Título: Entender o Lugar: Embaixada de Portugal em Brasília
Autores: Jorge Figueira e Luciano Margotto
Ensaio fotográfico: Joana França
Prefácio: Augusto Santos Silva
Design: Rita Múrias
Editor: Imprensa Nacional
Páginas: 80, hardcover
Preço: 18 €

A pouco e pouco, a arquitectura portuguesa edificada nas principais ex-colónias africanas e noutras latitudes extra-territoriais tem merecido alguma atenção dos editores, permitindo começar a reconhecer — mas com indesmentível e penoso atraso — os méritos da esclarecida política de obras públicas das décadas de 1950-70 e a originalidade impactante de alguns projectistas portugueses, hoje eclipsados pelo sistema de grande estrelato profissional instituído, mas figuras a considerar e honrar muito para lá dos pequenos círculos do ensino e da historiografia da arquitectura e do urbanismo.

Este pequeno e simpático livro dedicado ao edifício da Embaixada de Portugal em Brasília, construído em 1973-78 sob projecto de Raul Chorão Ramalho (1914-2002), faz parte desse aparente impulso de reaproximação à obra desses arquitectos quase esquecidos, parecendo ser, ao mesmo tempo, uma tentativa ambiciosa e generosa de abrir uma bibliografia intrinsecamente especializada à curiosidade, interesse ou pedagogia de um maior número de gente, o que merece empatia e elogio. Ao fim e ao cabo, o espalhafato das “emergências climáticas” ameaça lançar num limbo sombrio a percepção comum — a haver — de que apenas um novo e amplo quadro de políticas públicas e práticas privadas de arquitectura e urbanismo lúcidas e altamente qualificadas, mas também persistentes ao longo do tempo, pode dar no futuro efectiva sustentabilidade às cidades, onde a maioria da população se concentra. Mas ao contrário disso, estamos de certo modo a viver um retrocesso face a concepções de construir e habitar em que o moderno de meados do século passado pensava adiante e admitia reavaliar e adoptar soluções antigas, amplamente estudadas em inquéritos nacionais.

Dar visibilidade àqueles casos de plena integração entre espaço construído e ambiente natural, e aprender com eles, parece-me ser um bom ponto de partida. Os 50 anos do edifício-sede da Fundação Calouste Gulbenkian aí estão como demonstração de um trabalho bem feito, cuja qualidade o tempo não desgasta, antes sublinha e rejuvenesce. Um número cada vez maior de ruas e avenidas arborizadas, jardins e parques efectivamente mantidos e renovados, hortas domésticas ou comunitárias de proximidade em progressão ajudariam — muito mais do que discursos hiper-mediatizados, depressa esquecidos — a criar conforto humano nas urbes e uma consciência generalizada da crise ambiental criada pela expansão massiva de edifícios cronicamente dependentes de energia eléctrica (desprovidos da qual colapsam literalmente) e sem contacto visual ou físico com amplos espaços verdes ou pequenos jardins suspensos.

As fotografias de Joana França transmitem na perfeição a atenção dada aos pormenores arquitectónicos

No edifício brasiliense de Chorão Ramalho a varanda circulante no piso superior dispôs sucessivas “conversadeiras” de velha tradição portuguesa entre canteiros florais, e não lhe faltam o tanque espelho de água, a tijoleira e os azulejos, memórias das nossas casas nobres em diálogo com a expressão mais contemporânea das artes decorativas, com Querubim Lapa e Sá Nogueira, entre outros, na linha da frente. E sendo sede de representação diplomática, é-o sobretudo de representação cultural identitária, um “ambicioso projecto” (disse Rui Afonso Santos) que ali vai dialogar com a nova arquitectura brasileira protagonizada por Niemeyer e Costa, com Burle Marx (1909-94) em especial evidência na renovação do paisagismo de jardins — inclusive os das embaixadas dos Estados Unidos da América, Irão e Bélgica na nova capital do país (v. Roberto Burle Marx, uma vontade de beleza, 2014, p. 176) — e no desenho abstraccionista da calçada, como mantida na avenida marginal de Copacabana, magnífica obra dos anos 1970.

Vítor Mestre foi ao ponto de escrever, em 1997, que “a Embaixada de Portugal em Brasília poderia ter sido a obra maior portuguesa do século XX fora do continente europeu” (catálogo de exposição na Casa da Cerca, p. 30), o condicional ficando por conta do facto de nunca terem sido construídas as residências do embaixador e dos funcionários (cuja memória descritiva e alçados aparecem reproduzidos em Arquitectura, n.º 130, pp. 28-29). Pelo seu lado, Jorge Figueira, da Universidade de Coimbra e autor de um dos textos deste livro, “Flores para Brasília”, subestima claramente esta bizarra amputação — diz apenas: “não se tendo construído a residência do embaixador prevista no plano inicial” (p. 16) —, preferindo o elogio rasgado à “dança de planos e linhas” e à “espacialidade interior inesperadamente acolhedora”, em suma a “um certo júbilo arquitectónico” e a uma “certa atmosfera conventual” (p. 19). O programa decorativo, visto em perspectiva panorâmica como havia feito Rui Afonso Santos no citado catálogo de 1997, é-lhe quase indiferente. E em vez de buscar entender, a olhos de hoje, o que poderá ter significado o distanciamento de Chorão Ramalho ao ambiente construtivo local, logo expresso na memória descritiva de 1971 (referido na p. 26: “um conceito de arquitectura moderna que não coincidirá nalguns aspectos com aquele que domina a arquitectura de Brasília”), quase a concluir pouco mais nos diz — se é que diz alguma coisa… — que “visitar a Embaixada, com a hospitalidade inexcedível dos seus inquilinos, é, como deve ser, visitar Portugal em relação com o infinito mundo brasileiro” (p. 28).

De outra argamassa é feita a leitura crítica do edifício por Luciano Margotto, professor da Faculdade de Arquitectura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, que avalia a criação brasílica de Raul Chorão Ramalho como “uma grande plataforma de acolhimento”, uma “estrutura que se dobra à luz” nos seus pátios e varandas e “intercala zonas de sombra e brilho, criando espessuras tectônicas e uma vibração entre os planos de fachada” (p. 36), com “paciente atenção aos pormenores arquitetônicos” (p. 39) — algo que as excelentes fotografias de Joana França transmitem à perfeição.

Quem julge Brasília um lugar tão mal frequentado que dispense passear-se por lá, ou os ainda indefectíveis entusiastas da utopia jusceliana, têm neste livrinho obra breve mas útil e memorável sobre a nossa casa portuguesa na capital brasileira. As plantas e alçados, compactados nas pp. 30-31, são praticamente ilegíveis, e é pena, mas isso sucede  certamente porque o “padrão Dafne” ainda não instruiu ou inspirou a Imprensa Nacional. Não faz mal nenhum aprender com os outros.