Saúde

Exaustão emocional afeta dois terços dos médicos e é problema “com raízes no sistema de saúde”

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66% dos mais de nove mil médicos inquiridos no estudo mostraram um nível de exaustão emocional. O 'burnout' na classe é a justificação de um problema que não se relaciona com "fragilidades pessoais".

Medicina interna, oncologia, doenças infecciosas, neurologia e hematologia são as especialidades com mais médicos com níveis altos de exaustão emocional

Shidlovski/Getty Images/iStockphoto

Autor
  • Agência Lusa

Dois terços dos médicos manifestam que estão em exaustão emocional, segundo um estudo que vai ser publicado esta semana na Revista da Ordem dos Médicos e que considera o ‘burnout’ na classe como um problema “com raízes no sistema de saúde”.

Mais de nove mil médicos foram inquiridos neste estudo, que foi realizado em 2016 e atualizado em 2017, sendo agora pela primeira vez publicado de forma integral. A amostra analisada representa cerca de 20% dos médicos registados na Ordem.

No estudo, a que a agência Lusa teve acesso, 66% dos médicos mostram um nível de exaustão emocional e 30% referem acentuada diminuição da realização profissional. Quase 40% demonstram níveis elevados de despersonalização, que se caracteriza por atitudes de descrença ou indiferença e que está fortemente associado à síndrome de ‘burnout’.

“Valores tão elevados como os encontrados no presente estudo (…) conduzem desde logo à compreensão do ‘burnout’ como um problema socioprofissional com raízes no sistema de saúde, não podendo ser justificado com base em características individuais relacionadas com fragilidades pessoais”, referem os autores do estudo, encomendado pela Ordem dos Médicos e realizado em parceria com o Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.

Refere-se ainda que os resultados demonstram “o papel dos fatores de natureza organizacional na explicação” das situações de ‘burnout’.

As exigências do trabalho e os recursos organizacionais são vistos pelos médicos como a variável que explica uma maior proporção da exaustão emocional.

“Os melhores preditores de elevados níveis de exaustão emocional são, ao nível organizacional, a perceção de baixos recursos e de elevadas exigências associadas, designadamente, aos horários de trabalho e à relação com os doentes”, indica a análise que vai ser publicada.

O estudo salienta que o bem-estar dos médicos “é importante para o funcionamento do sistema de saúde em geral” e recomenda a intervenção urgente, através de programas dirigidos diretamente à exaustão emocional e à diminuição da realização profissional.

Apesar destas conclusões, os investigadores registaram “níveis muito elevados de envolvimento com o trabalho”, considerando que é um indicador da “adaptação positiva da maioria dos médicos às condições” de trabalho adversas.

O estudo analisou ainda quais as especialidades com mais médicos com níveis altos e baixos de cada um dos indicadores de ‘burnout’: exaustão emocional, despersonalização e diminuição de realização profissional.

Medicina interna, oncologia, doenças infecciosas, neurologia e hematologia são as especialidades com mais médicos com níveis altos de exaustão emocional.

No caso da despersonalização os valores mais elevados encontram-se na cirurgia geral, na hematologia, neurologia, urologia e ortopedia.

As especialidades com mais médicos que sentem redução de realização profissional são a oftalmologia, medicina geral e familiar, doenças infecciosas, psiquiatria, cardiologia e dermatologia.

Os investigadores analisaram ainda quais as especialidades com maiores percentagens de médicos com valores altos em pelo menos dois indicadores e concluíram que a medicina de emergência, a medicina interna, a neurologia e a medicina familiar têm os valores mais elevados.

Os níveis mais baixos verificaram-se na patologia, dermatologia, pediatria geral e medicina preventiva.

‘Burnout’ e violência no setor levam Ordem dos Médicos a criar gabinete de apoio

Para dar apoio aos profissionais, a Ordem decidiu criar um Gabinete de Apoio ao Médico, que deve definir estratégias de prevenção, bem como apoio prático e concreto.

O bastonário da Ordem Miguel Guimarães adianta que vai procurar a colaboração de outras instituições, sendo o Ministério da Saúde a primeira que será convidada. O responsável acrescenta que poderá ser pedida a colaboração a outras ordens profissionais, como a dos Psicólogos, e a unidades de saúde, públicas ou privadas, interessadas em ajudar.

O gabinete será coordenado pelos médicos Nídia Zózimo, João Redondo e Dalila Veiga e depois terá de ser criada uma via de acesso direto e protegida para os médicos que necessitem de ajuda.

Miguel Guimarães recorda que o estudo sobre o ‘burnout’ na classe médica era anonimizado, não se sabendo por isso quem pode precisar de apoio.

A Ordem irá depois anunciar por email aos clínicos de que forma podem aceder ao gabinete. Numa fase inicial, os pedidos de ajuda podem ser feitos diretamente ao bastonário, que remeterá as situações ao novo gabinete.

Além das situações de cansaço extremo – seja físico, mental ou psicossocial -, o Gabinete vai prestar também apoio a casos de violência ou de agressão.

O bastonário recorda que a violência contra profissionais de saúde tem também vindo a crescer.

Mais de 950 casos de incidentes de violência contra profissionais de saúde foram registados só no ano passado, ficando 2018 como aquele em que mais episódios foram notificados. Os dados da Direção-geral da Saúde mostram que, do total dos 4.300 casos acumulados desde 2007, a maioria respeita a assédio moral, mas 17% são mesmo casos de violência verbal e 12% são situações de violência física.

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