"Modern Love": deixai vir a nós o quentinho e o comovente

Susana Romana viu os oito episódios da nova série da Amazon Prime e diz-nos que que é ideal para fugir do desespero e do desconforto (muito bem feitos) de coisas como Black Mirror e Years and Years.

i

Anne Hathaway é apenas uma das estrelas recrutadas para compor o elenco de "Modern Love"

Christopher Saunders

Anne Hathaway é apenas uma das estrelas recrutadas para compor o elenco de "Modern Love"

Christopher Saunders

Há algo de sinergia kármica no facto de “Modern Love” estrear por alturas do novo filme de Woody Allen, “Um Dia de Chuva em Nova Iorque”. É que dadas as temáticas e o ambiente impermeavelmente nova iorquino (ou mais concretamente: da Manhattan com fundos de maneio) da nova série da Amazon Prime, a antologia passa bem por placebo para quem se sente órfão de Allen no seu melhor — ou, simplesmente, para quem achou que estava na hora de deixar de seguir o trabalho do polémico realizador.

Baseada nas crónicas biográficas de uma coluna no New York Times, que também deram origem a um popular podcast, “Modern Love” na versão televisiva está longe de ser tão memorável como as suas encarnações anteriores. Porém, é o produto perfeito para consumir no sofá, sozinho ou acompanhado, com uma manta e uma tablete de chocolate do tamanho de um fémur. É uma espécie de boa aposta para uma colecção outono-inverno de sábado à tarde. E é saudável que exista espaço para produtos de ficção televisiva que tenham o efeito oposto a um “Black Mirror” ou a um “Years And Years” (dois ótimos portentos) — em vez do desespero e do desconforto, deixai vir a nós o quentinho e o comovente. Estar sempre irritado faz muito mal aos nervos, filhinhos.

[o trailer de “Modern Love”:]

Três advertências que devem ser feitas antes de se atirar de cabeça a estes oito episódios que reúnem nomes como os dos nomeados a óscares Jane Alexander (“Kramer Contra Kramer”), Dev Patel (“Quem Quer Ser Bilionário”), Catherine Keener (“Queres Ser John Malkovich?”) e Andy Garcia (“O Padrinho 3”), a já oscarizada Anne Hathaway (“Os Miseráveis”), a comediante Tina Fey  (“30 Rock”) ou o novo ator fetiche Andrew Scott (o hot priest de “Fleabag”). Um: não é aconselhável a diabéticos. Dois: não é aconselhável a cínicos empedernidos. E três: apesar do seu título, a série é muito mais clássica do que moderna.

Mas vamos por partes. “Modern Love” é uma série doce, tão doce que chega a ser melosa, na vertigem de ser mesmo peganhenta. É uma antologia de finais felizes, um cardápio de contos muito redondinhos e fofinhos. Cada episódio é uma história, com o oitavo capítulo a retomar pontas soltas e a acrescentar-lhe detalhes sempre muito positivos. Há algo de “Love Actually”, seja nas temáticas seja no cast repleto de estrelas, com a benesse de estar vários furos acima de outras tentativas desengonçadas de reproduzir com sucesso esse modelo em cinema (recordemos a custo os esquecíveis “Ano Novo, Vida Nova!” de 2011 ou “Dia dos Namorados de 2010”, ambos muito sofríveis).

Há pouco de moderno neste “Modern Love” – é até bastante clássico nos temas e angústias que aborda. Não é uma ou outra referência a likes no Instagram ou o facto de ter um casal gay em 2019 que a torna vanguardista

Por isso mesmo, não é para cínicos. Há boas personagens, excelentes representações, bons momentos, alguns sorrisos (não é bem uma série de gargalhadas, mesmo com Sharon Horgan a escrever um dos episódios ), mas muitos gatilhos para tentarem provocar choradeira. Com isso vem uma ou outra tirada a escorrer azeite, mas de algumas os criadores orgulham-se tanto que até as colocam no trailer. É o caso de quando, no segundo episódio, uma jornalista insiste em querer saber das dores da vida amorosa do criador de uma aplicação de encontros, saindo-se com um muy bimbo “eu não tenho de publicar a história que está escrita no teu rosto”. Desafio os meus colegas jornalistas do Observador a fazerem esta pergunta ao seu próximo entrevistado sem nenhum dos intervenientes revirar os olhos.

[detalhes sobre cada uma das histórias de “Modern Love”:]

O outro problema é que, de facto, há pouco de moderno neste “Modern Love” – é até bastante clássico nos temas e angústias que aborda. Não é uma ou outra referência a likes no Instagram ou o facto de ter um casal gay em 2019 que a torna vanguardista. Se calhar até é uma opção filosófica, uma reflexão em como aquilo que nos faz mexer é indiferente à passagem do tempo. Mas que não se vá ao engano e que não se procure aqui uma frescura que não existe. Há até muitos déjà vus, desde “Before Sunrise” ao já citado “Love Actually”, passando pela sensação de que a Meg Ryan dos anos 90 pode irromper a qualquer momento.

Ultrapassadas estas idiossincrasias, há alguns bombons nesta aposta da Amazon. Para começar, os fãs de “How I Met Your Mother” vão ver finalmente vingada a injustiça que foi cometida com a Mãe, a atriz Cristin Milioti, aqui com direito a um episódio de abertura que é dos melhores da temporada. Também Anne Hathaway tem um recreio onde mostrar os seus dotes de atriz, interpretando uma bipolar que oscila entre uma vida de musical e um quotidiano de trevas.  Mas o melhor episódio é mesmo o quinto, sem atores particularmente famosos, passado numa urgência de hospital.

"Modern Love" na versão televisiva está longe de ser tão memorável como as suas encarnações anteriores. Porém, é o produto perfeito para consumir no sofá, sozinho ou acompanhado, com uma manta e uma tablete de chocolate do tamanho de um fémur.

“Modern Love” chega à Amazon três anos depois da rival Netflix ter estreado “Easy”, que vai já na terceira temporada. “Easy” também é uma sucessão de curtas narrativas fechadas sobre relações, mas com mais sexo e desespero à mistura. Isso não a torna necessariamente melhor, já que “Easy” é muito mais inconstante na qualidade do que “Modern Love”, que nunca nos deixando de queixo caído também nunca nos deixa a chorar trinta minutos perdidos.

Susana Romana é guionista e professora de escrita criativa

Recomendamos

Populares

Últimas

A página está a demorar muito tempo.