“Cartas de Inglaterra” é um dos livros mais corrosivos de Eça de Queiroz mas bem podia ter sido escrito por Boris Johnson. É que o primeiro-ministro britânico não enviou uma, não enviou duas mas sim três cartas para Bruxelas depois do Parlamento o ter obrigado a pedir um adiamento do Brexit. Mais: só uma delas está assinada por Boris e as missivas são contraditórias.

Expliquemos. As cartas chegaram a Bruxelas este sábado à noite mas Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu, apenas confirmou a receção do “pedido de extensão”. Contudo, foram mesmo enviadas três cartas enviadas.

A primeira missiva consiste num texto não assinado em que o Reino Unido pede formalmente a extensão do prazo de saída da UE até 31 de janeiro de 2020 e anexa uma mera fotocópia da chamada Lei Benn — uma lei aprovada em setembro que obriga o Governo a pedir um adiamento da saída da UE, caso o acordo negociado pelo Executivo com Bruxelas não tenha sido aprovado pelo Parlamento.

Já segunda carta está assinada por Tim Barrow, embaixador do Reino Unido em Bruxelas, e explica as razões do primeiro-ministro britânico.

Boris telefonou a Donald Tusk e a diversos líderes europeus explicando que a primeira carta que enviou não é sua, mas sim do Parlamento. Daí a explicação para não ter assinado a mesma, noticia Daily Telegraph,

Finalmente a terceira missiva está assinada pelo primeiro-ministro britânico e diz o contrário da primeira. Isto é, repete as razões do Governo de Boris Jonhson para não querer um adiamento do prazo do Brexit para 31 de janeiro de 2020 e diz mesmo que tal seria “profundamente corrosivo”.

Johnson adianta ainda nessa terceira carta que irá apresentar na próxima semana no Parlamento toda a legislação necessária para o Brexit e mostra-se confiante de que conseguirá aprová-la até ao dia 31 de outubro. Mas quase que pede a rejeição do pedido de extensão, porque a “aprovação de uma extensão prejudicará os interesses do Reino Unido e dos nossos parceiros europeus”.

Fontes oficiais da UE garantiam a diversos jornais britânicos, como o The Guardian, que existe uma elevada probabilidade de Bruxelas conceder o adiamento do Brexit.

Donald Tusk garantiu numa comunicação no Twitter que as consultas com os diferentes líderes europeus irão começar de imediato e há a possibilidade de ser marcada uma cimeira europeia para 29 de outubro, de forma a aprovar a extensão pedida oficialmente pelo Reino Unido.