Em 1986, as salas de cinema receberam “Highlander”, um dos filmes do ano, que em Portugal levou o acrescento “Duelo Imortal” depois do título original. Mesmo com Sean Connery no elenco, o filme ficou mais conhecido pela banda sonora, composta por várias músicas dos Queen incluindo o enorme êxito Who Wants To Live Forever, escrito de propósito para encaixar no argumento. O argumento, esse, baseava-se em Connor MacLeod, o highlander do título, que fazia parte de um grupo de indivíduos quase imortais que só poderiam ser mortos através de decapitação.

Ora, à partida, e à exceção de todo o enredo de “Highlander” se passar na Escócia, nada disto tem que ver com o jogo desta quinta-feira entre o Glasgow Rangers e o FC Porto. Mas se olharmos de forma mais aprofundada para a premissa do filme de Russell Mulcahy, a verdade é que a ligação entre o grupo de imortais e o momento atual dos dragões se torna mais evidente. Sérgio Conceição chegou ao comando técnico do clube na antecâmara da temporada 2017/18, enquanto o FC Porto atravessava a ressaca do recente tetracampeonato do Benfica — o treinador recuperou a identidade que se havia perdido, restaurou aquilo que rapidamente apelidou de “jogar à FC Porto” e tornou-se campeão nacional nesse primeiro ano, impedindo um penta encarnado que destronaria os dragões do estatuto de terem sido os únicos a alcançar esse feito no futebol português.

Ficha de jogo

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Glasgow Rangers-FC Porto, 2-0

Fase de grupos da Liga Europa

Ibrox Stadium, em Glasgow, na Escócia

Árbitro: Davide Massa (Itália)

Glasgow Rangers: McGregor, Yavernier, Helander, Goldson, Jack, Davis, Kent (Aribo, 83′), Kamara, Morelos (Defoe, 85′), Barker (Arfield, 65′), Barisic

Suplentes não utilizados: Foderingham, Edmundson, Ojo, Flanagan

Treinador: Steven Gerrard

FC Porto: Marchesín, Manafá, Pepe (Luis Díaz, 49′), Marcano, Alex Telles, Mbemba, Danilo, Uribe, Corona, Otávio (Fábio Silva, 75′), Soares (Zé Luís, 64′)

Suplentes não utilizados: Diogo Costa, Saravia, Bruno Costa, Nakajima

Treinador: Sérgio Conceição

Golos: Morelos (69′), Davis (73′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Barisic (31′), Danilo (37′), Otávio (39′), Luis Díaz (90+3′)

No ano seguinte, entre uma quebra de rendimento na fase final da temporada e uma derrota no Dragão com o Benfica, o FC Porto falhou o bicampeonato e perdeu o título para o principal rival. Ainda assim, e mesmo com propostas do estrangeiro que visavam levar Sérgio Conceição, o treinador permaneceu enquanto figura absoluta do clube: para a Direção, para o plantel, para os adeptos. Sérgio era, à entrada para esta temporada, praticamente intocável. E isso dava, além de tudo o resto, uma sensação de imortalidade ao FC Porto, quase como se a identidade, a garra e a vontade recuperadas pelo treinador permanecessem apesar e para lá dos resultados. O início desta época, com a derrota na jornada inaugural da Liga, a eliminação da Liga dos Campeões, o empate na Madeira e as ausências de Marega e Alex Telles dos últimos onzes, trouxe críticas a Sérgio Conceição. Mas o problema é que no FC Porto — assim como no grupo onde estava o highlander — a imortalidade parece estar intrinsecamente associada à cabeça. E perde-se assim que a cabeça cair.

Ainda assim, e para o jogo desta quinta-feira, Sérgio Conceição voltou a não convocar Marega: o treinador repetiu, tal como já havia feito anteriormente, que o avançado maliano não está nas melhores condições físicas e que não quer agravar uma lesão que o afaste dos relvados de forma prolongada. Em Glasgow, uma vitória perante o Rangers deixaria o FC Porto perto da passagem aos oitavos — mas para isso era necessário jogar mais do que aquilo que se viu no Dragão com os escoceses e no domingo perante o Desp. Aves, partida que os dragões venceram pela margem mínima e com um nível exibicional sofrível. Na hora de escolher o onze inicial, o treinador dos dragões devolveu a titularidade a Alex Telles (que não jogava de início precisamente desde a receção ao Rangers), lançou Soares no ataque, apoiado por Uribe, Danilo e Otávio no meio-campo e ainda apostou em Mbemba. A entrada do congolês no onze, à partida, destinava-se à posição de trinco: mas bastaram alguns segundos para perceber que não era essa a ideia de Sérgio Conceição.

Mbemba, ao lado de Marcano e Pepe, estava em campo para ser o terceiro central da defesa dos dragões. O plano do FC Porto era evitar ser asfixiado pela pressão subida e intensa do Rangers, como aconteceu no Dragão, mas obrigar os escoceses a provar do próprio veneno. No momento da transição defensiva, quando o adversário tinha a bola, Alex Telles e Manafá não recuavam para junto dos três centrais e ficavam alinhados com os três elementos do meio-campo, formando uma linha de cinco no setor intermédio que ocupava toda a largura do relvado e tinha como objetivo funcionar como tampão ao avançar da equipa do Rangers. O conjunto orientado por Steven Gerrard, que entre o Dragão e o Ibrox Stadium não mudou nada, apresentava-se tal como o tinha feito no Porto: com um meio-campo de três muito combativo e pressionante que juntava à defesa no momento de defender e estendia em formato acórdeão assim que a posse era recuperada, para sair depressa e tentar lançar os homens mais adiantados com poucos passes.

O FC Porto entrou melhor, chegando ao final do primeiro quarto de hora com quatro remates contra zero do Rangers e ainda uma enorme oportunidade de golo, através de um desvio de Pepe na sequência de um canto que um defesa adversário tirou em cima da linha (8′). O arranque forte e sólido dos dragões revelou-se infrutífero e acabou por não durar muito, já que os escoceses conseguiram superiorizar-se em termos de posse a partir do minuto 20, explorando principalmente o corredor esquerdo do ataque, onde Manafá era por vezes apanhado desprevenido face à velocidade de Ryan Kent. Mais do que a velocidade, a equipa de Gerrard procurava sempre tirar partido do contacto físico, nunca receando partir para os duelos individuais onde os jogadores do FC Porto eram normalmente inferiores. Os dragões não conseguiam ligar os setores e estavam a atuar de forma algo incaracterística, tanto pelos pontapés de baliza batidos à maneira longa por Marchesín como pelos passes verticais e diretos de Danilo, sem o habitual transporte de Uribe e Otávio (e o brasileiro, ainda assim, era a par de Danilo o melhor elemento da equipa). O Rangers aproveitava e tentava sempre progredir em transição, à espera da profundidade, ainda que o conjunto de Sérgio Conceição tenha conseguido esgotar todos esses lances — na ida para o intervalo, a ideia era precisamente que o FC Porto estava a jogar melhor sem bola, a defender e a recuperar, do que com bola, a avançar e a criar.

Depois de uma segunda parte com uma única oportunidade de golo, nem Gerrard nem Sérgio Conceição mexeram nas respetivas equipas. O treinador português, contudo, não precisou de esperar cinco minutos até ser obrigado a fazê-lo: Pepe, devido a um desconforto físico que pareceu já ter sido detetado ao intervalo, saiu logo no início do segundo tempo e deu o lugar a Luis Díaz. A entrada do colombiano deixou antecipar uma alteração tática no FC Porto mas Sérgio Conceição provou, uma vez mais, que acreditava a 100% na estratégia que tinha delineado para a partida e manteve a defesa a cinco e os três centrais. Alex Telles passou para o eixo da defesa, Manafá trocou o corredor direito pelo esquerdo e Corona recuou de médio para lateral. Da primeira para a segunda parte, as diferenças foram poucas: a partida manteve-se morna, com poucos picos de interesse e sem ocasiões de golo.

O passar dos minutos, ainda assim, foi empurrando os dragões para junto da própria baliza — a equipa de Sérgio Conceição estava a controlar melhor as movimentações do corredor central do Rangers mas parecia mais preocupada em não perder do que em ganhar. De forma progressiva, os setores intermédio e o mais recuado do FC Porto iam esgotando todo o espaço entre um e outro e afastavam-se do mais adiantado, onde Soares estava nesta altura totalmente isolado. Sérgio Conceição voltou a mexer na equipa já depois da hora de jogo mas voltou a não alterar nada a nível tático e estratégico, trocando apenas o peão da frente, Soares por Zé Luís. O primeiro remate à baliza do Rangers na segunda parte apareceu já ao minuto 67 e por intermédio de Manafá, que subiu para fortalecer o ataque, ao passo que do outro lado os escoceses já tinham três tentativas.

Numa altura em que a equipa de Gerrard até tinha tirado o pé do acelerador, de forma a repensar o esquema e procurar uma nova forma de chegar ao último terço adversário, um lance veloz pelo corredor acabou por deixar à vista todas as fragilidades dos dragões. O FC Porto, que até estava a defender bem, mostrou-se totalmente passivo quando Morelos recebeu à entrada da grande área: o avançado não foi pressionado, Danilo surgiu atrasado e lento à dobra e o colombiano rematou certeiro para bater Marchesín, depois de já ter marcado no Dragão (69′). O golo de Morelos desconstruiu por completo a estratégia e a escassa organização do FC Porto e provocou uma ausência de discernimento momentânea e imediata que abriu espaço ao aumentar da vantagem apenas quatro minutos depois. Morelos, depois de abrir o marcador, ganhou o corredor esquerdo a Corona e assistiu Davis, que à entrada da grande área rematou rasteiro (73′).

O técnico português reagiu com a entrada de Fábio Silva mas já não foi a tempo: o FC Porto não conseguiu reagir e acabou por não criar uma verdadeira oportunidade que ainda permitisse pensar na luta pelo empate. Com esta derrota, os dragões ficaram no último lugar do grupo da Liga Europa estão praticamente obrigados a vencer Feyenoord em casa e Young Boys na Suíça para chegar aos 16 avos de final da competição europeia. Sérgio Conceição surpreendeu com a estratégia apresentada, não a largou e falhou — perdeu Mbemba no meio-campo para o colocar a central, perdeu Alex Telles no corredor para o colocar a central e perdeu Uribe na transição porque só tinha Danilo a fechar junto à defesa. O FC Porto, tal como o highlander do filme que ficou mais conhecido pela banda sonora, começa a perder a imortalidade porque parece começar a perder a cabeça.