PortA Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto (FBAUP) vai emprestar o desenho de Leonardo Da Vinci da sua coleção ao Museu do Louvre, em Paris, para a exposição que assinala os 500 anos da sua morte.

A diretora da FBAUP, Lúcia Almeida Matos, disse à Lusa, em janeiro, enquanto exemplo dos empréstimos nacionais e internacionais solicitados à coleção de arte da faculdade, que o desenho de Leonardo Da Vinci vai ser exibido no outono, no Museu do Louvre, em Paris, depois de ter estado na Holanda, na mostra do Museu Teyler, em Haarlem, dedicada aos principais desenhos sobreviventes do mestre da Renascença.

“Rapariga lavando os pés a uma criança” vai assim fazer parte da exposição, a inaugurar no próximo dia 24 de outubro, no museu mais visitado do mundo, que, segundo a sua página na internet, reunirá “um grupo exclusivo” de obras de Da Vinci, entre pinturas, desenhos e esculturas, com origem em diferentes instituições, que se juntarão às “grandes pinturas” da coleção do Louvre, como “Mona Lisa”, “A Virgem e Santa Ana”, “Baco” e “São João Baptista”.

A primeira atribuição a Leonardo Da Vinci do desenho que pertence ao acervo da FBAUP foi sugerida em 1965, pelo historiador de arte e curador britânico Philip Pouncey, e veio a ser confirmada mais tarde, em 1977, quando foi examinado o original, no Porto, segundo a descrição da sua proveniência, patente no repositório temático da Universidade do Porto.

“Pouncey deu a conhecer a sua descoberta no ano seguinte, num pequeno artigo publicado na revista Apollo. Tendo em conta a estreita relação estilística entre o desenho do Porto e um grupo de desenhos para uma composição da Virgem e o Menino com o Gato existente no British Museum, (…) Pouncey considerava que o desenho recém-descoberto deveria datar de c. 1480, ano em que o artista vivia ainda em Florença”, pode ler-se no mesmo texto.

Mais tarde, o historiador de arte e perito em Da Vinci Carlo Pedretti “sugeriu que tanto o desenho do Porto como os desenhos com ele relacionados do British Museum [datavam] de c. 1483, pouco depois da transferência de Leonardo para Milão”.

“Rapariga lavando os pés a uma criança” esteve exposto no Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), em Lisboa, na exposição temporária “Madonna – Tesouros dos Museus do Vaticano”, patente de maio a setembro de 2017.

O processo de atribuição a Leonardo é também descrito pelo catálogo desta exposição do MNAA, que destaca “o tratamento do desenho à pena, com aguada castanha”, e “o característico traçado descendente, da esquerda para a direita”, similar a outras obras do mestre italiano, sobre o tema de Madonna, produzidos no mesmo período.

A datação coloca o desenho como contemporâneo de “A Adoração dos Magos”, do pintor, e o MNAA sublinha “as afinidades” entre o rosto da Virgem, no quadro, e o da rapariga, no desenho.

A representação de uma nádega infantil, num dos cantos da página, em jeito de ensaio, e a existência de colunas de palavras manuscritas, “na característica caligrafia espelhada [invertida] de Leonardo”, igualmente patentes no desenho “Estudo de Uma Criança Nua nos Braços de Uma Mulher”, da Royal Collection, em Windsor, reforçaram a identificação do autor.

A proveniência de “Rapariga lavando os pés a uma criança” está identificada desde o detentor original – comendador Vittorio Genevosio – até à Academia de Marinha e Comércio, do Porto, e à Academia Portuense de Belas-Artes, a que se sucedeu a Escola Superior de Belas Artes do Porto, atual FBAUP.

A “exposição excecional de Leonardo Da Vinci”, como o Museu do Louvre define a mostra que vai inaugurar a 24 de outubro, vai exigir a reserva antecipada de bilhetes, para se garantir o acesso ao “Hall Napoléon” – uma medida anunciada esta semana, para controlar o número de visitantes.

O Louvre recorda que Leonardo Da Vinci abandonou Itália após a morte do seu patrono, Giuliano de Medici, tendo chegado ao Castelo de Clos Lucé, em Ambroise, em novembro de 1516, onde permaneceu até à sua morte, três anos depois.

“É por isto que o Louvre detém quase um terço das suas pinturas: aquelas que ele trouxe para França foram adquiridas por François I e entraram para as coleções reais, que provavelmente já incluíam ‘A Virgem dos Rochedos’ e ‘La Belle Ferronnière’, adquiridas por Louis XII. Este excecional conjunto de pinturas, que constituiu o começo das coleções do Louvre foi suplementado por 22 dos desenhos do artista”, explica o museu.

Segundo o Louvre, a exposição vai incluir uma “grande seleção de desenhos e um pequeno, mas significativo, grupo de pinturas e esculturas que vão fornecer algum contexto tangível”.

No entanto, é ainda incerta a presença da obra “Salvator Mundi”, comprada em leilão de forma anónima pela quantia recorde de 403 milhões de euros, mas cuja autenticidade tem sido questionada.

No final de março, o New York Times publicou um texto que indicava que o Louvre Abu Dhabi, onde o quadro deveria ficar exposto, desconhece o paradeiro da pintura.

No início do ano, o governo italiano anunciou que não iria autorizar o empréstimo de obras para a exposição do Louvre, uma vez que, segundo a subsecretária de Estado da Cultura, Lucia Borgonzoni, citada pelo The Art Newspaper, “Leonardo era italiano, só morreu em França, pelo que dar ao Louvre todas essas pinturas seria colocar a Itália nas margens de um grande evento cultural”.

Por seu lado, o diretor das Galerias dos Ofícios, em Florença, afirmou, citado pelo mesmo órgão de comunicação, estar certo de que os seus colegas franceses no Louvre o iriam apoiar na decisão de aplicar as mesmas regras às suas pinturas de Leonardo que eles aplicam à “Mona Lisa”, ou seja, a política de não emprestar as obras em causa.