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Eleições Europeias

Sande, bifanas, cerveja e muita ambição. Mesmo depois “das cambalhotas”, Aliança não quer parar

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Entre cerveja e porco no espeto, Paulo Sande regressa à campanha "firme e rijo". Admite que tem sido mais solicitado depois de "ter dado umas cambalhotas" e não esconde a ambição.

O cheiro a bifanas que se sente à entrada do Jardim dos Moinhos de Santana, em Belém, não engana: há festa lá dentro. A mancha de pessoas vestidas de azul claro um pouco mais acima da entrada principal confirmam o que o nariz já antecipara. São cerca de 150 pessoas que vão trincando o pão com lascas de carne acabadas de cortar de um porco que vai dando voltas infinitas no espeto. Na outra mão têm a bebida, que varia entre o sumo de laranja, a coca-cola e a imperial aparentemente bem fresca. Muitos envergam t-shirts do Aliança, que, percebe-se facilmente, é o motivo para aquele piquenique que se faz mais de pé que sentado.

Com uma mão na cintura, cerveja na outra, óculos de sol desalinhados e um chapéu do partido, Paulo Sande vai saltitando de conversa em conversa. Sempre solícito a quem lhe estende a mão para o saudar ou o pescoço para dar só um beijinho, o cabeça-de-lista do partido às eleições europeias é visivelmente a figura principal da festa e tenta corresponder a todos os pedidos. “É o candidato mais sério e eu acho que isso chega para eleger”, comenta um simpatizante, com cerca de 40 anos, que já tinha dado conta de uma bifana, como atesta o guardanapo amarrotado na mão que aponta inadvertidamente para Paulo Sande.

“Acredito que vamos eleger”, confessa o próprio candidato ao Observador. Este almoço de domingo, que por ser ao sétimo dia foi batizado com o mote “almoço da família Aliança”, é uma das várias ações que promove o contacto popular. “Temos tido muito apoio na campanha”, conta. “Ainda ontem no Bolhão tivemos uma receção fantástica. Sabe, muitas vezes os políticos não são bem recebidos lá. Nós fomo-lo”.

A conversa vai-se desencadeando aos bochechos. Paulo Sande é recorrentemente solicitado para conversas laterais, para despedidas antecipadas — “temos mesmo de ir andando”, justifica-se uma militante de Santarém — ou, claro, para as selfies. Algo que, reconhece, foi intensificado desde o acidente que sofreu juntamente com Pedro Santana Lopes na quarta-feira, na zona de Leiria. “Sim, as pessoas abordam-me muito mais do que abordavam antes do acidente. Voltei ontem à campanha e já noto isso“. A julgar pela quantidade de apertos de mão que distribui não é difícil de acreditar.

Os assessores têm mil cuidados para com o candidato. “Quer que vá buscar um café?”; “Não quer mais uma bifana?”; “Aqui tem o seu café”; “Se quiser mais uma bifana peça”. Misturado no meio dos militantes, Paulo Sande passa despercebido a um olho mais desatento. Mas é essa naturalidade e essa proximidade “que o partido quer promover”, diz-nos.

A campanha até ao momento “tem sido extraordinária”. Não poupa nas palavras. “Temos tido ações fantásticas, somos sempre bem-recebidos”. Mas as sondagens não espelham isso, com o partido a surgir atrás do PAN e longe da eleição de um eurodeputado. Um dado que não preocupa o candidato, que prefere basear-se no “contacto caloroso” com que garante ter sido brindado nas várias iniciativas do partido para manter a ambição de eleger “dois ou três”.

São as primeiras eleições para o Aliança e não é o único pequeno partido a querer disputar mandatos com os maiores. Para isso, sabem bem para que eleitorado têm de falar. “O nosso maior adversário é a abstenção”, indica Paulo Sande. Mas esse é um adversário de todos os partidos, não é exclusivo do partido de Santana Lopes. Qual é, afinal, o partido que o cabeça-de-lista vê como rival? Na resposta, não esconde a ambição, que parece estar nos píncaros por estes lados: “São o PSD e CDS. É esse eleitorado que queremos disputar”.

Sobre o Iniciativa Liberal ou a coligação Basta, que também disputam as primeiras eleições e que falam para um eleitorado mais de direita, pouco diz. “Queremos disputar um eleitorado de direita e liberal, que está ali entre o CDS e o PSD“, reafirma. Garante que não vê o Iniciativa Liberal como um adversário direto e assume que a estratégia para a coligação Basta passa por ignorar André Ventura, a quem “não se pode responder diretamente porque diz demasiadas banalidades e tem um discurso demagógico”.

A conversa é interrompida por um simpatizante que pede desculpa mas “queria mesmo cumprimentar o candidato”. “Fico muito contente por o ver assim: firme e rijo”. O aperto de mão é longo e vai-se intensificando. “Pois. Mas não abane tanto que senão deixo de estar tão firme e rijo“, retorquiu Paulo Sande enquanto se agarrava à zona lombar.

O acidente deixou algumas mazelas. As duas feridas na mão esquerda comprovam-no. Mas “o susto” já passou. Quanto ao presidente do Aliança, continua a recuperar e são poucas as informações que o staff do partido deixa escapar. “Mas está presente, é como se estivesse aqui em espírito“, garante um militante. Em espírito e, curiosamente, no nome do jardim que acolhe esta festa, que termina instantes depois. O cheiro a bifanas continua enquanto o porco vai dando voltas infinitas no espeto.

Oiça as melhores histórias destas eleições europeias no podcast do Observador Eurovisões, publicado de segunda a sexta-feira até ao dia do voto.

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