Falámos com os criadores de "Black Mirror": "Toda a série é um assassinato psicológico" /premium

Na véspera da estreia da quinta temporada de "Black Mirror", Charlie Brooker e Annabel Jones explicam porque é que a distopia futurista da Netflix tem mais a ver com emoções do que com tecnologia.

Quatro garrafas de água de 1 litro, em vidro, em cima de uma mesa redonda: duas com gás, duas sem. E uma espera que denunciava um atraso de minutos face à hora marcada. Quando Charlie Brooker chegou ao encontro que tinha marcado com alguns jornalistas em Londres, não desiludiu no glamour e sarcasmo que lhe era esperado. Vestiu o sotaque britânico cerrado a rigor num polo amarelo torrado e um blazer escuro que coincidiam com a ironia típica do seu humor. E chegou acompanhado da sofisticação de Annabel Jones, com quem desde o início produz “Black Mirror”.

Aos 48 anos, o criador da distopia tecnológica que se tornou numa das principais bandeiras da Netflix senta-se descontraidamente na cadeira. Pega num copo, numa das garrafas, abre-a e deixa que a água verta à distância considerável de mais de um palmo, permitindo-nos ouvir e visualizar o efeito durante três ou quatro segundos.

— Gosto de verter a água assim para introduzir um elemento de risco à ação. Desculpem.

Desculpamos. A entrada, entre gargalhadas mais ou menos contidas, ainda lhe dá tempo de dizer que “é uma criança” antes de responder ao que queremos saber sobre o passado, presente e futuro da série de culto tecnológico em que se transformou a narrativa do ex-jornalista de videojogos. E que nasceu a 4 dezembro de 2011, no canal de televisão britânico Channel 4, com o mítico episódio em que o primeiro-ministro do Reino Unido, Michael Callow, é obrigado a ter relações sexuais em direto com um porco, para libertar a princesa Susannah, entretanto raptada.

Em “The National Anthem”, os espectadores dividiram-se marcando aquele que ainda hoje caracteriza o público alvo de “Black Mirror”: só vê um episódio até ao fim quem está disposto a não ir imediatamente para a cama a seguir; quem procura urgentemente alguém para falar assim que o palco da televisão se fecha; quem não se importa que a sua mente navegue por uma temporada existencialista durante dias a fio. “Black Mirror” angustia mais do que entretém. E Charlie Brooker parece não incomodar-se com isso.

[o trailer do episódio “The National Anthem”, o primeiro de “Black Mirror”:]

Acompanhado de perto pelo humor mais delicado de Annabel Jones — que também não desiludiu no glamour britânico com que chegou ao Soho –, Brooker é aquilo que se espera dele: um “estranho” geek que dorme mal, raramente tem sonhos, se assusta com tudo à sua volta e se define como um “preocupado ansioso” profissional, como revelou no passado à revista GQ. Quando o Observador lhe pergunta de onde surgem as ideias e histórias com as quais habituou os fãs da série — é sobre tecnologia que já existe puxada ao limite, despertando o medo do que aí vem? –, desvaloriza a complexidade dos argumentos das agora já cinco temporadas: “Quando estamos a criar estas ideias, não tendemos a pensar primeiro no tema e depois na história. Muitos vezes estamos a conversar e, de repente, perguntamos: ‘Não seria interessante se isto acontecesse?’ ou ‘Não seria engraçado se desses por ti numa situação como esta?’. É mais ou menos assim. Não nos sentamos a olhar para o noticiário e dizemos: ‘Temos de falar deste problema e escrever uma história sobre isto”.

"Se achares que um argumentista te está a dizer o que deves pensar [sobre determinado assunto], vais responder-lhe: Vai-te lixar ['Fuck you', no original]. Mas o que consegues fazer com este tipo de drama é alterar a forma como alguém olha para uma situação."
Charlie Brooker

Annabel Jones recusa a ideia de fazer levantar uma onda de medo sobre o futuro, até porque alguns episódios se baseiam em histórias muito contemporâneas, explica. “De certa forma, dramatizamos algo que as pessoas já sentem hoje e extrapolamos isso. Perguntamos: ‘Qual é a consequência natural disto?’ E forçamos um bocadinho a história para o futuro, sim… é uma combinação”.

Rejeitadas as teorias que assentam numa eventual agenda dos criadores para pôr a sociedade a refletir nos prós e contras que advêm da sua relação com a tecnologia, passamos à próxima pergunta. Tendo em conta o largo alcance da série desde que foi integrada na programação da Netflix, não se sentem um pouco responsáveis por criar um ambiente de reflexão sobre a forma como vivemos? É Brooker quem responde: “Não sei. Acho que se as pessoas sentirem que lhes estão a pregar um sermão, desligam a série. É de certeza o que eu faria, porque me soaria a falso”.

— Se achares que um argumentista te está a dizer o que deves pensar [sobre determinado assunto], vais responder-lhe: Vai-te lixar [‘Fuck you’, no original]. Mas o que consegues fazer com este tipo de drama é alterar a forma como alguém olha para uma situação. Tento apenas que as pessoas olhem para determinada situação através do olhar de outra pessoa, por exemplo. Acho que essa é a melhor maneira de  mudar as coisas, de certa forma.

E é desta premissa que Brooker salta para “San Junipero”, um dos episódios mais acarinhados pelos fãs (número 4, da terceira temporada), que conta a história de amor entre Yorkie e Kelly, duas mulheres idosas que se apaixonam na fase final das suas vidas e que têm a oportunidade de sentir e fazer, numa realidade paralela, tudo o que as limitações físicas atuais impedem que façam. Realizado por Owen Harris, “San Junipero” fala mais de liberdade, escolhas e amor do que de inovação tecnológica — ainda que a história só exista graças a ela –, com uma fotografia e um sentido estético inatacável, que parece oscilar entre décadas, ainda que sintamos que nunca chegámos a sair dos anos 1980. É um limbo temporal não real para o qual apetece fugir, ainda que isso implique despedirmo-nos de nós tal e qual como nos conhecemos, e que Brooker dá como exemplo daquilo que sempre quis com “Black Mirror”.

[o trailer do episódio “San Junipero”:]

SAN JUNIPERO (BLACK MIRROR S3E4) Trailer Feature Series Longform from ICE fm on Vimeo.

“Em última instância, é um episódio que fala de um romance entre duas pessoas idosas do mesmo sexo, mas não é isso que parece. Não parece ser uma história conduzida por determinado tema, que tem uma grande agenda por detrás. Muito provavelmente, é a história mais direta alguma vez escrita, porque é sobre uma senhora negra idosa bissexual que se apaixona por uma idosa lésbica tetraplégica, mas nunca parece ser este o grande tema. E muitas pessoas responderam ao episódio não por se tratar de um romance homossexual, mas por se tratar de um romance. E penso que é assim… Se queres mudar alguma coisa no mundo, esta será uma forma de o fazer e não com uma mensagem do tipo: ‘Abre a boca, come isto, faz aquilo, desliga o telefone'”, explica o argumentista. Estava lançado o mote para fazermos a próxima pergunta.

— Então, “Black Mirror” é uma série mais sobre emoções, relações e competências sociais do que sobre tecnologia?
— Ou sobre a falta de competências sociais [risos]. Mas sim, é.

Brooker ri com a sua própria resposta. Nós rimos. Annabela Jones ri e acrescenta: “Não, não é sobre tecnologia. Tratam-se apenas de pequenas histórias pessoais e, por ser uma antologia, podes apresentar uma série de ideias. Algumas pessoas vão relacionar-se com algumas histórias, outras com outras e algumas vão ter uma maior relevância. Sei que algumas pessoas que viram o “Nosedive” [episódio 1 da terceira temporada] reagiram muito ao episódio. Porque, apesar de o acharmos um pouco sarcástico, tive amigos que reagiram muito mal quando o viram, porque [o argumento] disse-lhes algo a um nível pessoal. Muitas vezes, não conseguimos prever [a reação dos espectadores] e se tentássemos fazê-lo estaríamos a usar os instintos e inspirações erradas. Por isso, apresentamos aquelas que achamos serem histórias interessantes e deixamos que as pessoas usufruam delas. Ou não”.

[imagens do episódio “Nosedive”:]

Quando vemos “Nosedive”, realizado por Joe Wright, chegamos a uma sociedade em que todas as pessoas se avaliam mutuamente depois de interagirem. Já andou de Uber, Bolt ou Kapten? Já mandou vir comida de uma app de entrega de refeições? No final, pedem-lhe para avaliar o serviço e o estafeta num sistema de estrelas, sendo que pode deixar comentários escritos sobre a forma como tudo decorreu. Agora, imagine que faz o mesmo sempre que se cruza com alguém na rua, bebe um café ou compra uma peça de roupa. Toda uma sociedade baseada num ranking composto pela opinião que os outros têm de si e que, por sua vez, determina o status socioeconómico em que se encontra. E isso traduz-se no emprego que tem, no bairro em que vive, nos círculos em que se movimenta. É um adeus ao livre-arbítrio, que promete liberdade e se traduz irremediavelmente em asfixia.

"Achei que Trump poderia ganhar e, assumindo que ganhava, que estaríamos mortos em nove meses. Foi uma agradável surpresa perceber que continuamos vivos."
Charlie Brooker

A realidade apanhou a ficção ou então nunca foi ficção

Assustador? Claro. Ficção? Sim, na altura em que Charlie Brooker escreveu o guião de “Nosedive”. Mas não nos dias de hoje. Hoje, a China prepara-se para avançar com um sistema de créditos sociais, em 2020, que se baseia numa tabela de desempenho individual dos cidadãos. A realidade apanhou a ficção e é disso que fugimos quando fugimos de “Black Mirror”: de um reflexo daquilo que são as nossas falhas enquanto seres humanos, sociedade e sistemas democráticos.

E se a conversa em Londres chega a “Nosedive”, depressa chega à política. Se há oito anos, em “The National Anthem”, um primeiro-ministro a ter sexo com um porco em direto podia ser entendido como uma sátira à forma como nos expomos nas redes sociais e como lidamos com a exposição dos outros, em “The Waldo Moment” (episódio três da segunda temporada), resume-se tudo à descrença, seja nos partidos ou nos políticos, e à celeridade com que mudamos a noção que temos do que é ridículo e do que é verdade.

[o trailer do episódio “The Waldo Moment”:]

Em 2013, o Channel 4 transmitia o episódio, realizado por Bryn Higgins, em que um desenho animado — interpretado por um comediante de bastidores com uma carreira falhada — entrava na corrida eleitoral para chegar ao Parlamento britânico. Aquilo que começou quase como uma brincadeira de uma estação de televisão acabou com proporções que ninguém esperava e que soavam, há seis anos, a um cenário pouco fidedigno do que se esperaria de um processo eleitoral credível e respeitoso. Até que, em 2016, um excêntrico Donald Trump vence, ao contrário das expectativas de muitos europeus, as eleições presidenciais norte-americanas de 2016 e segue rumo à Casa Branca. Pouco tempo depois de termos assistido ao resultado do referendo ao Brexit, no mesmo ano, que virou o Reino Unido no sentido contrário ao da União Europeia.

E se tudo isto tem laivos de aspiração política, Brooker é o primeiro a assumir que, apesar de votar sempre no Partido  Trabalhista, “estranhamente, não é assim tão político como as pessoas julgam”, contou à GQ, o que não o impede de trazer o tema para a mesa em que nos sentamos. “Achei que Trump poderia ganhar e, assumindo que ganhava, que estaríamos mortos em nove meses. Foi uma agradável surpresa perceber que continuamos vivos e acho que o mundo se habituou a ele. Porque nos habituamos, não habituamos? Na primeira vez em que ele tweetou algo sobre mísseis nucleares, fiquei do tipo ‘Oh, meu Deus’. E agora quando ele o faz, fico do tipo: “Oh, é só o presidente dos EUA a escrever coisas sobre a guerra nuclear. Começamo-nos a habituar.”

"Todo o Black Mirror é um assassinato psicológico. Só andámos à procura das pessoas que vão integrar o Exército."
Annabel Jones

Quando o Observador lhe pergunta se “The Waldo Moment” está a ganhar vida com a ascensão dos movimentos populistas e nacionalistas na Europa, a resposta é mais otimista do que esperávamos.

— Acho que vivemos uma altura complicada e que o bolo não está a ser dividido em fatias iguais. As pessoas estão a oferecer soluções rápidas para os problemas e essas pessoas vão ser descobertas. O problema são os danos que causam no entretanto. Mas no geral — e sou um pessimista na maior parte do tempo e consigo panicar com o resto — tens de tentar ter uma visão de longo prazo e perceber como é que as coisas vão funcionar. Se vão ser estas pequenas soluções, que as pessoas vão descobrir que não são assim tão simples, acabando por rejeitá-las e isto torna-se apenas numa fase de transição, ou se coisas terríveis vão acontecer”. 

“Black Mirror” saiu da mente de Charlie Brooker, mas é a gigante Netflix que detém os direitos de transmissão desta “paranóia tecnológica” que regressa ao serviço de streaming na quarta-feira, dia 5, com os três episódios que compõem a quinta temporada. Depois de em dezembro terem surpreendido os fãs com a experiência interativa que é “Bandersnatch” — um filme no qual o espectador pode ir escolhendo o rumo da narrativa, controlando as decisões da personagem principal, — as expectativas sobre a quinta temporada elevaram-se depois de a pop star Miley Cyrus ter aparecido no trailer de apresentação.

[o trailer da nova temporada de “Black Mirror”, a quinta:]

Em “Bandersnatch”, todos pudemos brincar a criadores e argumentistas e testar até que ponto queríamos esticar as opções do jovem programador Stefan Butler, que protagoniza a história interativa que deixou fãs e programadores a especular sobre as várias teorias e possíveis ligações em vários fóruns da Internet. É um filme com um total de 5h30 de duração, porque todas as opções e derivações tiveram de ser filmadas e asseguradas — quase como se cada espectador pudesse criar uma narrativa e um final à sua própria semelhança. À pergunta sobre o que vão fazer com todos os dados que recolheram sobre as opções dos espectadores, Brooker respondeu com a sua refinada ironia: “Estamos a recrutar assassinos”. A piada gelada fez-se acompanhar da também refinada ironia de Annabel Jones: “Todo o ‘Black Mirror’ é um assassinato psicológico. Só andámos à procura das pessoas que vão integrar o Exército”.

Com uma quinta temporada rodada em vários países, ainda tivemos tempo de perguntar se alguma vez consideraram filmar um dos episódios em Portugal. Brooker olha para Annabel Jones e pergunta: “Já pensámos em Portugal?” A produtora executiva que acompanha Brooker há tantos anos como aqueles em que a série existe responde: “Sim, sim, já pensámos nisso algumas vezes. Adoraríamos filmar lá, adoro Portugal”, apesar de Brooker confessar que nunca visitou o país. Ainda que os fãs portugueses já lhe tenham visitado a mente sempre que se sentam para ver como Brooker desconstrói a realidade e a combina com a ficção. Seja porque nos faz ter medo ou porque nos faz sonhar.

*O Observador viajou até Londres a convite da Netflix.

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