“Onde Está Você, João Gilberto?”

Obcecado por João Gilberto, o recentemente falecido pai da Bossa Nova, o jornalista alemão Marc Fischer tentou durante anos chegar à fala com ele, sem sucesso. O seu livro Ho-ba-la-lá: À Procura de João Gilberto, saiu em 2011, poucos dias após a morte de Fischer (que se terá suicidado). O realizador franco-suíço Georges Gachot, autor de vários documentários sobre música e músicos brasileiros, leu-o, ficou fascinado pela história de Fischer e fez sua a obsessão dele por João Gilberto, indo, em 2017, seguir-lhe os passos, no Rio de Janeiro e em Diamantina. À falta do genial e lendariamente excêntrico, esquivo e semi-recluso cantor e compositor, “Onde Está Você, João Gilberto?” vive das conversas de Gachot com pessoas como Rachel Balassiano, que foi a devotada intérprete e assistente de Fischer, a ex-mulher de João Gilberto, Miúcha, os músicos João Donato, Roberto Menescal ou Marcos Valle (que à altura da rodagem do filme não o viam há entre 15 e 50 anos, ou só falaram com ele ao telefone uma vez durante horas), ou ainda o barbeiro que lhe ia cortar o cabelo a casa. Muito curioso, mesmo que a espaços repetitivo, “Onde Está Você, João Gilberto?” termina com uma insólita cena no célebre Hotel Copacabana Palace, que terá deixado a alma de Marc Fischer finalmente em repouso.

“Um Segredo de Família”

Autor, entre outros, do negro “Abutres” (2010) ou do tremendo “O Clã” (2015), o argentino Pablo Trapero volta a explorar neste filme um dos seus temas favoritos, o da célula familiar enquanto miniatura da sociedade humana e das relações, paixões, traições e conflitos entre os seus membros. Por doença do pai, Eugenia (Bérénice Bejo), volta de Paris, onde vive com o marido, à luxuosa propriedade familiar, reencontrando a irmã solteira, Mia (Martina Gusman) e a tirânica mãe, Esmeralda (a magnífica veterana Graciela Borges, que vimos em “O Pântano”, de Lucrecia Martel). Trapero instala um clima crescentemente tenso, incómodo e intrigante, alimentado pelas ligações sexuais promíscuas e adúlteras das duas irmãs com os homens próximos delas, verdadeiros piões das nicas nas suas mãos, embora “Um Segredo de Família” acabe por ter uma dimensão demasiado telenovelesca. E as revelações finais das cumplicidades entre os membros mais velhos da família com a ditadura militar argentina parecem existir menos para resolver o enredo, do que para introduzir uma referência à mesma no filme e desta forma pôr-lhe uma mochila política como que por obrigação “militante”.

“Velocidade Furiosa: Hobbs & Shaw”

Tendo em conta os lucros das fitas com Dwayne “The Rock” Johnson e de Jason Statham, bem como da série “Velocidade Furiosa” em que ambos participam, era apenas uma questão de tempo até que Hollywood, e os seus novos parceiros chineses, fizessem um filme que os emparelhasse numa aventura só para eles. Ele aí está, chama-se “Velocidade Furiosa: Hobbs & Shaw”, é realizado por David Leitch (“Deadpool 2”), e é um “spinoff” daquela saga de ação criada no início deste século (e cujo nono título já se encontra em andamento). Dwayne Johnson e Jason Statham interpretam as mesmas personagens, respetivamente o agente governamental Luke Hobbs e o antigo mercenário Deckard Shaw, repetindo também o número de não se poderem ver um ao outro nem pintados. O duo vai enfrentar uma organização secreta poderosíssima e “high tech” que ameaça a humanidade, e um inimigo comum: Brixton Lore (Idris Elba), um antigo membro das forças especiais inglesas que se tinha passado para o lado dos vilões e Shaw tinha supostamente eliminado. Lore é agora parte humano, parte super-herói, por estar cibernética e geneticamente modificado. “Velocidade Furiosa: Hobbs & Shaw” foi escolhido como filme da semana pelo Observador, e pode ler a crítica aqui.