O que aconteceu no dia 22 de maio no Evereste?

O dia 22 de maio será uma quarta-feira que ficará para a história do Evereste, mas não pelos melhores motivos. Se, por um lado, foi batido um recorde que já há meses se vinha antecipando — o maior número de subidas ao pico mais alto do mundo, com mais de 200 pessoas a conseguir alcançar o topo da montanha —, esse recorde esteve na origem de um dos dias mais fatais na montanha nepalesa.

Originou-se um enorme engarrafamento no estreito acesso ao cume, com duas centenas de pessoas paradas a uma altitude de mais de 8 mil metros, com reservas de oxigénio limitadas, situação que provocou a morte a pelo menos sete montanhistas.

O norte-americano Donald Lynn Cash (55 anos) e a indiana Anjali Kulkarni (55 anos) morreram ao descer a montanha após terem alcançado o cume. O irlandês Kevin Hymes (56 anos), morreu quando descia mesmo antes de ter conseguido alcançar o topo. Antes, o governo nepalês tinha anunciado também a morte dos indianos Kalpana Das (52 anos), Nihal Bagwan (27 anos) e Dhurba Bista (33 anos). Na rota tibetana, onde habitualmente passam menos alpinistas do que na nepalesa, morreu um homem austríaco de 65 anos.

O engarrafamento ficou registado numa fotografia que seguramente se tornará icónica. Foi tirada pelo alpinista nepalês Nirmal Purja — antigo soldado da Marinha Real Britânica —, que naquele dia se viu obrigado a intervir para evitar um desastre ainda maior: qual “polícia sinaleiro”, organizou subidas e descidas para garantir que os presentes conseguiam aceder em segurança ao cume da montanha.

A história do nepalês que fez a fotografia do engarrafamento fatal no Evereste

Mas uma situação como a que se viveu na semana passada já se vinha antecipando, com sucessivos relatos de cada vez mais turistas que tentam todos os anos subir o Evereste. O facto de este ano a (já de si pequena) janela temporal que permite as subidas em segurança ter sido muito curta obrigou as empresas que exploram a escalada a concentrarem as explorações em poucos dias.

Porque é que há cada vez mais pessoas no topo do Evereste?

Para subir ao cume do Evereste é preciso obter uma licença emitida pelo governo do Nepal que custa 11 mil dólares (cerca de 9.800 euros). A emissão de licenças de acesso ao Evereste é, aliás, uma importante fonte de receita do país, um dos mais pobres do mundo, que obtém uma receita de cerca de 300 milhões de dólares todos os anos apenas com a indústria da escalada aos Himalaias. Por isso, o país não limita o número de licenças que emite nem controla o calendário das expedições.

Esta tarefa fica nas mãos dos operadores turísticos, das empresas que proliferam na região e dos guias locais. A evolução dos instrumentos de escalada e a perspetiva de uma boa oportunidade de negócio levou à transformação gradual do próprio conceito da escalada do Evereste.

Três alpinistas morreram ao tentar escalar o Monte Everest

Hoje, já não são apenas os montanhistas mais experimentados que sobem à montanha mais alta do mundo. Abundam as empresas turísticas que prometem uma escalada em segurança a visitantes de todo o mundo sem que seja devidamente ponderada a preparação física dos montanhistas. Já nem é preciso, como dantes, levar grande parte do material às costas. Comprando o pacote certo, é possível ter à disposição não só a maioria do equipamento e das comodidades nos acampamentos ao longo do percurso, como também há quem transporte (os sherpas) o equipamento pessoal pelo turista. Tudo, claro, pago ao peso do ouro.

Mas não é possível subir ao Evereste durante todo o ano. A altura ideal é habitualmente uma pequena janela temporal entre o final de abril e o início de maio, altura para a qual todas as empresas turísticas agendam as expedições — o que provoca uma acumulação considerável de turistas inexperientes na rota de escalada da montanha.

O que é preciso para subir o Evereste?

Quem se aventura numa escalada do Evereste fica dependente, sobretudo, da empresa de expedição que escolher. O governo nepalês cobra a licença individual, que custa 11 mil dólares, e exige uma cópia do passaporte, informações biográficas e um certificado que mostre condições de saúde mínimas. Mas os outros requisitos dependem essencialmente do operador turístico.

Há empresas que exigem experiência de montanhismo, outras que exigem que o interessado já tenha subido a um pico com mais de 6 ou 7 mil metros de altitude, entre outros requisitos. A maioria das empresas dependem da ajuda dos sherpas, etnia que habita a região montanhosa do Nepal e que melhor conhece os trilhos e as técnicas.

Em 2016, na sequência de sucessivos acidentes com montanhistas amadores, o Nepal colocou em cima da mesa a possibilidade de aumentar as restrições a quem quer subir a montanha. Como explicava o The Himalayan Times, jornal de língua inglesa de maior tiragem no país, entre as potenciais mudanças encontravam-se a obrigatoriedade de todos os montanhistas serem acompanhados por guias, a atribuição de certificados aos sherpas qualificados a acompanhar os turistas, a restrição da escalada a maiores de 75 anos, cegos ou amputados, e a obrigatoriedade de já ter escalado um pico com 7 mil metros para obter a licença para os 8 mil metros.

Quantas pessoas já morreram a tentar chegar ao topo?

Desde que, em 1953, o montanhista neozelandês Edmund Hillary e o sherpa Tenzing Norgay conquistaram o pico do Evereste pela primeira vez, estima-se que cinco mil pessoas já tenham subido ao cume da montanha e que mais de 300 tenham morrido a tentar, de acordo com uma estatística recente publicada pela Reuters.

Para encontrar um ano sem mortes no Evereste é preciso recuar até 1977, ano em que apenas foram registadas duas subidas ao pico do Evereste e zero mortes. A partir do final da década de 80, o número de registos no cume deixou de andar à volta de uma dezena e começou a crescer até às cerca de três centenas anuais dos dias de hoje.

Temporada de escalada ao Evereste termina com maior número de mortes desde 2015

A temporada de 2019 registou 11 mortes (das quais pelo menos sete estão relacionadas com a enorme afluência no dia 22 de maio), tendo sido a época com maior número de mortes desde 2015.

A maioria das mortes ocorreram na chamada “zona da morte”, situada a partir do quarto acampamento permanente (a 7.920 metros de altitude). A partir dali, a escassez de oxigénio e a pressão do ar podem desorientar os montanhistas, que são obrigados a recorrer a oxigénio engarrafado — e as condições são de tal forma extremas que um montanhista não pode estar mais de três dias no Campo IV. Se após esse tempo não houver condições para continuar a subida, os alpinistas são obrigados a regressar a altitudes inferiores.

Que consequências tem o excesso de turistas para a montanha?

Além das trágicas mortes que têm marcado todas as temporadas de escalada no Evereste, o excesso de turistas está a ter consequências dramáticas também para a própria montanha. No início do mês, o governo do Nepal lançou uma campanha com o objetivo de limpar o Evereste. Em duas semanas, 14 voluntários recolheram três mil quilos de lixo — e o objetivo assumido inicialmente era recolher 10 toneladas em 45 dias.

Evereste. A montanha mais alta do mundo está cheia de lixo e até cadáveres. Uma equipa propôs-se a limpá-la

Botijas de oxigénio vazias, plástico, material de escalada abandonado. A quantidade de lixo que polui atualmente o Evereste é preocupante para as autoridades nepalesas, que tentam combater o impacto quer do lixo quer dos dejectos no ecossistema da montanha. Um dos projectos passa pela recolha das fezes humanas encontradas no percurso (que não se decompõem a temperaturas abaixo de zero) e usá-las num mecanismo de produção de biogás que poderá fornecer energia às comunidades locais.

Falta de gelo no Evereste mostra cadáveres de alpinistas desaparecidos

Também a falta de gelo em algumas partes do Evereste, nomeadamente devido ao degelo provocado pelas alterações climáticas, tem vindo a expor muito lixo acumulado ao longo dos anos e que tinha sido coberto pelas camadas de gelo. Este processo de degelo tem feito aparecer também vários corpos de pessoas que morreram a tentar escalar o Evereste e que nunca tinham sido encontrados.

O que é que o Governo do Nepal vai fazer?

Atualmente, apesar de o Governo do Nepal exigir um certificado que prove as condições de saúde mínimas, os responsáveis governamentais não têm capacidade para comprovar a veracidade dos certificados nem efetuam testes físicos. Porém, isso poderá mudar devido aos acidentes deste ano. De acordo com vários responsáveis ouvidos pelo The New York Times, tudo indica que haverá novas leis, mais estritas, para a próxima temporada de escalada.

Estamos a discutir a reforma de vários assuntos, incluindo a determinação de critérios para todos os candidatos a subir o Evereste“, disse ao jornal norte-americano uma responsável do departamento governamental que supervisiona o turismo, Mira Acharya. Numa reunião recente daquele organismo, foi discutida “a questão dos montanhistas inexperientes”, explicou a mesma responsável.

Outra questão que deverá ser discutida em breve é a certificação dos guias locais, os sherpas, que ajudam os turistas a subir o Evereste. Os guias locais não têm atualmente qualquer tipo de certificação governamental e é praticamente impossível, para um turista, distinguir um guia mais qualificado de um menos experiente.