Título: Lanny
Autor: Max Porter
Editora: Elsinore
Páginas: 208
Preço: 16,99€

Max Porter (n.1981, Reino Unido), autor do singular O Luto é a Coisa Com Penas (Elsinore), merece ser lido com especial atenção. A estranheza na prosa e na estrutura dos seus livros separam-no do expectável. Se O Luto É a Coisa Com Penas rompe com a definição de romance, Lanny vai ainda mais longe. Porter revoluciona a própria organização textual para demonstrar existências concomitantes em determinado microcosmo. Tudo acontece num turbilhão vivencial corajosamente registado pelo autor inglês.

A mancha gráfica solta-se da linearidade e oferece simultaneidade de vozes, tempos e sentimentos difíceis de concretizar quando presa a asseios canónicos.

Porter movimenta as suas personagens na ténue fronteira entre vida e morte, entre imaginação e realidade, entre mitos e factos. Ténue, ou inexistente. O ambiente onírico contextualiza a história de uma aldeia inglesa, a cerca de 30 minutos de Londres, onde vivem Lanny e os seus pais.

A aldeia é igual a tantas outras, com pub, igreja, lojas e casas de tijolo vermelho. É habitada por gente desligada de gerações anteriores e da história de onde vivem. Mas há uma entidade que vagueia todo o tempo, juntando passado e pretérito. Trata-se do Falecido Papá Dentilária. Ele esteve presente quando monges foram executados e bruxas afogadas; viu levantar vedações, cair muros, escrever leis iníquas e viu a terra condenada por químicos; testemunhou a chacina industrial de animais, homens em agressão mútua, pessoas a fazer mal a si mesmas e aos mais próximos. Esteve adormecido, acordou com “tanta sede por causa de toda a adorável decomposição a que assiste e de todos os insuportáveis disparates lírico-práticos do quotidiano destas gentes”. Com sede e com distinto interesse por Lanny.

“O Falecido Papá Dentilária mastiga o ruído daquele lugar e espera pelo seu sabor preferido, que ainda não o alcançou, (…) e depois ouve-o, distinto e verdadeiro, o som encantador do seu predileto. O rapaz.”

Porter regista propriedades de plantas e animais, mistura-as como um químico num laboratório, e cria novas figuras. O corvo de O Luto é a Coisa Com Penas dá lugar a esta figura metamorfa, a esta visão anglo-saxónica do “bicho-papão”.

A natureza cambiante do Falecido Papá Dentilária advém de uma planta plumbaginácea. A dentilária é uma planta parasitária que se imiscui nas raízes de outras plantas até quase se tornarem um só organismo. A falta de clorofila faz com que se alimente de outras plantas. É também conhecida por erva-das-feridas. O Falecido Papá Dentilária tem a natureza parasitária da planta e características ficcionais: ele é uma ideia com corpo vegetal em confronto com a modernidade de cimento. Ele sobrevive na floresta, mas também nas histórias contadas e nas réstias do folclore local.

A sua existência, tal qual as suas raízes, estão de tal modo entrelaçadas em diferentes gerações que se perdeu a noção do real ou irreal. Ele é o “historiador local, peneira de húmus cultural há setenta e quatro gerações”.

A sua natureza será essencial no desenvolvimento de Lanny assim como o corvo foi essencial no desenvolvimento de O Luto É a Coisa com Penas.

O Falecido Papá Dentilária, como o corvo, é audaz e manhoso. Simboliza morte e mudança. Tanto pode ser positivo como negativo. Tanto pode fazer feridas como as curar. Uma das características da dentilária — e essencial a dado momento do romance — é ser potencialmente protocarnívora. A grande diferença entre plantas protocarnívoras e as carnívoras está na digestão. As protocarnívoras são capazes de criar armadilhas para as presas, mas não conseguem digerir e absorver nutrientes.

Enquanto O Luto É a Coisa com Penas concentra-se na dor de uma família, no seu inferno particular, Lanny parte dessa dor para abranger o tecido social daquele microcosmo. A polifonia permite um panóptico sobre as individualidades concatenadas de um grupo, mas também — quando Lanny desaparece — a visão analítica de cada um deles. Dentro da localidade conservadora, pequena e fechada, há maldade, mesquinhez e sadismo, mas também bondade, tolerância e empatia.

O juízo da comunidade recai sobre a forma mais solta que a família recém-chegada de Lanny, cujo pai é um “workaholic” e mãe escritora de policiais, o educa. Com o pai ausente e a mãe dedicada à escrita, Lanny passa muito tempo em casa de Pete, artista plástico, a aprender os caminhos da arte. Pete será o principal suspeito do desaparecimento da criança. Não por qualquer indício de malfeitoria, mas por ser homossexual e por ter uma vida excêntrica. Todas essas vozes são diferentes perspectivas sobre Lanny; existem como tonalidades de um colectivo.

Também aqui o autor rompe com o expectável. Lanny é um thriller que explora o drama do desaparecimento de uma criança, mas com radicais diferenças do “thriller”.

A linguagem visceral, embrulhada e sempre hipnótica está longe da prosa de autores como Chandler, Hammett ou Lehane. Tal qual no seu primeiro romance, a unidade do texto não depende da evolução da história. Porter dá-nos uma perspectiva cubista do existente, seja real ou irreal. O experimentalismo é uma revolta contra as limitações e contra a expectável organização da prosa. O autor não deixa de construir um enredo sólido, mas é sobre a linguagem que a sua mestria mais se nota.

Não se trata de experimentalismo perdido em piruetas estilísticas; trata-se de uma forma diferente, bem conseguida, de inscrever novas personagens no imaginário. E de trazer renovado alento ao romanesco.

Max Porter é, sobretudo, um leitor experimentado. Não rompe o cânone por ignorância; sabe que o faz, sabe como fazê-lo, e consegue-o.

Se procura algo diferente, encontra-o em Lanny. É energia crua que percorre a espinha. Crua e dura. O leitor trabalhe para decifrar a escrita de Max Porter. Descobrirá maravilhas.