As eleições estaduais na região alemã da Turíngia tiveram um resultado inédito naquele país, em que os partidos dos extremos somaram mais de metade dos votos e onde os partidos do centro tiveram uma prestação que lhes deixa menos de um terço dos votos.

De acordo com a sondagem à boca das urnas, o partido mais votado naquele estado da antiga Alemanha de Leste foi o Die Linke, de extrema-esquerda, com 29,7% dos votos. Em segundo lugar, surge a Alternativa para a Alemanha (AfD, a sigla germânica deste partido de extrema-direita), com 23,8%. Somados, os dois partidos que configuram as opções mais aos extremos na política alemã têm 53,5% dos votos.

Esta subida dos extremos tem como consequência direta a queda do centro. A CDU (centro-direita, de Angela Merkel), que tinha vencido as últimas eleições estaduais na Turíngia, em 2014, ficou agora com 22,5% e o terceiro lugar. O Partido Social Democrata (SPD, de centro-esquerda), teve apenas 8,5% e ficou em quarto.

Estas eleições surgem depois de em 2014 a CDU ter ficado em primeiro lugar (33,5%), mas aquém de uma maioria para governar naquele landtag. À altura, o Die Linke ficou em segundo lugar, após ter ficado com 28,2% dos votos. O líder daquele partido na Turíngia, Bodo Ramelow, acabou por formar uma “geringonça” à esquerda, governando com o apoio do SPD e com os Verdes.

A convicção de Bodo Ramelow é a de reeditar aquele entendimento que lhe permitiu governar na Turíngia. “Saio claramente fortalecido”, disse o candidato do Die Linke e primeiro-ministro em funções daquele estado. “O meu partido tem um mandato claro para governar e eu vou assumi-lo”, continuou, em declarações à ARD.

Este é, porém, um desfecho mais complicado. De acordo com as projeções, o SPD, parceiro indispensável para permitir um governo de esquerda naquele estado alemão, perde 4% em relação às eleições de 2014 — reduzindo assim a fatia que cabe ao bloco da esquerda. Também os Verdes podem vir a ter uma prestação ligeiramente pior daquela que conseguiram há cinco anos, prejudicando ainda mais as perspetivas de Bodo Ramelow formar governo.

Björn Höcke, o homem que é demasiado extremista (até para a AfD)

A subida da AfD ao segundo lugar foi fortemente festejada na sede de campanha daquele partido, que fez campanha por um novo “Wende”, palavra utilizada para se referir à queda da Alemanha de Leste em 1990.

“Cidadãos da Turíngia, votámos a favor de um Wende 2.0”, disse Björn Höcke este domingo, depois de serem conhecidas as primeiras projeções. “Este é um sinal claro de que uma grande parte da Turíngia diz: isto não pode continuar. Precisamos de uma renovação. E isto tem de ser levado a sério”, disse.

Björn Höcke foi alvo de uma petição de uma centena de políticos da AfD, que se opõem ao radicalismo das suas posições (Jens Schlueter/Getty Images)

Björn Höcke tem estado no centro de alguma discórdia dentro da AfD. Em julho, uma centena de políticos da AfD publicaram uma carta aberta a pedir que a direção do partido se distanciasse de Björn Höcke, referindo existir um “culto de personalidade” em torno do líder da AfD na Turíngia.

Björn Höcke é uma das vozes mais polémicas daquele partido, dividido entre uma ala de extrema-direita e outra menos radical, tendo em 2017 criticado a maneira como se tem recordado o Holocausto na Alemanha. “Estas políticas estúpidas para encararmos o passado têm-nos prejudicado”, disse. “Nós, alemães, isto é, o nosso povo, somos o único povo no mundo que plantou um monumento de vergonha no coração da sua capital”, acrescentou, em referência ao Memorial do Holocausto, em Berlim.

Bodo Ramelow, o (único) premier da extrema-esquerda que quer mudar o hino

Bodo Ramelow foi o primeiro e até agora único político do Die Linke a liderar um governo estadual na Alemanha. Bodo Ramelow é conhecido pelo seu estilo frontal e, de algumas formas, pouco em linha com o perfil das fileiras do Die Linke.

Cristão praticante, Bodo Ramelow causou indignação entre alguns meios da extrema-esquerda, sobretudo em grupos Antifa, depois de os ter criticado por uma manifestação que preparavam contra Björn Höcke. Em causa, estava uma manifestação na quinta-feira de Ascensão que estava marcada por aqueles gruposna aldeia do líder da AfD da Turíngia. A manifestação chamava-se “Direito para o inferno” e na convocatória lia-se: “Vamos estragar o feriado ao chefe da AfD na Turíngia e aos seus eleitores com a nossa mera presença e dizer-lhes: vão direitos para o inferno!”.

À altura, Bodo Ramelow criticou aquela iniciativa, dizendo que aqueles eram “métodos nazis”. “Porque é que estas pessoas se baixam ao nível de racistas?”, perguntou, no Twitter. Essa reação levou a que ativistas Antifa,  o confrontassem pouco depois. “A vossa arrogância irrita-me”, atirou-lhes o político do Die Linke.

Bodo Ramelow atraiu também atenção quando, em maio deste ano, defendeu a criação de um novo hino nacional para a Alemanha, referindo que o atual não representa as parte do país que pertenceram, desde 1949 e até 1990, à Alemanha de Leste.

O hino nacional alemão (“Deutschlandlied”, que significa “Canção da Alemanha”) foi adotado em 1922 e utilizado desde então, incluindo nos anos do nazismo (1933-1945). No entanto, desde 1952, apenas uma parte do hino passou a ser utilizada. Foi essa que, aquando da reunificação da Alemanha, em 1990, passou a fazer parte do hino nacional de todo o país.

“Gostava que tivéssemos um hino nacional verdadeiramente coletivo. Este desejo, infelizmente, apenas tem causado um levantar de indignações”, disse numa entrevista, onde disse também que o atual hino lhe faz lembrar uma marcha nazi. “Precisamos de algo completamente novo, com uma letra nova que seja tão apelativa que todas as pessoas se consigam identificar e dizer: isto pertence-me”, disse Bodo Ramelow.