O fogo arde há mais de 48 horas no concelho de Vila de Rei, tendo propagado a Mação já no distrito de Santarém. É até agora o maior incêndio do ano com uma área ardida total, segundo os dados do sistema de proteção europeu, de mais de 8.500 hectares. Tudo começou no sábado no distrito de Castelo Branco onde deflagraram dois fogos, um no município de Vila de Rei, outro na Sertã. Ambos obrigaram à mobilização imediata de mais de 400 operacionais e 17 meios aéreos. Num ápice estradas foram cortadas e a aldeia de Cardiga Fundeira evacuada. Era o começo de dias dominados por fogos que rapidamente trouxeram à memória a tragédia de Pedrógão Grande.

As zonas onde começaram os primeiros incêndios ficam relativamente próximas umas das outras, já que a povoação de Rolã, no município da Sertã, dista cerca de seis quilómetros em linha reta de Fundada, em Vila de Rei, concelho localizado a sul e vizinho do da Sertã.

O incêndio de Vila de Rei chegou a Mação, no distrito de Santarém, por volta das 20h de sábado. Os fogos da Sertã foram dados como dominados no domingo de manhã, pelas 09h, apesar de terem ocorrido alguns reacendimentos durante a tarde. À hora em que este artigo foi escrito, o incêndio na localidade de Fundada, em Vila de Rei, continuava a ser o mais preocupante e mobilizava mais de 1.000 operacionais e 347 viaturas.

Esta é a cronologia dos incêndios que lavraram em Portugal nas últimas 57 horas, resultando em mais de 8.500 hectares ardidos. 

Sábado, 20 de julho

Às 14.50 a Página da Proteção Civil regista o início do incêndio num povoamento florestal na Fundada, concelho de Vila de Rei.

Por volta das 16h00 a praia fluvial do Bostelim, em Vila de Rei, é evacuada por precaução, devido à presença de várias autocaravanas, mas também por causa do fumo sentido.

A estrada nacional 2 (EN2), entre Vila de Rei e Sertã, nas proximidades da Cumeada, é cortada ao trânsito devido ao incêndio.

Perto das 18h uma viatura dos bombeiros de Cernache do Bonjardim colide contra um ligeiro. Do acidente resultam dois feridos leves, ambos bombeiros, que são posteriormente assistidos no Serviço de Atendimento Permanente da Sertã.

Pelas 19h o parque de campismo da praia do Bostelim, no concelho de Vila de Rei, é evacuado por precaução, com cerca de 70 pessoas a serem retiradas do local.

Durante a tarde três aldeias estão em risco no concelho de Vila de Rei: Monte Novo, Cabeça do Poço e Chão da Telha;

Pelas 20h a Proteção Civil dá conta que um bombeiro ficou ferido com gravidade durante o combate às chamas. Outros três bombeiros registam ferimentos leves.

 A aldeia de Cardiga é parcialmente evacuada ao final do dia.

Por volta das 20h o incêndio de Vila de Rei chega a Mação, no distrito de Santarém. O responsável pela proteção civil de Mação, António Louro, explica que a frente de fogo que atinge o concelho de Vila de Rei entrou “com bastante violência” no concelho de Mação, sendo esta uma frente com oito quilómetros.

 “Parar o incêndio é de todo impossível nesta fase”, diz à Lusa Paulo César, em declarações às 19h45 de sábado, cerca de cinco horas depois de as chamas terem começado na freguesia de Fundada, em Vila de Rei, no norte do concelho, perto da fronteira com o município da Sertã.

Às 21h não há feridos civis a registar, apesar de as chamas terem “passado” por várias aldeias, tendo-as colocado “em perigo”, afirma Paulo César, vice-presidente da Câmara Municipal de Vila de Rei.

Perto das 22h o autarca de Mação, Vasco Estrela, diz que se prevê “uma noite de muito trabalho e muito perigo para as pessoas”.

Na noite de sábado as Forças Armadas anunciam o destacamento de 20 militares (15 do Exército e 5 da Força Aérea) e quatro máquinas de rasto (três do Exército e uma da Força Aérea) para apoiarem na abertura de caminhos para facilitarem o acesso dos operacionais no combatem ao fogo.

Pelas 23h o presidente da União de Freguesias de Cernache do Bonjardim, Nesperal e Palhais confirma que deflagraram três incêndios “à mesma hora” naquela autarquia do município da Sertã.

Através de um comunicado de imprensa divulgado no site da Presidência da República, Marcelo Rebelo de Sousa admite estar a acompanhar os incêndios “com preocupação”.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Domingo, 21 de julho

Na madrugada de domingo há a registar sete operacionais com ferimentos leves, três dos quais feridos num acidente entre duas viaturas de bombeiros, e ainda um civil com queimaduras graves, transportado de helicóptero para Lisboa.

Também na madrugada, a Proteção Civil afirma acreditar que os incêndios estariam dominados entre as 06h e as 07h da manhã.

Questionado sobre se a rede SIRESP funcionou durante as operações, o Comandante Luís Belo Costa responde que “nos momentos de maior tráfego não falhou” e que foi utilizado “com toda a normalidade”.

Na manhã de domingo os dois fogos da Sertã são dados como dominados (o fogo em Mosteiro de São Tiago, Várzea dos Cavaleiros, é dado como dominado às 4h25 e o da Rolã 20 minutos depois) e o de Vila Real, ainda no distrito de Castelo Branco, chega a Mação durante a noite (pelas 20h), no distrito de Santarém.

Durante a manhã as Forças Armadas estão no terreno com máquinas de rastos, mas também a prestar auxílio aos bombeiros com o fornecimento de refeições. Não há registos de falhas de comunicação do sistema SIRESP e não há registo de habitações destruídas.

Ainda na manhã, Marcelo Rebelo de Sousa volta a dirigir-se às pessoas afetadas pelos fogos, transmitindo, através do site da Presidência da República, “toda a solidariedade aos homens e mulheres” envolvidos no combate aos incêndios no distrito de Castelo Branco e às populações atingidas.

As Forças Armadas deslocam, para Vila de Rei, uma cozinha de campanha do Exército e géneros alimentares para assegurar a refeição a pelo menos 600 pessoas.

Pelas 11h de domingo o fogo que começou em Vila de Rei já percorreu 32 km.

Eduardo Cabrita, Ministro da Administração Interna, fala em suspeitas de fogo posto, referindo-se aos incêndios que ainda lavram na zona de Vila do Rei.

Ao começo da tarde de domingo contam-se 20 feridos, incluindo 8 bombeiros e 12 civis.

O Presidente da República visita na tarde de domingo o civil ferido no incêndio de Vila de Rei que se encontra no Hospital de São José, em Lisboa.

Durante a tarde a situação agrava-se em Vila de Rei, com registo de aldeias cercadas pelas chamas.

O fogo na Sertã reacende durante a tarde depois de ter sido dominado na madrugada. Os fogos no distrito de Castelo Branco mobilizam mais de mil bombeiros e 15 meios aéreos.

A praia fluvial de Cardigos, em Mação, é evacuada devido à aproximação das chamas. Quinze aldeias das 23 existentes na freguesia de Cardigos, Mação, chegam a estar em perigo devido às chamas.

Ao final da tarde o fumo dos fogos em Portugal, juntamente com um anticiclone, criavam uma “nuvem” que cobria a Extremadura espanhola.

A Altice estima que tenham ardido cerca de 20 mil metros de cabo de fibra ótica.

Pelas 19h Marcelo Rebelo de Sousa volta a falar, defendendo que “haverá tempo para fazer balanços e comparações e tirar lições” sobre os incêndios deste fim-de-semana. À data, contam-se 1300 operacionais, 386 meios terrestres e 17 meios aéreos no combate aos incêndios.

Ecos dos incêndios em Portugal chegam lá fora: a BBC fala em “fogos selvagens” em Portugal.

Ao início da noite a Polícia Judiciária garante estar a investigar os artefactos incendiários que foram encontrados em várias zonas do concelho de Vila de Rei, em Castelo Branco.

Pela mesma hora, o comandante operacional da Proteção Civil Luís Belo Costa avança que há “registo de habitações que foram atingidas pelas chamas”, sem adiantar um número.

Até ao começo da noite 30 pessoas tinham sido assistidas pelo INEM e nove precisaram de ser hospitalizadas. Dos nove feridos, um apresentava ferimentos graves.

Às 23h, o incêndio em Mação está “muito longe de estar controlado”, segundo o presidente da respetiva Câmara Municipal, Vasco Estrela. A Proteção Civil monta um posto de comando em Mação.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Segunda-feira, 22 de julho

Já na madrugada de segunda-feira o número de feridos volta a subir, com o registo de mais uma pessoa com ferimentos leves, um civil, e nove a serem assistidas pelo INEM.

Às 08h, as frentes de Vila de Rei e Mação estão dominadas a 90%. Ainda assim, o comandante da Proteção Civil afirma: “Vamos ter um dia muito difícil pela frente“. Pelas 11h registam-se novos reacendimentos na frente de Mação, onde chamas destruíram duas casas de primeira habitação ao início da tarde.

Em declarações aos jornalistas, vice-presidente da Câmara de Vila de Rei acusa o Estado de voltar a falhar.

Durante a tarde um bombeiro fica ferido num reacendimento em Casais de São Bento, no concelho de Mação.

Três helicópteros Kamov que estavam parados são autorizados a voar pelas 17h. Não muito depois é notícia que Espanha manda dois aviões a pedido de Portugal para o fogo de Vila de Rei. Portugal pede assistência bilateral a Espanha no quadro do protocolo sobre cooperação técnica e assistência mútua em matéria de Proteção Civil.

Numa breve declaração aos jornalistas, António Costa assegura ter “grande confiança” em todos os profissionais envolvidos no combate aos incêndios, bombeiros e militares das Forças Armadas incluídos.

O Governo anuncia que os serviços do Ministério da Agricultura, Florestas e Desenvolvimento Rural já estão nas zonas atingidas pelos incêndios nos distritos de Castelo Branco e Santarém, para fazer o levantamento dos prejuízos sofridos em explorações agrícolas.

Já durante a noite de segunda a Proteção Civil comunica, em conferência de imprensa, que toda a área do município de Vila de Rei atingida pelo incêndio está em resolução, numa fase de rescaldo. No município de Mação, também ele afetado pelo fogo, 70% da área afetada está em fase de rescaldo.

Segundo dados do sistema europeu EFFIS, desde sábado arderam mais de 8.500 hectares.

No último briefing feito pela Proteção Civil confirma-se um total de 39 vítimas assistidas, com 15 feridos ligeiros e um ferido grave. Dos feridos totais, cinco são civis. Durante a tarde foram assistidos quatro feridos ligeiros (três bombeiros e um GIPS).