Vietto não precisa de cânticos nem tarjas: veio para assinar um protocolo com a equipa (a crónica do Sporting-V. Guimarães)

Sporting explorou os pecados do V. Guimarães e fez disso a maior virtude para somar novo triunfo (3-1) num jogo onde Vietto encontrou a zona de conforto para mostrar que é a melhor aquisição da época.

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Getty Images

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Costuma-se falar da chegada dos dois autocarros da equipa ao estádio, falou-se no facto de estarem abertos os dois espaços das claques Juventude Leonina e Directivo Ultras XXI. Costuma-se falar da enchente que qualquer jogo dedicado aos Núcleos mobiliza, falou-se no bloqueio da venda de bilhetes em determinados setores do recinto. Costuma-se falar das ausências por castigo, lesão ou opção de jogadores, falou-se das ausências de tarjas, bandeiras e megafones de grupos organizados de adeptos. O Sporting, enquanto clube desportivo, voltou a deixar aquilo que deviam ser as suas prioridades passarem para um patamar secundário face às quezílias internas que o teimam em vestir de partido político com futebol e modalidades. E os atletas, esses, não passavam ao lado.

“Não somos surdos nem cegos, mas são coisas que não nos dizem respeito. Quanto melhor for o nosso futebol, mais pessoas vêm ao estádio”, atirou Bruno Fernandes, no final do último encontro com o Rosenborg a contar para a Liga Europa. A exibição foi fraca. Mais uma vez fraca. Mas o resultado, ainda assim, sempre foi melhor do que o anterior, quando a equipa verde e branca foi eliminada da Taça de Portugal frente ao secundário Alverca. No final de 90 minutos sempre a apoiar os jogadores e sem único sinal de contestação, voltaram os cânticos contra o líder leonino, Frederico Varandas. No final e apenas no final. Mas foi nessa parte que recaíram as atenções, quase como se um jogo se prolongasse por mais do que 90 minutos num prolongamento que acaba sempre em derrota.

Neste contexto, o encontro em Alvalade frente ao V. Guimarães assumia uma especial importância na inversão de um ciclo vicioso que, mesmo que não se tornasse de imediato num ciclo virtuoso (que não iria tornar, entenda-se), poderia pelo menos acalmar um clima de guerra civil sem fim à vista entre Direção e claques. Também por isso, Silas preferiu fugir às polémicas externas e centrar atenções no plano interno, desfazendo dúvidas de interpretação sobre as declarações depois do jogo com o Alverca: ao contrário de criticar o protagonismo (excessivo) assumido por Bruno Fernandes na equipa, o técnico desejava ver mais jogadores a assumirem esse protagonismo.

Vietto, que leva poucos meses desta realidade e que pouco ou nada deve saber sobre a guerra fria que vai ocorrendo todos os dias em Alvalade, ouviu a mensagem, interiorizou-a e assumiu. O argentino é um talento com a bola nos pés, das maiores virtudes que o Sporting tem o plantel, mas andou sempre perdido entre as obrigatoriedades mais coletivas e a exploração do talento individual. Esta noite, conciliou tudo. Jogou e fez jogar. Assistiu e puxou pela assistência. Distribuiu jogo próprio, desarmou jogo do adversário. O número 10, essa camisola para sempre mítica no futebol, mostrou que não precisa de cânticos, tarjas ou bandeiras para se destacar porque tem um protocolo com a equipa que, quando o consegue colocar na zona de conforto, retira o melhor do ex-jogador do Atl. Madrid.

O encontro começou a todo o gás, com a bola a andar juntos das duas balizas com pouco mais de dois minutos de jogo decorridos: primeiro foi Davidson a desequilibrar na esquerda perante Rosier antes de cruzar para o desvio isolado de André Almeida na área ao lado (2′); a seguir foi o mesmo Rosier que em vez de mostrar as fragilidades defensivas conseguiu dar uma imagem das potencialidades ofensivas, subiu pelo flanco direito e assistiu Bruno Fernandes para um toque de calcanhar com nota artística mas que chegou sem força a Miguel Silva (2′). Quando a bola conseguia sair para o último terço de alguma das equipas, havia sempre um qualquer sinal de potencial perigo à vista mas sem que ambos os guarda-redes tivessem muito trabalho até aos 25 minutos iniciais.

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Os minutos passavam os equipamentos quase enganavam. Ou melhor, noutros dias podiam ter enganada, ao passo que agora são pouco mais do que a realidade conjuntural: enquanto o V. Guimarães se sentia confortável em posse, tinha linhas mais subidas para conseguir lutar pelas segundas bolas e explorava a velocidade mas em ataque organizado, o Sporting, com Doumbia e Eduardo demasiado baixos, tentava aproveitar todas as oportunidades para sair em transições rápidas à procura da profundidade nas costas de uma defesa mais à frente do que é normal em Alvalade. Em três minutos, os minhotos cometeram dois erros e os leões fizeram o 2-0: primeiro foi Vietto a fazer uma cavalgada sem oposição antes de isolar Jesé Rodríguez para o fim do jejum de golos do espanhol (29′), depois o mesmo Vietto ganhou uma bola a Frederico Venâncio antes de assistir Acuña na área (32′).

O contexto era diferente, o nível das exibições também, mas os minhotos apanhavam-se a perder sem que o jogo feito até ao momento assim justificasse como tinha acontecido em Londres frente ao Arsenal durante a semana. E como um azar (ou dois) nunca vem só, Davidson, o elemento mais desequilibrador do conjunto de Ivo Vieira na frente, conseguiu mais uma vez soltar-se de Rosier, fletir para o meio e rematar com força ao poste da baliza de Renan Ribeiro (37′), naquela que foi a última oportunidade até ao intervalo.

O segundo tempo acabou por ficar em grande medida marcador pelos minutos iniciais: como se esperava perante o resultado ao intervalo, o V. Guimarães entrou decidido a conseguir reduzir a desvantagem para reentrar no jogo mas bastou uma saída bem gizada do Sporting em contra-ataque, com Eduardo a conduzir pelo corredor central e a soltar no momento certo para Bruno Fernandes ficar perto do terceiro golo (no seguimento do lance ficou-se a pedir penálti em Alvalade mas o VAR e Soares Dias não consideraram falta de Miguel Silva), para os minhotos terem outros cuidados na forma como tentavam abordar a baliza à guarda de Renan Ribeiro (47′).

Os vimaranenses tinham mais bola, mais cruzamentos e jogavam mais no meio-campo adversário mas, sempre que o primeiro passe entrava no corredor central para lançar as transições rápidas, eram apanhados em situações de desequilíbrios. No entanto, também o Sporting facilitava em termos de coberturas nos corredores laterais e foi a partir de uma diagonal de Davidson para a área com Rosier a ver tudo parado que nasceu o 2-1, com o cruzamento do brasileiro a conseguir encontrar Bonatini na pequena área para o desvio final (67′).

O avançado brasileiro que brilhara em Portugal e foi resgatado pelos minhotos em Inglaterra (num plantel com muita qualidade montado também por um antigo diretor desportivo dos leões, Carlos Freitas) tocou no principal problema verde e branco, a estabilidade emocional. E durante alguns minutos o empate tornou-se quase uma coisa inevitável, perante as oportunidades de Mikel Agu (remate a passar muito perto do poste) e Davidson (a rasar a trave). No entanto, foi na exploração dos pecados adversários que esteve a maior virtude do Sporting esta noite e, no seguimento de um livre lateral batido por Acuña com Miguel Silva a falhar na abordagem ao primeiro desvio de cabeça, Coates voltou a marcar na baliza certa e fez o 3-1 final que “acabou” com o jogo (74′).

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