O incêndio que durante quase 24 horas assolou Oliveira de Azeméis, o mais grave deste ano e dos 135 que deflagraram em Portugal na terça-feira, já está extinto. Começou na madrugada de terça-feira, na freguesia de Pinheiro da Bemposta, no concelho de Oliveira de Azeméis, e transformou o dia em noite. Não se via nada. Ninguém via ninguém. O relato é feito a dois quilómetros do foco do incêndio por Mário Almeida, 68 anos, morador na aldeia de Alviães, freguesia de Palmaz. A tarde ia a meio quando chegou a casa e encontrou a mulher aos gritos, desesperada. “Nós víamos na televisão, mas nunca pensámos que fosse assim”, contou ao Observador, horas depois, ainda os bombeiros lhe protegiam a casa temendo que as chamas engolissem a vegetação ali à volta. “Vamos ficar aqui a noite toda”, garantiram-lhe vários operacionais, mas nem assim Mário aceita abandonar o muro do terraço onde se apoia, e ir para dentro de casa.

Foram mais de 400 os bombeiros que chegaram a estar no terreno para combater o fogo no dia em que o Governo acabou por declarar o estado de alerta até domingo tendo em conta as previsões meteorológicas. Na manhã desta quarta-feira ainda estavam a trabalhar 331 bombeiros, apoiados por 100 viaturas.

Apesar de, já à noite, o fogo ter sido dado como controlado, Mário dificilmente conseguiu dormir. “Não vou dormir sossegado, vimo-nos aqui aflitinhos”, desabafou. “Ficou aqui noite sabe o que é noite? Não nos conseguíamos ver uns aos outros.”, descreveu. Mário é deficiente, tem “os pés virados para dentro” e já passou por 14 operações, conta em jeito de desabafo de quem já passou muitas provações na vida. “Passei muita fome, trabalhei a vida toda por esta casa” e, agora, tem medo de a perder. Está rodeado de vegetação e “se o fogo chega a esta beira é o fim”.

O sentimento é partilhado a poucos metros por Rosa Assunção, de 70 anos. No fundo da rua, a vizinha de Mário, com pouco mais de um metro e meio, de avental, e com um casaco apertado até ao nariz, por causa do desconforto causado pelo fumo, conta como o fogo percorreu as terras vizinhas — Nespereira e Valmadeiros — até passar o rio Caima e chegar aquela aldeia. Tudo localidades trancadas na serra. “É a primeira vez que vejo um incêndio desta dimensão”, contou Rosa. “Andou muito perto das casas”.

Incêndio que teve inicio às 03:32 do dia 26 de março no concelho de Oliveira de Azeméis na localidade de Vilarinho de São Luis consumiu grande parte da área florestal das freguesias de Pinheiro da Bemposta, Travanca e Palmaz. Rosa Assunção, 70 anos e Mario Almeida, 68 anos. Octavio Passos/Observador

Rosa afirma que o fogo “foi trazido pelas folhas de eucaliptos, que vinham a arder, e pegaram fogo ao mato”. Tem algumas dificuldades em falar, por causa do fumo, que a leva a tapar a boca ora com o casaco, ora com um lenço branco. Tem medo do que passou e do que se pode vir a passar, mas conta, em tom de brincadeira que quem está longe, mas tem o coração perto, também sofre com a preocupação. “Levei um raspanete das minhas filhas! Como andava numa correria [por causa do fogo], esqueci-me de atender o telemóvel e elas ficaram muito preocupadas, porque não sabiam nada de mim. Até ligaram para a minha irmã que mora lá para cima, mas nem ela sabia onde eu estava.” Rosa confessou que as filhas lhe imploraram para se fechar em casa, mas que a inquietação a faz andar de um lado para o outro.

Hilário Isparro, de 57 anos, saiu prejudicado. “Já me arderam três montes.” O vizinho não limpou a vegetação, o fogo chegou, e apesar de ter a erva baixa, “lavrou tudo por lá cima.” O palco da conversa entre os vizinhos que se juntam para falar sobre as preocupações e estragos causados pelo fogo, é em frente à casa de Mário. O cruzamento, que quer à direita, quer em frente, entra pela floresta dentro (de acesso impossível a carros ligeiros) conta com vários carros de bombeiros e operacionais que também fazem parte da conversa.

O único café que há ali está fechado às segundas e terças-feiras. As pessoas estão em casa, os mais curiosos juntam-se nas bermas da estrada e fazem perguntas aos bombeiros, que não saem das ruas. Mário vai dando água aos bombeiros. “Podemos utilizar a sua casa de banho?”, perguntam muitos. A resposta é simples. “Claro, a minha senhora está lá dentro. Tudo o que precisarem, não hesitem em pedir!”

Os bombeiros estão cansados. Muitos vieram de longe e já são muitas horas de trabalho. Os que estavam no local, a fazer o rescaldo, tinham como principal foco a proteção dos moradores e temiam o pior. “O vento é sempre um problema”, discutiam entre si. Mas os seus receios não se concretizaram. Quando o sol nasceu, o fogo estava apagado.

À meia noite, no posto de comando na freguesia de Palmaz, Joaquim Jorge, presidente da Câmara de Oliveira de Azeméis e responsável pela Proteção Civil local, explicava ao Observador que já não havia fogos ativos. “Há alguns reacendimentos, que são controlados no momento, mas não temos nenhuma frente ativa.”

Joaquim Jorge disse que não se sabe se foi fogo posto, ou não. “As previsões são que corra tudo bem, não há vento. Estão 320 operacionais no terreno e perto de 100 viaturas, temos meios suficientes para controlar a situação.” O responsável pela Proteção Civil contou que durante o dia, com o desenvolvimento do incêndio, as habitações foram ameaçadas, mas não houve riscos de vida. “Foi um incêndio muito complicado e difícil de combater, mas tivemos sucesso.”