Há um ditado popular que sintetiza o que Francis Ford Coppolla — realizador de 80 anos que fez filmes como “Apocalypse Now” e os três capítulos cinematográficos da saga “O Padrinho” — disse este sábado em Lyon, em declarações aos jornalistas, após receber o prémio de carreira Prix no festival de  Lumière: “Se um diz mata, o outro diz esfola”. O veterano do cinema norte-americano foi questionado pelos jornalistas sobre se concordava com a opinião de Martin Scorsese de que os filmes da Marvel não são cinema e corroborou a opinião:

Quando o Martin Scorsese diz que os filmes da Marvel não são cinema, está correto, porque esperamos aprender alguma coisa do cinema, ganhar algo, algum esclarecimento, algum conhecimento, alguma inspiração”, começou por referir, citado pelo jornal inglês The Independent.

Na declaração em que Coppola falou da empresa norte-americana que tem inundado o mercado cinematográfico com filmes blockbusters (com grandes orçamentos) de super-heróis, o realizador foi ainda mais longe e afirmou: “Não sei o que é que alguém ganha ao ver o mesmo tipo de filme sucessivamente. O Martin foi simpático quando disse que não é cinema. Não disse que é desprezível, que é o que acabo de dizer“.

O realizador em Lyon, onde comentou a opinião de Scorsese sobre os filmes de super-heróis da Marvel (@ Stephane Cardinale – Corbis/Corbis via Getty Images)

Damon Lindelof discorda: “O género está vivo e bem”

Quem tem uma opinião algo diferente é Damon Lindelof. Em conversa com o Observador e outros meios de comunicação internacionais em Nova Iorque, aquele que foi um dos criadores da série “Lost” (“Perdidos”), que concebeu a série recente “The Leftovers” e que se prepara para estrear uma nova série inspirada na famosa banda desenhada dos anos 1980 “Watchmen”, afirmou: “Acho que o género super-heróis está vivo e bem, está a gerar uma percentagem tremenda de negócio nesta indústria e acho que tem originado alguns filmes muito bons. Gosto do filme dos ‘Avengers’, do último filme do ‘Homem-Aranha’ e do filme da ‘Mulher Maravilha'”. Acho que podemos queixar-nos que há uma proliferação [excessiva] de super-heróis na cultura [de entretenimento] mas ainda há coisas muito boas a sair” dessa área.

O criador de “Watchmen”, próxima série da HBO (e uma das grandes apostas da produtora depois do fim de “A Guerra dos Tronos”), confessou ainda assim que nos anos 1980 sentia que “havia mais espaço para a experimentação no género dos super-heróis do que as pessoas estão atualmente a permitir que exista, porque não querem estragar as coisas”. Porém, acrescentou, “com coisas como o Joker [o filme mais recente sobre a personagem da DC Comics] estamos a ver esse tipo de experimentação a acontecer e acho que o público está com vontade de ver isso acontecer. Os nossos deuses são super-heróis. Temos uma relação mais íntimas com o Iron Man do que com a maior parte das religiões organizadas da América, portanto é difícil destruir os nossos deuses, queremos continuar a ir à igreja e ao templo [reverenciá-los]. Não vão a lado nenhum nos próximos tempos, mas de facto acho que há histórias mais interessantes para contar” usando-os como personagens.