Ninguém pode dizer que nunca ouviu uma música de Marco Paulo. E ninguém pode dizer que nunca lhe foi pedir um autógrafo depois de um concerto de aldeia (isto talvez só seja verdade para algumas pessoas). Mas enfim, ninguém poderá mudar o mundo. Ninguém, ninguém, ninguém. E é também por isso que esta sexta-feira, às 23h15, a RTP lhe dedica um documentário de 50 minutos, “Maravilhoso Coração”, integrado na série “Vejam bem”, que já fez o mesmo com Simone de Oliveira, José Mário Branco, José Cid e Jorge Palma, seguindo logo depois para Paulo de Carvalho.

A ideia, do jornalista Nuno Galopim é “pegar nos nomes panteónicos da música portuguesa e apresentá-los numa combinação entre primeira voz, numa longa entrevista atual, e as imagens de arquivo da RTP”. E foi o resultado disso, no caso concreto de Marco Paulo, que o Observador foi convidado para assistir, em primeira mão, antes da emissão televisiva e na companhia dos dois responsáveis pelo episódio – Nuno Galopim e o realizador Miguel Pimenta –, que já sabiam de cor todas as falas do cantor. Além de todas as músicas, claro. “Estamos há um mês a ver e a rever isto.”

[Imagens de “Maravilhoso Coração”:]

Vejam Bem

São 52 anos de carreira de Marco Paulo. A história de um sonho concretizado passa depois por uma multidão de êxitos em disco, por palcos vividos e pelo desejo de nunca desistir."Marco Paulo: Maravilhoso Coração", sexta à noite na RTP1

Posted by RTP1 on Monday, 8 April 2019

No ecrã, Marco Paulo vai recordando marcos importantes da sua vida. O cheiro e a comida do Alentejo, onde nasceu, os dias que passou à porta do cinema para conseguir ouvir e decorar as músicas de Joselito nos filmes, a primeira vez que lhe pagaram para cantar – 50 escudos e um garrafão de vinho. A ilustrar, vão aparecendo imagens a preto e branco de ceifeiras ou da escola onde Marco Paulo estudou, uma entrevista antiga do pai do cantor e, depois de alguma espera, finalmente os caracóis dos anos 80, a imagem nostálgica e simbólica que aproxima o espectador daquele homem agora mais velho, de pólo azul forte, que vai recordando a sua vida.

“De fundo, vamos sempre ouvindo canções dele antigas também, dos anos 60, que as pessoas não conhecem tão bem”, diz Nuno Galopim. Por esta altura, no documentário, Marco Paulo está quase a tornar-se Marco Paulo e a deixar de ser João Simão da Silva. “E pronto”, diz o cantor no final de uma frase, com Nuno Galopim a dizê-lo ao mesmo tempo, enquanto sorri. “Fica tão bem este ‘pronto’.” Vem aí o primeiro EP, Não sei, mas o Marco Paulo destes anos 60 ainda não é o Marco Paulo que se colou à retina de toda a gente, com o clichê do microfone a passar de uma mão para outra a ser elegantemente contornado pelo documentário.

A capa do EP “Não Sei”

“Era um galãzinho”, diz Galopim. E, pelo menos a avaliar pelas fotografias, era mesmo. Camisas justas mas discretas, calças à boca de sino, cabelo curto. Aliás, quem julga que basta saber a letra toda de “Taras e Manias” para não ser surpreendido por este “Maravilhoso Coração”, está enganado. “Há muita coisa aqui que ninguém imagina.” Prova disso, as imagens de Marco Paulo na Guiné-Bissau, a fazer o serviço militar, ou um momento algo lynchiano e irrepetível – o cantor a atuar dentro da jaula dos leões num circo.

Vamos chegando aos anos 80, e esses sim, são os anos em que, mesmo num escritório do Centro de Inovação da RTP, com apenas três pessoas sentadas em frente a uma televisão, é impossível não cantarolar as músicas e as atuações que vão sendo recuperadas pela RTP Memória para o documentário da RTP. “Comprei os álbuns todos do Marco Paulo para fazer isto. Foi uma bela desculpa”, brinca Nuno Galopim, enquanto lá vão desfilando “Ninguém Ninguém” – “ele aqui estava mesmo com um vozeirão” –, “Anita”, “Eu Tenho Dois Amores”, “Sempre que Brilha o Sol”, “Taras e Manias”. E sim, mais uma vez aos caracóis, numa espécie de revelação de livro de BD, quando se percebe como é que o herói adquiriu os seus super-poderes: o que, neste caso concreto, foi apenas um dia em que Marco Paulo saiu de casa sem secar e sem pentear o cabelo.

Já quase no fim, depois do clássico Natal dos Hospitais, e de cantar uma música que “nem eu conhecia” (“Dono do Meu Coração”), Marco Paulo fala de como as críticas são dolorosas, de como ninguém gosta que lhe chamem “piroso”. E, neste ponto, Nuno Galopim, crítico de música há décadas, quase entra em diálogo com o homem que entrevistou: “Nunca fiz crítica aos discos dele. E, por acaso, sempre que escrevi alguma coisa sobre ele nos jornais acho que fui simpático.”

O que aprendemos com as canções de Marco Paulo

Vai acabar. Marco Paulo mostra ainda os seus discos de ouro. E, com 50 anos de carreira, consegue dizer com muita clareza aquilo que é e sempre quis ser: “Um cantor de voz, de interpretação e romântico.” Fala também do próximo disco, que sai no final de Abril. E, sem estragar demasiado, é natural que, sendo o fim do programa, se pense um bocado no fim em geral.

“É isto que também é interessante nesta série – não são pessoas a promover um produto ou em fim de carreira. Estão todos a fazer alguma coisa. E isto é apenas uma forma de contar a história destas pessoas, sem ser apenas com uma entrevista. E estas histórias cruzam a história da música e do país. É como um retrovisor: estás a olhar para trás, mas também estás a olhar em frente. No fundo, estamos a construir um coro”, conclui Nuno Galopim.