Literatura

“Alma”, de Manuel Alegre, regressa às livrarias com prefácio de Mário Soares

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Uma nova edição do romance "Alma", de Manuel Alegre, é publicada na terça, com um prefácio de Mário Soares, que o aponta com "um grande romance de genuína ficção, criativo, original, transfigurado".

ANTÓNIO PEDRO SANTOS/LUSA

Autor
  • Agência Lusa

Uma nova edição do romance “Alma”, de Manuel Alegre, é publicada na terça-feira, com um prefácio do ex-Presidente da República Mário Soares, que o aponta com “um grande romance de genuína ficção, criativo, original, transfigurado”.

Esta 16.ª edição de “Alma”, além da novidade do prefácio, inclui, no final, um curto texto do escritor Luiz Pacheco, sobre o romance, retirado do seu livro “Isto de Estar Vivo” (2000), no qual afirma que Manuel Alegre consegue nesta narrativa “uma emotiva incursão na sua infância, ao mesmo tempo que nos vai desdobrando o panorama de uma povoação provincial com o seu dia-a-dia marcado pela repressão e medo salazarista”.

Mário Soares, por seu turno, escreve: “‘Alma’ é um grande romance: é a história de uma terra de província, num dado momento histórico, com as suas personagens, o seu ritmo, as paisagens, o rio, os animais, especialmente os peixes e os pássaros, e um certo halo nostálgico da infância, recriada por uma memória intacta, límpida, selectiva, precisa nos mais ínfimos pormenores. Haverá a tentação de identificar ‘Alma’ com Águeda: erro grave, julgo”. “‘Alma’ é um grande romance de genuína ficção, criativo, original, transfigurado”, escreveu Soares.

O texto agora recuperado como prefácio foi o da apresentação crítica do romance, lido em 21 de dezembro de 1995, em Lisboa. Tanto Soares como Luiz Pacheco consideraram que Manuel Alegre devia dar continuidade ao romance. Pacheco, dirigindo-se ao autor, afirmou: “Este seu romance pede, e exige, continuação. Trata-se de um testemunho precioso numa prosa tão directa e certeira como impregnada de emoção e sageza”. Soares, por seu turno disse: “Não nos deixe com água na boca. Meta mãos ao trabalho. Conte-nos, depressa, o resto da história. Ou será que, ao contrário do que nos quiseram fazer crer há alguns anos, não estamos a viver o fim da História? E teremos de persistir nos nossos velhos combates?”.

Alma, como explica Mário Soares, é uma vila à beira rio, “num tempo parado, onde os ecos da Europa em guerra repercutiam esbatidos, mas provocavam nas famílias divisões insistentes, e onde Maria do Ó [uma das personagens], da mesma idade e vestida de anjinho, ‘só olha p’ró Duarte’ [outra personagem] e em cujos ‘olhos muito azuis começava [para ele] o sul'”.

“Uma vila onde ficava a casa, ‘um castelo, um sítio sagrado, o último reduto’, onde reinava a avó Beatriz, detentora, por seu marido, da legitimidade republicana e oposicionista de Alma”.

Pacheco nota-lhe “um testemunho precioso” apresentado o escritor, em forma de metáfora, “uma povoação provincial com o seu dia-a-dia, marcado pela repressão e medo salazarista”.

Mário Soares, que dez anos mais tarde teria o escritor como adversário para as eleições Presidenciais de 2006, recorda a cumplicidade com Alegre, de quem afirma: “Admiro o homem, na sua integridade, como um todo, nas suas qualidades e defeitos. Sou seu companheiro de ideal e de caminho, amigo fraterno, nas boas e nas más horas, com percursos políticos muito semelhantes, provados em tantas batalhas memoráveis, travadas em comum, cúmplices na maneira de estar e de sentir e num certo modo romântico ou, se preferirem, afectivo, de encarar os acontecimentos e de conviver com os outros”.

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