunal federal distrital de Nova Iorque iniciaram esta investigação, mas o Facebook já tinha afirmado no passado qu tinha cessado com este tipo de parcerias. O véu sobre a utilização indevida de dados de utilizadores começou a ser levantado há cerca de um ano com a revelação do caso Cambridge Analytica.