Armando Vara

Mentira no Parlamento? PSD não exclui chamar Diogo Gaspar Ferreira de novo à comissão de inquérito

Diogo Gaspar Ferreira disse no Parlamento que não foi ele quem entregou a proposta a Armando Vara. Nova documentação contradiz gestor mas o seu advogado assegura veracidade do testemunho.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

O ex-diretor executivo do empreendimento de luxo Vale de Lobo, Diogo Gaspar Ferreira, poderá ser chamado novamente à comissão de inquérito da Caixa, depois de ter chegado aos deputados documentação que indica que Gaspar Ferreira terá prestado informações falsas sobre quem é que fez chegar à Caixa Geral de Depósitos — e, exatamente, a quem, na estrutura do banco — a proposta para o financiamento que se revelaria ruinoso para o banco público. Afinal, terá sido Gaspar Ferreira a enviar a proposta a Armando Vara, a quem se dirige como “amigo”.

O Observador teve acesso a documentação enviada por Rui Gomes, antigo diretor do departamento de risco da Caixa, que depois de ter, também, participado nos trabalhos desta comissão, encaminhou para a comissão de inquérito um e-mail onde se mostra que é o próprio Diogo Gaspar Ferreira quem se dirige a Armando Vara dizendo:

Caro Dr. Armando Vara,

Tal como combinado com o Rui Horta e Costa, junto enviamos relatório sobre o resort Vale do Lobo.

Estarei ao seu dispor para qualquer esclarecimento.

Um abraço amigo

Em anexo estavam vários documentos, desde a apresentação Powerpoint que foi feita aos bancos até aos ficheiros excel onde aparecem as projeções financeiras e as estimativas de receitas do golfe. Ou seja, trata-se da proposta que, depois, terá sido encaminhada por Armando Vara para outros responsáveis da estrutura. Alexandre Santos, por exemplo, disse nesta comissão de inquérito que tinha recebido um e-mail, em julho, do administrador Armando Vara que tinha à data o pelouro do crédito às empresas com a proposta do negócio. Um administrador a enviar uma proposta de crédito “não era habitual”, disse o antigo diretor comercial da área Sul do banco público.

Na audição a Diogo Gaspar Ferreira, os deputados do PSD e PCP, Duarte Marques e Paulo Sá, respetivamente, estiveram especialmente interessados em conhecer exatamente como é que o projeto de financiamento chegou à Caixa Geral de Depósitos. A deputada Cecília Meireles, do CDS-PP, também insistiu no mesmo tema.

Em resposta a Duarte Marques, do PSD, Gaspar Ferreira indicou que a proposta “terá chegado, imagino eu — à Caixa, não sei se ao dr. Armando Vara — através do dr. Rui Horta e Costa, que era quem fazia os contactos com os bancos”.

Mas, “como disse ao sr. deputado do PCP [Paulo Sá], não sei se o dr. Rui Horta e Costa contactou diretamente o dr. Armando Vara”. Diogo Gaspar Ferreira diz que não tinha de saber “necessariamente” tudo o que o que o outro executivo, o único além do próprio, fazia ou não fazia em termos de contactos. “O que eu sabia é que se houvesse interesse de qualquer um dos bancos, nós, depois, os dois, iríamos à reunião com quem os bancos nos indicassem para falar”.

Agora, se ele enviou para a telefonista da CGD, para o administrador Armando Vara, para o presidente da Caixa Geral de Depósitos, ou para o diretor, eu não lhe sei dizer”, rematou Gaspar Ferreira.

Estas são declarações que contrastam com aquilo que consta no e-mail que foi partilhado com a comissão de inquérito por Rui Gomes, a pedido do mesmo deputado do PSD, Duarte Marques. Chamar novamente o ex-diretor executivo do empreendimento Vale do Lobo é uma das hipóteses em cima da mesa.

“Vamos ponderar o que fazer em relação a Diogo Gaspar Ferreira. A sua mentira na Comissão compromete-o a ele e a Armando Vara”, afirma o deputado Duarte Marques, questionado pelo Observador.

Advogado diz que Gaspar Ferreira não mentiu

Em declarações ao Observador, o advogado de Diogo Gaspar Ferreira rejeita que o seu cliente tenha faltado à verdade durante a audição na CPI da Caixa Geral de Depósitos.

“Ao contrário de outras testemunhas ouvidas pela CPI , o Diogo Gaspar Ferreira só falou porque quis. O facto de ser arguido” na Operação Marquês — processo no qual “os mesmos factos estão a ser analisados” — dava-lhe o direito de recusar falar. Falou porque queria colaborar na descoberta da verdade. Não iria por isso mentir, como não mentiu”, enfatiza João Medeiros.

O advogado da PLMJ é categórico ao afirmar que “não é verdade que os documentos tenham chegado agora à CPI. No âmbito da sua audição, o Diogo Gaspar Ferreira foi especificamente perguntado acerca desse email, o que evidencia que o mesmo já estava na posse da CPI”.

Por outro lado, acrescenta o causídico, “o que o Diogo Gaspar Ferreira referiu é que não foi a primeira pessoa a fazer os contactos com os bancos. Isto é, o Rui Horta e Costa já tinha feito os primeiros contactos, precisamente por ser o investidor do grupo que veio a adquirir o resort de Vale do Lobo que tinha mais experiência de banca.” Porém, continua Medeiros, “Diogo Gaspar Ferreira acrescentou que foi ele quem desenvolveu o projeto de investimento e quem elaborou o dossier de Vale do Lobo para os investidores. Ora, o texto do email corrobora isso mesmo”

“Mais: o envio do dossier para a Caixa Geral de Depósitos terá sido combinada entre o Rui Horta e Costa e o Armando Vara [então administrador da Caixa Geral de Depósitos]”, conclui o advogado da PLMJ.

Já quanto ao momento e as vezes que terá falado com Vara enquanto este era administrador da Caixa, Gaspar Ferreira “mantém que só esteve com o senhor Armando Vara uma vez e na qualidade de dirigente do Sporting e a propósito dos estádios do Euro 2004 — quando o sr. Vara era o ministro da Juventude e do Desporto”, assegura João Medeiros.

Artigo atualizado com as declarações de João Medeiros, advogado de Diogo Gaspar Ferreira, às 15h58m do dia 22 de maio

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