António Costa falou esta noite pela primeira vez do artigo escrito por José Sócrates no passado fim-de-semana para garantir que quando falou das “más memórias” que os portugueses terão das “maiorias absolutas” não o disse para atingir o antigo primeiro-ministro do PS, o único que conseguiu uma maioria absoluta para o partido. Em entrevista à SIC, esta quarta-feira, o líder socialista reafirmou que apenas espera “o melhor resultado possível” e que estas eleições “não são um referendo entre o sim ou o não às maiorias absolutas”.

O tema Sócrates continua a cruzar-se com Costa que voltou a ser confrontado com a frase que disse em entrevista ao Expresso, em agosto: “Os portugueses têm má memória das maiorias absolutas, quer as do PSD quer a do PS ”. O ex-líder socialista queixou-se este fim-de-semana da “diabolização” que está a ser feita pela atual direção do PS sobre o seu Governo e Costa garante que isso não lhe “passou pela cabeça. Era o que faltava”. Depois desviou-se do assunto, afirmando que não vai fixar um objetivo eleitoral além do que já disse e que se limitou “a fazer uma constatação de facto que não é particularmente original”.

Mas se continua manter o tabu sobre o a fasquia real para as eleições de 6 de outubro, António Costa foi mais claro do que até agora sobre a continuidade de Mário Centeno no próximo Executivo. Até aqui tinha dito sempre que a sua vontade era mantê-lo e não mais do que isto. Mas agora diz que já falou com Centeno sobre o assunto e admitiu que o próprio ministro das Finanças já fez saber que quer manter-se à frente do Eurogrupo. “Quando ele diz que pretende continuar a ser presidente do Eurogrupo e ser ministro das Finanças é uma condição para ser presidente do Eurogrupo, creio que esta é a melhor resposta que pode ser dada”, disse sobre as conversas que tem tido com o ministro das Finanças sobre este assunto.

“O Governo tem de ser uma entidade coesa”. E os riscos das coligações

Sobre as condições de governação do próximo Executivo, Costa diaboliza as coligações. “Um governo tem de ser uma entidade coesa. Muito do que foi feito não teria sido possível fazer com um governo de coligação”, afirmou. Referia-se à geringonça, dizendo que o Governo com mais do que um partido teria impedido algumas medidas que foram tomadas, dizendo mesmo que “o PS tem sido o factor de equilíbrio de termos uma política de reposição de rendimentos” ou na lei de bases da saúde, por exemplo. “Tínhamos acordo parlamentar, mas não tínhamos base para fazer mais com uma relação mais íntima”. E repetiu a fórmula de “não estragar uma boa amizade com um mau casamento”.

Rui Rio também é carta fora de casamentos, com Costa a garantir mesmo que têm entendimentos iguais sobre o Bloco Central: “As questões do Bloco Central são contranatura”. Mas não exclui o PSD de acordos parlamentares da próxima legislatura. “Soluções de governo com o PSD, não faz sentido. Seria prejudicial para a democracia. Acordos sobre matérias estruturantes são sempre desejáveis. Se puderem existir, excelente. Não haverá problema nenhum”, afirmou.

O primeiro-ministro foi ainda confrontado com os problemas nos serviços públicos que se tornaram evidentes durante esta legislatura mas garantiu que “em nenhum caso as cativações reduziram o ritmo de subida da despesa”. E que o SNS, por exemplo, “está a produzir mais. Mais consultas nos hospitais e nos cuidados de saúde primários. Chega? Não, mas o que temos de fazer é prosseguir este caminho. E não voltar para trás”, perguntou e respondeu. Voltou a admitir — como já tem feito noutras intervenções — que “o país não é um país cor de rosa, é um país que tem problemas e compete ao Governo evitar criar problemas e resolver os que surgem”.

Recusa ter agravado a carga fiscal elo aumento de impostos indiretos e que as alterações verificadas deveram-se ao comportamento da economia. Confrontado com a carga fiscal mais elevada de sempre, Costa respondeu: “Se comparar os valores da carga fiscal de 2018 com 2015 há um aumento de 0,1% e esse aumento de impostos não resulta de termos alargado a base de incidência, mas de um maior crescimento da economia”. O líder socialista garantiu que vai “continuar a trajetória” do que tem sido feito mesmo com o fantasma da crise a pairar por cima da Europa (Brexit e Alemanha) e não só (guerra comercial EUA-China).