Joga (muito), marca e assiste. Mas a diferença de Pizzi esteve noutro gesto (a crónica do Sp. Braga-Benfica)

Após uma primeira parte sem remates à baliza, Benfica atropelou Sp. Braga (4-1) com dois golos e uma assistência de Pizzi. O Comandante continua a bater recordes, mas não é só por aí que se destaca.

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Pizzi apontou o primeiro golo de penálti e foi buscar a bola para acelerar o reatamento de um jogo que terminaria em goleada

Ivan Del Val/Global Imagens

Pizzi apontou o primeiro golo de penálti e foi buscar a bola para acelerar o reatamento de um jogo que terminaria em goleada

Ivan Del Val/Global Imagens

Recuando à primeira volta do Campeonato, ao encontro entre Benfica e Sp. Braga na Luz (6-2), era complicado encontrar um ponto de contacto que fosse entre duas realidades diametralmente opostas, divididas pela distância temporal de pouco mais de quatro meses: os encarnados mudaram de treinador, de modelo e de sistema tático, os minhotos viram todas as ambições de lutar pelo título esfumarem-se com o passar das semanas, o FC Porto perdeu a vantagem que começava a ser confortável na frente. Ainda assim, há dois pontos em comum dessa partida que voltaram a fazer a diferença – Abel Ferreira e Pizzi.

Em relação ao treinador do Sp. Braga, que cumpria esta tarde o 100.º encontro pelos minhotos, repetiu-se a desilusão. Há 126 dias, o técnico que chegou à Luz com um discurso ambicioso acabou por ver a sua equipa “atropelada” pelo melhor Benfica de Rui Vitória, não porque os momentos em que foi melhor tenham sido curtos (que foram) mas porque nunca conseguiu reagir às fases adversas em que passou para baixo do jogo; agora, os capítulos do filme foram diferentes mas o final tornou-se uma cópia, tendo montado uma estratégia que resultou quase na perfeição durante 45 minutos da primeira parte mas que caiu por completo em apenas 20 e acabou em goleada – sem capacidade de reação, de viragem, quase de “revolta” perante a inversão de momentos, o que quase acabou também com o objetivo de poder ainda atingir o pódio do Campeonato.

Depois, o internacional português, decisivo na goleada da primeira volta ao inaugurar o marcador ainda nos 20 minutos iniciais. Que jogou (muito), que marcou, que assistiu mas que se destacou sobretudo por um gesto que mostra muito do que foi a reviravolta do Benfica no segundo tempo. O empate do FC Porto, mesmo colocando os dragões na frente do Campeonato à condição com um ponto a mais, veio mudar um pouco o contexto daquilo que poderia ser o encontro em Braga, como se viu em algumas fases em que os encarnados pareciam parados entre a realidade de um empate que poderia não ser mau e uma vitória que seria um passo importante para o título. Já depois de ter assistido João Félix para um remate ao poste, o médio empatou de grande penalidade e, em vez de ir festejar com os companheiros, foi à baliza buscar a bola para acelerar o reatamento da partida onde ganharia ainda mais um penálti para converter. Esta é a melhor época de Pizzi nos golos marcados e nas assistências para finalização mas o Comandante, que é também o jogador que mais subiu de rendimento a par de Rafa no modelo de jogo de Bruno Lage, constitui uma peça fundamental sobretudo pelo exemplo que consegue dar aos outros.

Ficha de jogo

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Sp. Braga-Benfica, 1-4

31.ª jornada da Primeira Liga

Estádio Municipal de Braga

Árbitro: Tiago Martins (AF Lisboa)

Sp. Braga: Tiago Sá; Ricardo Esgaio (Ryller, 85′), Bruno Viana, Pablo, Murilo; João Palhinha, Claudemir; Wilson Eduardo (Dyego Sousa, 74′), Ricardo Horta, Fransérgio (Trincão, 85′) e Paulinho

Suplentes não utlizados: Matheus, Goiano, Xadas e João Novais

Treinador: Abel Ferreira

Benfica: Vlachodimos; André Almeida, Rúben Dias, Ferro, Grimaldo; Samaris, Florentino Luís (Gedson Fernandes, 80′); Pizzi (Salvio, 86′), Rafa; João Félix (Taarabt, 90+1′) e Seferovic

Suplentes não utilizados: Svilar; Jardel, Cervi e Jonas

Treinador: Bruno Lage

Golos: Wilson Eduardo (35′, g.p.), Pizzi (59′, g.p. e 66′, g.p.), Rúben Dias (69′) e Rafa (90′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Rúben Dias (34′), Pizzi (34′), Florentino Luís (45+1′), Palhinha (45+2′), Fransérgio (48′), Ricardo Esgaio (55′), João Félix (60′), Bruno Viana (64′), Rafa (72′) e Seferovic (77′)

Com os nomes e as dinâmicas habituais, o Benfica (que muitas vezes parecia estar a jogar em casa) teve dificuldades em fazer o seu jogo no arranque da partida face às zonas de pressão bem subidas do Sp. Braga que iam bloqueando a entrada de jogo na fase de aceleração onde Pizzi e Rafa, cada um à sua maneira, costumam fazer a diferença. Depois, enfrentava ainda outro problema: mesmo quando conseguia sair bem a três e tinha aproximações que podiam levar perigo, havia um buraco enormes que retirava todas as possibilidades de disputar as segundas bolas. Mesmo havendo uma ideia clara de manter o equilíbrio e segurança no plano defensivo, o meio-campo estava a falhar em algumas movimentações e não foi por acaso que, na primeira interrupção do jogo para assistência a um jogador (Paulinho, 17′), Bruno Lage falou junto à linha com vários jogadores.

Os minhotos estavam melhor, jogava-se mais no meio-campo dos encarnados mas nem por isso foram capazes de criar grandes oportunidades de golo. Paulinho, após uma boa desmarcação na área, rematou fraco e ao lado (8′); Wilson Eduardo, após um cruzamento da esquerda de Murilo, cabeceou muito por cima (12′); Paulinho, de novo ele, tentou justificar a presença de Dyego Sousa no banco com mais uma tentativa à figura de Vlachodimos (15′). Houve ainda um lance onde Rúben Dias facilitou e quase colocou o avançado na cara do golo – e que terminou com protestos dos bracarenses, com Tiago Martins a mandar seguir. Mais tarde, aos 27′, Fransérgio teve espaço para testar pela primeira vez o remate de longe e a bola acabou por sair perto da trave da baliza das águias mas, nessa fase, as características do encontro já se começavam a definir melhor.

[Clique nas imagens para ver os melhores momentos do Sp. Braga-Benfica em vídeo]

Até à primeira meia hora, o Benfica canalizou mais de metade das ações ofensivas pela direita, foi arriscando também pelo corredor oposto mas praticamente não avançou com bola pelo meio. Muitas vezes, para disfarçar as dificuldades que Samaris e Florentino Luís iam sentindo na primeira fase de construção, era Ferro a arriscar os passes mais longos à procura de Seferovic para esticar jogo. Pelo contrário, o Sp. Braga conseguia não só bloquear essa zona ao jogo interior de Pizzi como encurtar os espaços entre linhas para a velocidade de Rafa e sair com perigo por um protagonista que começou a aparecer mais depois dos 20 minutos iniciais, Fransérgio. E foi dos pés do brasileiro, o elemento que ligava meio-campo e ataque, que nasceu o primeiro golo, após uma jogada fantástica onde conduziu a bola pelo corredor central durante metros a fio até ser carregado por Rúben Dias na área. Wilson Eduardo, na transformação do penálti, não falhou e colocou os minhotos na frente do marcador (35′).

Em desvantagem, o Benfica conseguiu deixar ainda um esboço de reação até ao intervalo. Mais do que um remate perigoso de André Almeida ao lado (44′), Rafa conseguiu entrar mais no jogo e, nas duas vezes em que conseguiu receber entre linhas e sair na direção da baliza com posse, criou pela primeira vez desequilíbrios na estrutura defensiva do Sp. Braga e “arrancou” um cartão a João Palhinha. Era por ele e por Pizzi que teria de passar a reação dos encarnados – além dos ajustes na zona de meio-campo, que permitissem dar ao jogo outro Samaris e outro Florentino Luís. Tudo o que viria a acontecer no segundo tempo.

Pode falar-se das subidas de linhas do Benfica, do aumento da agressividade sobre o portador da bola ou da maior intensidade colocada nas ações no plano coletivo. Pode falar-se da maior presença de Pizzi nas ações, do envolvimento de João Félix com a equipa, da melhoria da qualidade ofensiva dos laterais. Mas tudo isso acaba por ser um conjunto de pormenores a validarem a principal ideia de todas – os encarnados entraram determinados a ganhar o jogo e a fechar o Campeonato. E bastou ver o gesto de Pizzi após fazer o empate para se perceber que o empate seria curto para as ambições que a equipa trazia.

Grimaldo, num livre direto bem puxado ao poste que Tiago Sá defendeu de forma apertada (48′), e João Félix, num remate ao poste ainda com intervenção do guarda-redes dos bracarenses após assistência de Pizzi (52′), deram o mote para uma autêntica avalanche dos encarnados logo a abrir o segundo tempo, que acabaria por ser materializada com dois penáltis convertidos por Pizzi após falta de Ricardo Esgaio sobre Félix (59′) e mão de Bruno Viana (66′). Tudo porque, nos primeiros dez minutos, mudou por completo todos os números que trazia dos 45 iniciais: aumentou e muito a eficácia de passe (80%), conseguiu muito mais bola (65%), ganhou a maioria dos duelos individuais e teve o dobro dos passes dos arsenalistas. O Sp. Braga, que tinha sido quase perfeito em termos táticos no arranque, estava perdido em campo e sem um caminho que invertesse a tendência, parecendo mais preocupado em pedir o segundo amarelo para João Félix do que propriamente em travar a enxurrada na sua defensiva (61′).

Abel Ferreira, que andava de pé e a sentar-se sem perceber ao certo o que podia fazer para mudar algo a tornar-se inevitável, tentou ler o jogo e percebeu que teria de lançar Dyego Sousa no encontro para encontrar outras formas de chegar ao último terço contrário, nem que para isso tivesse de existir um jogo mais direto, com mais ou menos largura. No entanto, se Pizzi estava em grande na marcação de penáltis, não ficou atrás nos cantos e foi de bola parada que o Benfica chegou ao 3-1 que “matou” por completo o encontro, fazendo mais uma assistência para a cabeça de Rúben Dias, liberto de marcação em mais um dos muitos erros individuais que foram empurrando os visitados para a goleada com que sairiam da Pedreira este domingo (69′).

Dyego Sousa, que lá acabou por entrar fazendo dupla com Paulinho na frente, ainda teve uma boa oportunidade para defesa de Vlachodimos mas foi o Benfica a ter espaço para construir uma goleada a que chegaria em cima do minuto 90: João Félix e Seferovic, no mesmo lance, ainda viram Tiago Sá evitar o quarto golo, o guarda-redes travou ainda um lance onde o avançado suíço apareceu isolado pelo corredor central mas Rafa, aproveitando a passividade de Pablo, roubou a bola ao central, foi ziguezagueando entre adversários e rematou para o 4-1 que fechou as contas do jogo e, veremos, do Campeonato.

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