Uma equipa de investigadores francesa detetou uma associação entre o consumo de bebidas açucaradas e o risco de desenvolver cancro — ou seja, quando um aumenta, o outro também aumenta. Mas como a própria equipa refere não é possível afirmar que essas bebidas sejam a causa dos cancros detetados e não foi possível descartar todos os fatores que pudessem gerar confusão nos dados obtidos. Os resultados foram publicados, esta quarta-feira, na revista científica The BMJ.

“Apesar de este artigo mostrar uma possível associação entre o consumo de bebidas açucaradas e o risco de cancro, há tantas ressalvas para este tipo de estudos que os resultados devem ser visto apenas como interessantes e geradores de hipóteses, e não como algo significativo para estabelecer a ligação real, como os próprios autores admitem”, alerta Nikolai Petrovsky, professor na Faculdade de Medicina e Saúde Pública na Universidade de Flinders (Austrália), num comentário ao artigo. Para o professor, achar que reduzir o consumo de bebidas açucaradas pode diminuir a incidência de cancro é esticar demasiado as conclusões possíveis com os dados disponíveis.

Mas nem todos os especialistas têm uma visão tão conservadora. “O açúcar deve ser tratado como o álcool e o tabaco”, afirma Lennert Veerman, professor na Faculdade de Medicina da Universidade de Griffith (Austrália). O professor considera que não é possível diminuir o consumo de açúcar com uma campanha de informação, antes que se devem taxar os produtos e restringir a publicidade para se poderem ter efeitos reais na saúde. “E muito provavelmente também serão bons para a economia: uma população saudável é uma população mais produtiva.”

Neste trabalho, os investigadores verificaram que o aumento do risco tanto estava associado ao consumo de sumos 100% fruta sem adição de açúcar como ao consumo de outras bebidas açucaradas, como refrigerantes, bebidas energéticas, bebidas à base de leite ou bebidas quentes com açúcar. Pelo contrário, não encontraram associação entre o consumo de refrigerantes com adoçantes e o aumento do risco de cancro, o que não quer dizer que estas bebidas não estejam associadas a outras questões de saúde, como problemas metabólicos. Estar associado significa que acontecem em paralelo, mas não necessariamente que um evento seja a causa do outro.

Destes resultados, Nikolai Petrovsky destaca um ponto que considera menos explorado: os sumos naturais, promovidos como uma opção mais saudável aos refrigerantes, têm muitas vezes uma maior quantidade de açúcares, ainda que não tenham açúcar adicionado. “A população continua enganada a pensar que ‘natural’ automaticamente significa ‘mais saudável’, o que simplesmente não é o caso.”

Apesar da equipa não ter conseguido demonstrar que o consumo de bebidas doces aumenta o risco de cancro e de que forma isso acontece, há um mecanismo que pode ser considerado: o consumo de açúcar está associado à obesidade e a obesidade é um fator de risco para o aparecimento de cancro. Além disso, a ingestão de açúcares pode afetar a gordura visceral (à volta dos órgãos) e aumentar a resistência à insulina, que são outros fatores de risco para o aparecimento de cancro.

“A justificação mais plausível pode ser que o consumo de bebidas açucaradas seja só um marcador [indicador] de alguém com uma dieta pobre em geral e que esta dieta pobre seja o que está de facto a aumentar o risco de cancro”, diz Nikolai Petrovsky.

O estudo contou com a participação de 101.257 pessoas, todas elas com mais de 18 anos, que foram recrutadas por uma plataforma online. Esta forma de recrutamento é uma das limitações do estudo, porque os participantes não são necessariamente representativos da população. Por exemplo, as mulheres compõe 78% dos pessoas no estudo. No entanto, a equipa considera que os resultados poderiam ser ainda mais expressivos se o estudo incluísse mais pessoas com um nível sócio-económico e educativo mais baixo.

Uma das limitações mais relevante identificada pelos investigadores é que o cancro pode demorar vários anos a desenvolver-se até que seja detetado. Apesar de os participantes terem sido seguidos ao longo de nove anos, os comportamentos anteriores a este período podem justificar o aparecimento de cancro durante o tempo em que estavam a ser observados. Além disso, não foi possível a equipa descartar todos os outros fatores que poderiam influenciar e confundir os resultados obtidos.

Uma das formas de verificar se as bebidas açucaradas podem realmente estar associadas ao aparecimento de cancro é, por exemplo, observar se o risco diminui nas pessoas que substituem estas bebidas por água.