A reunião durou quase duas horas mas tudo ficou (praticamente) na mesma. Dez dias depois das eleições, Rui Rio reuniu o seu órgão de direção mais alargado para ouvir mais do que falar. Segundo José Silvano, que deu conta das conclusões aos jornalistas, a comissão política do PSD foi “praticamente unânime” na análise dos resultados eleitorais e no desejo de que Rui Rio continue à frente do partido. “Praticamente unânime” e “quase unânime” porque “nem toda a gente se pronunciou”, esclareceu. Quanto a Rio, nem uma palavra: “Só está na cabeça dele”. O silêncio pode manter-se até ao final de outubro ou início de novembro, altura em que vai ser convocado o Conselho Nacional.

“[A comissão política] Foi praticamente unânime na análise dos resultados e no incentivo a que o atual presidente do partido se recandidate, mas sem que da parte dele houvesse qualquer palavra sobre esta matéria. Só está na cabeça dele. A comissão política deixou-lhe essa possibilidade em aberto, de se manifestar quando entender e como entender”, afirmou o secretário-geral do PSD à saída da reunião, na sede do partido, onde sublinhou que a análise feita aos resultado eleitorais foi “mais ou menos no mesmo sentido do que o presidente do partido afirmou publicamente na noite eleitoral”. Ou seja, o PSD não ganhou, mas também não teve uma “derrota estrondosa”.

O tabu mantém-se e as fórmulas repetem-se: “Está só na cabeça dele”, “se vai ou não recandidatar-se é da vontade exclusiva dele, no timing que entender”, “o nosso líder é assim, genuíno, ele é que decide”. Questionado sobre se Rio pode manter o tabu até ao Conselho Nacional (que será no final do mês ou início de novembro), Silvano não descartou essa hipótese. Só Rui Rio decide o “timing”.

Ao que o Observador apurou junto de fontes presentes na reunião, Rui Rio manteve-se em silêncio, não fez intervenções, à exceção de pequenos apartes bem humorados. David Justino, Graça Carvalho e João Carlos Cunha e Silva (PSD Madeira) e António Carvalho Martins foram alguns dos que fizeram intervenções a elogiar o líder. A palavra mais repetida foi “expectativas”, com vários membros deste órgão a destacarem que Rio superou os maus resultados que eram apontados pelas sondagens no início de setembro. A prestação de Rio nos debates, a forma como fez campanha e o facto de não ter alterado a mensagem política ao longo do tempo foram alguns dos elementos enaltecidos pelos dirigentes do partido. Rio ouviu, mas não respondeu.

Com Rui Rio a manter o silêncio, tudo vai decorrer nos trâmites normais. Não vai haver antecipação dos calendários. Segundo José Silvano, a comissão política não fechou ainda a data do Conselho Nacional — órgão máximo entre congressos — mas vai acontecer em breve, entre os últimos dias de outubro e os primeiros de novembro, depende das condicionantes impostas pelos feriados. Nesse Conselho Nacional, segundo Silvano, vão ser marcadas as datas para as eleições diretas e para o congresso — que acontecem no calendário normal, ou seja, diretas em “meados de janeiro” e congresso “na primeira ou segunda semana de fevereiro”. “As datas não serão diferentes do que foram há dois anos”, disse.

Já quanto à hipótese de Rio vir a ser líder parlamentar, caso seja recandidato à liderança do partido, José Silvano não descartou a hipótese — “as hipóteses estão todas em aberto” — mas garantiu que o tema não foi abordado na reunião desta tarde. Até porque a Assembleia da República ainda tem de tomar posse, e só na semana seguinte aos deputados serem empossados, é que se trata da escolha das lideranças das bancadas. “Essa decisão só será tomada quando decorrerem os trabalhos parlamentares, e ainda não temos a data certa de quando tomam posse os deputados no Parlamento”, disse apenas, lembrando que a contagem dos votos da emigração, que deve ficar fechada hoje até as 22h, pode atrasar.

A direção de Rio, de resto, não tem pressa. “Anda muita gente com pressa no PSD, mas nós não”, disse ainda Silvano, rejeitando que esta espera a que Rio está a votar o partido esteja a ser prejudicial para o PSD. “O partido não esta a sofrer desgaste nenhum porque está a acompanhar um resultado eleitoral que ainda nem sequer acabou”, disse, sublinhando que quando os votos estiverem todos contados e os mandatos todos atribuídos o PSD caminhará com “calma e serenidade” para os calendários que já tinha estabelecido. “Estamos com serenidade”, disse.