PSD

A ambição de um “tipo modesto”, o desconforto das ilhas e o regresso do voto secreto

Presidente do PSD define como objetivo ganhar as eleições. Discurso do líder gerou desconforto em candidata da Madeira. Pedro Pinto insistiu no voto secreto, mas lista foi aprovada por 91%.

Rui Rio: "Sou um tipo modesto"

JOSÉ COELHO/LUSA

Tudo apontava para uma noite pacífica, de um “tipo modesto” com uma lista fechada para Bruxelas e um partido mais unido do que há dois meses. Mas, no PSD, nem tudo o que parece é. Na primeira intervenção no Conselho Nacional em Coimbra, Rio reconheceu que o partido estava mais unido, mas viu, pouco mais de uma hora depois, o presidente da segunda maior distrital do partido (Lisboa) apresentar um requerimento para que a votação da lista às Europeias fosse por voto secreto. Rio apelou a Pedro Pinto que recuasse. Não recuou, o Conselho de Jurisdição falou e o voto foi mesmo secreto. A votação foi mais-do-que-tranquila para Rio (70 votos a favor, 7 contra), mas ficou dado o sinal para o que pode vir a acontecer quando as listas forem para as legislativas.

Na história da noite fica também a definição do objetivo de Rui Rio, também assumido por Paulo Rangel: ganhar as eleições Europeias, o que significa ficar à frente do PS. Na sua intervenção, o presidente do PSD conseguiu ainda irritar as regiões autónomas. O protesto dos Açores era esperado, mas Rui Rio conseguiu, logo no seu discurso inicial, colocar a candidata da Madeira, Cláudia Monteiro Aguiar, numa posição desconfortável. No fim, Rangel meteu água na fervura, apagou um pequeno fogacho começado por Rio e desvalorizou os pequenos atritos da noite: “Há sempre calor em todos os conselhos nacionais em que há listas”.

O regresso do voto secreto (sem drama)

Já depois da meia-noite, o presidente da distrital de Lisboa, Pedro Pinto — um dos defensores da moção de censura a Rio na madrugada de 18 de janeiro –, apresentou um requerimento para que a lista às Europeias fosse votada por voto secreto e não por braço no ar — o que remete para a novela de janeiro quando a discussão sobre o modo de votação da moção dividiu os conselheiros.

Desta vez tudo foi mais pacífico, mas voltou a não haver uma obediência ao líder. Pedro Pinto elogiou a lista às Europeias, mas apresentou um requerimento para que a votação fosse secreta, por uma questão de coerência com o que defendeu no anterior Conselho Nacional. Rio pediu-lhe, sem êxito, que recuasse.

Foi dada a palavra ao Conselho de Jurisdição que remeteu para o parecer dado em janeiro: havendo um requerimento de 10% dos conselheiros, o voto tem de ser secreto. E assim foi. A votação foi secreta e atrasou ainda mais o fim do Conselho Nacional, que terminou já perto das duas da manhã (tinha começado às 21h00)

A lista às Europeias foi aprovada, mas a ala desalinhada com Rio conseguiu o que queria: abriu um precedente para a votação da lista às Legislativas no verão. Aí, altura em que os potenciais descontentes serão mais, provavelmente o voto também será secreto. E já haverá tradição quanto baste para defender a coerência de manter o método.

“Sou um tipo modesto, prefiro ganhar eleições”

Rui Rio encheu o peito e assumiu o objetivo: ganhar as eleições ao PS. No discurso inicial deu uma espécie de guião aos conselheiros sobre que discurso fazer em campanha durante as Europeias para conquistar eleitores. Segundo relatos de vários conselheiros, Rui Rio disse que aspira a “um resultado bom, ganhando”, mas — no seu tom habitual quando graceja — complementou: “Devo dizer-vos que sou um tipo modesto, porque nunca consegui na minha vida ganhar uma sondagem (….) Portanto, não me vou esforçar por isso, fico mais pela minha modéstia: prefiro ganhar eleições sem sequer conseguir ganhar sondagens.”

Rui Rio avisou depois que “se as coisas internamente acalmarem”, o PSD tem “possibilidades de trabalhar para fazer melhor” e que “quando não é assim, tudo se torna mais complicado” e o país não confere ao PSD a credibilidade que o partido necessita. Ainda assim, o presidente do PSD admite que tudo ficou melhor depois de vencer a moção de confiança: “Desde o Conselho Nacional até hoje as coisas melhoraram notoriamente”. Talvez Rio tenha falado cedo demais, já que depois enfrentou a questão do voto secreto e fez um apelo que não foi atendido pelo líder da distrital de Lisboa.

Ainda assim, Rui Rio assumiu um toca a reunir: “A partir de agora, da meia-noite, temos de assumir que estamos em pré-campanha eleitoral.” Para o presidente do PSD, o “primeiro passo” para “um bom resultado nas eleições europeias é o combate à abstenção”. Assim, a primeira lição de Rio é que os militantes do PSD têm de “sensibilizar os portugueses” da “importância” que é votar nas eleições para o Parlamento Europeu. Rio lembrou até, como exemplo, que na Assembleia da República o PSD tem seis vezes mais deputados que o PCP, mas no Parlamento Europeu só tem o dobro do PCP, uma vez que os comunistas mobilizam “muito mais o eleitorado.”

O presidente do PSD diz que “independentemente de tudo, das propostas, da qualidade da lista, do discurso, o importante é conseguir levar as pessoas, no dia 26 de maio, a efetivamente votarem”. Por isso, independentemente da “criatividade” de cada um, Rio propõe alguns argumentos para convencer os portugueses: que a Europa é “cada vez mais importante na vida”, a política europeia do PSD (da União Económica Monetária à preservação dos partidos tradicionais) e a política nacional (evidenciando aquilo que o PS tem feito mal).

E aí Rio fez várias críticas aos socialistas, enaltecendo a “degradação dos serviços públicos”. Falou até num parâmetro que o PSD não tem utilizado como arma de arremesso: “No caso da Saúde eles conseguiram degradar a própria taxa de mortalidade infantil, que era algo que nós tínhamos como elemento melhor do mundo, das melhores taxas. (…) Não estamos com uma taxa horrível, mas degradámos”. Rio criticou ainda o desnorte da Segurança Social, alertando para o facto de as pessoas “meterem os papéis para reforma e eles não responderem”. E indigna-se: “Em alguns casos levam mais de um ano”.

Rio acredita que os argumentos que o PSD tem “quer política europeia, quer política nacional” asseguram ao partido a “possibilidade e a ambição de ganhar as eleições” ou crescer “francamente em número de deputados eleitos e votos”. Sobre as sondagens, Rio disse ainda que, mesmo a sondagem que dava 25%, tem de ser relativizada: “Nós nas últimas europeias tivemos 27%, mesmo esta sondagem horrível dá-nos 25 mais 8 que vão para o CDS o que acho que dá 33.”

O desconforto da “indicada da Madeira”

O presidente do PSD fez um análise detalhada de cada um dos candidatos com rasgados elogios a cada um dos primeiros sete nomes da lista. Paulo Rangel foi descrito como o “um deputado muito influente e respeitado na Europa”, Lídia Pereira alguém com “alguma relevância profissional e muita relevância política”, José Manuel Fernandes “o melhor no ranking” e por aí fora. Mas quando chegou à deputada da Madeira, Cláudia Monteiro Aguiar, Rio — em vez de enaltecer o currículo — disse apenas que era a “indicada pela Madeira”.

Na sala percebeu-se o desconforto por Rui Rio não ter feito qualquer referência ao seu currículo (acumula, por exemplo, experiência como deputada na Assembleia da República com a experiência de deputada europeia). A eurodeputada acabou por não ficar até ao fim do Conselho Nacional. Cláudia Monteiro de Aguiar também já começou, num caso inédito, a ser condicionada pela direção nacional. A Comissão Política deliberou que no seu gabinete tem de ter uma pessoa dos Açores para compensar a ausência de um açoriano dos lugares cimeiros da lista.

Já no final do Conselho Nacional, o chefe da delegação do PSD em Bruxelas, Paulo Rangel, veio pôr água na fervura neste desconforto. Fez — tal como Rio tinha feito perante os conselheiros — uma análise detalhada aos primeiros 10 nomes da lista, mas enalteceu Cláudia Monteiro Aguiar na mesma linha dos outros candidatos. Disse que a candidata da Madeira tem não só um “papel importante na área das regiões ultraperiféricas”, como também “foi a pessoa que pôs, pela primeira vez, o turismo como uma questão europeia”. E acrescentou: “Hoje o turismo já tem alguma dimensão europeia e isso deve-se muito à Cláudia Monteiro de Aguiar“.

Sobre os Açores, Rangel também fez de apaziguador, dizendo que é normal este tipo de atritos: “Há sempre algum calor em todos os Conselhos Nacionais em que há listas”, mas isso não apaga o essencial: “Há aqui uma forte unanimidade em volta da lista.”

Artigo atualizado às 03h24

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