Alone again, naturally
É certo que Boris Johnson não é Churchill. E obviamente que Bruxelas não é Berlim do Terceiro Reich, Theresa May não é Neville Chamberlain, nem Philip Hammond é Lord Halifax, pero que las hay, las hay
Homens, mulheres, novos, velhos, brexiteers e remainers. Muitos conservadores estão a espreitar a oportunidade de substituir Theresa May. Conheça aqui os mais prováveis.
Os candidatos têm de entregar as suas candidaturas na semana de 10 a 16 de junho
Getty Images
Foi num discurso emocionado que Theresa May apresentou a demissão de primeira-ministra. “Vou abandonar o cargo que foi a honra da minha vida”, disse, em frente ao número 10 de Downing Street. A líder do Partido Conservador saiu com uma certeza: a de que foi “a segunda primeira-ministra mulher, mas certamente não a última”.
Não se sabe se será para já que o Reino Unido terá uma nova primeira-ministra mulher. Na corrida à liderança dos conservadores, há mulheres e homens. Mas a dúvida não vai demorar muito. May continuará a liderar o partido até 7 de junho. Os candidatos têm de entregar as candidaturas na semana de 10 a 16 de junho. Logo depois, irá iniciar-se a ronda de votações: os candidatos são eliminados um a um, até ficarem só dois, num frente a frente.
O Reino Unido deverá ter um novo primeiro-ministro ainda antes das férias parlamentares. O presidente do partido, Brandon Lewis, e os dois vice-presidentes, Cheryl Gillan e Charles Walker, emitiram um comunicado em conjunto, onde dizem que esperam que “este processo esteja concluído até ao final de junho”, para que “o resultado seja anunciado antes de o Parlamento ir de férias”.

Abandonou o governo em julho do ano passado, em desacordo com a estratégia da primeira-ministra para a saída da União Europeia. Foi, aliás, um dos políticos que fez campanha pela vitória do Brexit no referendo de junho de 2016 e o mais conhecido entre a fação do partido que defende a saída da União Europeia. Boris Johnson era o ministro dos Negócios Estrangeiros de May e um crítico de algumas posições assumidas pela líder no processo de saída da União Europeia, tendo já reagido à sua saída:
Uma declaração muito digna de Theresa May. Obrigado pelo seu serviço estóico ao nosso país e ao Partido Conservador. É agora tempo de seguir os pedidos dela: unirmo-nos e conseguirmos o Brexit.”
Boris é um dos candidatos assumidos. Este mês já tinha anunciado as suas intenções de lutar pelo lugar de May. “Claro que vou”, disse, quando foi questionado por um jornalista da BBC. Mas, primeiro, teria de ter o apoio parlamentar suficiente. O ex-jornalista e ex-presidente da câmara de Londres, de 54 anos, é o grande favorito a liderar o Partido Conservador. O Financial Times diz mesmo que, se Boris Johnson conseguir chegar ao frente a frente, é provável que ganhe. Mas, mesmo assim, tem um problema a ultrapassar: é uma figura que provoca muitos ódios entre os conservadores.
Conhecido pela sua desarrumada cabeleira loura e por andar furiosamente de bicicleta por Londres, tem uma vida pessoal conturbada, com vários escândalos que envolveram amantes e um casamento precário.

Andrea Leadsom, 56 anos, demitiu-se de líder do Governo na passada quarta-feira, para não ter de estabelecer um calendário legislativo com que não concordava e por considerar que o governo tinha atingido “um esgotamento”. A sua saída contribuiu para a pressionar May, que viria a demitir-se apenas dois dias depois.
Grande defensora do Brexit, já reagiu à decisão da ainda primeira-ministra, falando num “discurso muito digno”. “Uma ilustração do seu total compromisso com o seu país e o dever. Ela fez o seu melhor e desejo-lhe tudo de bom”, disse.
Concorreu à liderança do partido em 2016. Andrea Leadsom e May foram as últimas candidatas da corrida, mas a primeira perdeu significativamente para a segunda. O seu nome tornou-se mais conhecido quando era secretária de Estado da Energia e começou a defender fervorosamente a saída do Reino Unido da UE.

“Nunca se diz nunca”. Foi assim que Dominic Raab respondeu quando questionado sobre se iria candidatar-se à liderança do partido. Aos 45 anos, o antigo advogado especialista em Direito Internacional é considerado sangue novo.
Em julho, foi nomeado nomeado ministro para o Brexit — é um eurocético e, em 2016, fez campanha pelo “sim” no referendo. Dominic Raab acabaria por se demitir quatro meses depois, em desacordo com Theresa May.
Também já reagiu à demissão da ainda primeira-ministra. “Digna como sempre, Theresa May demonstrou a sua integridade. Ela permanece uma servidora pública dedicada, uma patriota e uma conservadora leal”, escreveu no Twitter.

Era o braço direito de Boris Johnson e apoiou-o na campanha do referendo sobre o Brexit. Mas virou-lhe as costas quando, em 2016, quis concorrer à liderança do partido. Michael Gove ficou para sempre com a reputação de traidor. Pouco depois, foi eliminado na ronda de votações.
Tem 51 anos e é o atual ministro do Ambiente de May — e um grande defensor do fim dos plásticos descartáveis.

É anti-Brexit — uma posição que a pode vir a prejudicar, se for a votos (e se, primeiro, apresentar a sua candidatura). De 55 anos, esta antiga jornalista apoiou May na sua subida a líder do partido e já liderou ela mesma dois ministérios: o do Interior e depois o do Trabalho. Em 2015, foi eleita “Ministra do Ano em 2015” pela revista conservadora The Spectator (que em tempos foi dirigida por Boris Johnson).
Na sequência do ataque em Manchester, Amber Rudd foi uma das visadas pelas críticas de Jeremy Corbyn, que acusou o Governo conservador de ter demitido cerca de 20 mil polícias — algo desmentido por Theresa May, mas que ficará sempre associado a Rudd.

Era o ministro para o Brexit antes de Dominic Raab ter assumido essa pasta. Considerado o eterno candidato a líder dos conservadores, é há muito um defensor convicto do Brexit. Tem 70 anos.
Em outubro, convocou ministros para organizar um motim contra Theresa May e acabar com o seu plano para o Brexit. “Esta é uma das decisões mais fundamentais que o governo tomou nos tempos modernos. Está na hora de o Governo exercer sua autoridade coletiva”, escreveu na altura, no The Sunday Times.

Tem 49 anos e é há pouco tempo o ministro do Interior de May — cargo que começou a ocupar no ano passado. Assumiu-se contra o Brexit durante o referendo e continua a sê-lo.
Antigo banqueiro e filho de um motorista paquistanês, Sajid Javid ficou conhecido depois de ter gerido, em 2018, o escândalo “Windrush”, quando se descobriu que algumas pessoas das Caraíbas, que viviam no Reino Unido há décadas, estavam a ver recusados tratamentos médicos ou ameaçados de deportação.

Ocupou o cargo de ministra do Trabalho e das Pensões, mas em novembro do ano passado apresentou a sua carta de demissão a Theresa May, deixando claro que considerava que o acordo proposto pela primeira-ministra não honrava “o resultado do referendo”.
McVey, 51 anos, terá sido uma das críticas mais ferozes do acordo no Conselho de Ministros, tendo inclusivamente proposto que fosse votado pelos ministros duas vezes no meio da discussão. Já anunciu formalmente a sua candidatura.

No início de maio, Rory Stewart confessou ao jornal The Guardian o seu desejo de liderar os conservadores e o país. Foi, aliás, o primeiro dos ministros a revelar em público que gostaria de assumir a liderança do Governo. Tem 46 anos.

É o atual ministro dos Negócios Estrangeiros e já anunciou a sua candidatura esta sexta-feira. Jeremy Hunt tem 52 anos e mudou de opinião quanto ao Brexit. Primeiro, defendeu que o Reino Unido devia ficar, mas depois mudou de ideias por considerar que Bruxelas teve uma postura “arrogante” nas negociações.
O ex-empresário fala fluentemente japonês e é conhecido por não ter medo de desafios: geriu o Serviço Nacional de Saúde, durante seis anos e em plena crise.
[Veja no vídeo como o Brexit atravessou a vida de May. Três anos da primeira-ministra em três minutos]
(Atualizado às 15h para acrescentar a informação de que Esther McVey já tinha anunciado publicamente a sua candidatura)
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